Calças púrpura, balalaica branca

Aqui de calças brancas, mas foi pouco depois desta magnífica celebração em Luanda

Eram para aí umas sete da tarde, e eu nunca vira uma tão faiscante polícia de choque. Deslizava, rumoroso, o que nem sabíamos que seria o último ano da Primavera marcelista; do céu escuro deslargava-se uma nervosa chuvinha miúda. Um frio do caraças, devia ser Janeiro. Eu era, em Lisboa, um parolo africanista de 19 anos, com camisas de cor garridas e umas escandalosas calças púrpuras – o artista antigamente chamado Prince deve ter andado por ali e, juntando a chuva e as minhas calças, composto e cantado então o «Purple Rain».

Ali era o Largo do Rato e aquilo era uma manif proibida. Mais uma com que o passa-palavra do Ousar Lutar, Ousar Vencer, esse homúnculo do futuro MRPP, me arrebanhara, fosse contra a guerra colonial, fosse contra a repressão na faculdade. O que eu nunca vira fora uma polícia de choque tão robusta, o esquadrão tão bem montado, os tão extensos bastões, que logo tiravam a vontade comparativista da ancestral e viril altivez do «meu é maior do que o teu». Eram umas escuríssimas sete da tarde, o alcatrão do Largo do Rato reflectia as luzes da cidade, como mais tarde, em Las Vegas, Coppola imitaria no seu «One From the Heart»: uns cem polícias de choque musculavam o começo da noite.

A minha primeira manif fora na Praça do Chile. Lá íamos, com ar de turistas acidentais, a assobiar «A Banda» do senhor Buarque de olhos azuis, prontos para ver, ouvir e dar passagem. Talvez cantar coisas de amor.

Um operário – um tipo vestido inteirinho de azul, casaco de tecido rude azul, calça grossa azul, as manchas de óleo da oficina ou da poeira da construção, só pode ser um operário – apanhou duas pedras soltas da calçada do passeio que enfiou no largo bolso do casaco. Na Praça, mal chegámos, vimos na Rua Morais Soares, erecto – e talvez a minha vadia memória me atraiçoe, talvez não fosse erecto –, em cima de um jipe, o notório Capitão Maltez. Era o comandante daquilo tudo: estavam à nossa espera.

Gesto tocante: estavam sempre à nossa espera, prontos a prodigalizar-nos vigoroso carinho e um aquecido conforto. Alguém terá gritado a palavra de ordem, duas pedras cruzaram como drones os ares, o que terá deixado vazio o bolso do operário. A prestável polícia varreu em segundos a pequena e frígida Praça do Chile, já eu e os meus amigos corríamos como espectros, a safarmo-nos dos PIDES «undercover», que medravam do chão em todas as manifs. E não é que me espalho, surfando de peito o sujo chão da rua, o que deixou a minha maoista balalaica branca em estado acusatório. Levanto-me e enfio-me numa pastelaria que havia, do lado direito de quem desce a Almirante Reis para o Martim Moniz, entre a Praça do Chile e a Portugália. Peço depressa ao balcão a desgraça diarreica de um rissol e um galão e olho para o lado. Quem, Jesus, Maria, José, é que ali estava? Eh pá, eu conheço este gajo!

A tomar o seu café, esse abençoado filho de Benguela, que dava pelo nome de Rui Jordão e era então – antes da pérfida infidelidade de que nem sob tortura direi uma palavra – a mais maravilhosa gazela do Benfica, ao lado de Eusébio e de Nené. Foi uma visão: a guerra colonial, a PIDE, a insípida e cinzenta ditadura evolaram-se, indo esconder-se na lâmpada de Aladino de onde tinham saído.

O que faria ali o senhor Jordão? Acabou de tomar o café, sim. E creio que me sorriu, espantado com a minha suja balalaica branca. Talvez pensasse no velho ditado popular: «Oi, roupa branca em Janeiro é sinal de pouco dinheiro!»

Fosse como fosse, calças púrpura, balalaica branca, a ditadura, como eu, caiu logo depois na lama.

Publicado no Jornal de Negócios, no tão suave Weekend

O amor de Lynch

Ele fuma. E não, o que explica David Lynch, de “Eraserhead” à série “Twin Peaks, The Return”, não é o tabaco, é a sanita. O posterior de David gosta de sanitas inteligentes. As suas preferidas são as Ove Decors: modo de luz nocturna, o assento deliciosamente aquecido, controle remoto e, oh! meu bom deus, vários módulos de cuidadosa lavagem, que nem um bidé.

Lynch explica: “É a tecnologia moderna a funcionar — numa sanita! Com uma lâmpada de espectacular luz azul-lavanda. Lava-nos. Seca-nos. Faz a coisa toda.

É o que, agora que está morto, Lynch acaba de me dizer. “Olá, David!” E aqui estamos os dois a tomar café. Logo ele que ainda gosta mais de café do que eu. E conto-lhe o quanto lamento que nunca tenha vindo à Vila Alice, o meu bairro colonial de Luanda.

Ouvi alguém jurar que os filmes de Lynch eram a prova provada de que ele denunciara o pesadelo por trás do sonho americano. Mentira, protesto eu. A cabeçorra de Lynch era uma cabeça de criança e na sua delirante cabeça de criança pesadelo e sonho são indistinguíveis.

Do que ele gosta é de subúrbios, por isso teria gostado da Vila Alice e de se ter sentado comigo a enfiar formigas, besouros e gafanhotos no meu frasco de vidro preferido. Ou talvez tivesse ajudado a tirar das minhas costas nuas, agarrando-a com delicadeza, a esponjosa barata que um dia lá foi parar em vôo. Ou a pisar uns moles caracóis negros que preguiçavam no capim em dias de chuva. Está tudo roubado a todas as infâncias de subúrbios, no começo de “Blue Velvet”, nesse relvado que pulula de vida, de mil insectos, esses extraterrestres silenciosos e rastejantes que vigiam o mundo.

Segundo café, terceiro cigarro, e Lynch não se contém: “Somos expelidos do ventre da nossa mãe e a vida começa.” (Na Vila Alice, os termos não eram bem estes, mas adiante.) O cinema de Lynch quer ser um tributo de amor a essa vida povoada de psicopatas, refeições bizarras, assassinos, tanto sexo, bruxas más e canções tão boas. Ora, parafraseando o famoso Cristo, em verdade, em verdade vos digo, cada filme dele começa por uma ideia: “Eu amo a ideia pela ideia e amo o que o cinema pode fazer por essa ideia” reforça Lynch. Já bicas vão quatro, cigarros seis.

Os filmes de Lynch são filmes para detectives. Não me entendam mal: são filmes para toda a gente, porque todas as pessoas têm em geral bom espírito detectivesco, todos gostamos de investigar, esmiuçar pistas e descobrir soluções. O David ri-se e conta-me que um dia lhe fizeram este pedido:

– Teoricamente poderia dar-nos chaves para abrir os sentidos ocultos dos seus filmes?
– Teoricamente, sim!
– Quer então fazê-lo agora?
– Não!

E sobre o amor acrescenta: “Amo o cheiro de tabaco. É simples, amo. Odeio o cheiro de maconha.” Lynch não fez drogas: o seu LSD ou crack foi a Meditação Transcendental. A linha estética de Lynch é a humanidade: o amor dele à humanidade é tão grande que quer e gosta de levar a natureza humana ao extremo. Mas recusa fazer arte a partir do sofrimento, ser o artista enrolado na sua própria dor, um visionário obscuro e profético: “Por razões de saúde, estou proibido de pensar nesse tipo de coisas”, explica.

Lynch faz dois tipos de filmes: no final de “Eraserhead”, “Blue Velvet”, “Wild at Heart”, “Twin Peaks”, “Mulholand Drive”, explodimos eufóricos, ou melhor, implodimos numa alegria que só é alegria por ser perplexa. Já no final de “Elephant Man” e de “Straight Story” desfazemo-nos em doçura. Lembro-me: foi Lynch que disse mais ou menos isto. E agora, dez bicas, um maço de cigarros depois, quero é experimentar a sanita dele.

Publicado no Weekend, do Jornal de Negócios

Solidão e anti-solidão

Trubin, guarda-redes do Benfica, era o rosto da solidão. No meio da baliza, no Estádio de Leiria, uma fulgurante solidão vestida de amarelo chupava, como um buraco negro, toda a vida em redor, adeptos, bancadas, jogadores, mesmo o mais invisível dos apanha-bolas.

A solidão de Trubin era, por obra e graça de Jorge Luis Borges, poeta argentino cego, tão abominável como abomináveis são espelhos e cópulas ao reproduzirem seres humanos. Trubin não era só a solidão do guarda-redes no momento do penalty: ali, como os espelhos e as cópulas, os penalties repetiam-se em “looping”, numa cíclica, sísifica solidão.

Mas quero é falar da anti-solidão. Um dia, em Luanda, os mais-velhos Ó Cê Marques e Zeka Lima e Cruz disseram aos putos que eu e o Nelinho Ramos éramos: “Bora lá, ver as 6 Horas do Huambo. Bazamos daqui a meia-hora.” Era uma viagem de 600 km e não havia cá auto-estradas, esse palavrão anti-desportivo que ofende o bom condutor. E o Ó Cê Marques conduzia literalmente de luvas, embora o bólide fosse do Zeka: um Seat 850, especial por ter mais 10 cavalos, famoso na Universidade de Luanda pelas suas palas vermelhas.

Conheci, então, a estrada gárrula. Não houve um átimo de segundo, 600 km para lá, 600 km para cá, que uma palavra não enchesse. A tempestuosa nuvem de solidão que vinha dos morros, do mato, do planalto, batia na chaparia e não conseguia furar a nossa barreira de conversas. Seriam os 10 cavalos suplementares do Seat a inspirar os mais velhos e sábios Orlando e Zeka?

Voltaria ao Huambo, para a recruta de cadetes, chegada de remessa de mancebos luandenses, que as mais vivas moças do Huambo saudavam como bem-vinda, cantando em uníssono uma marcha de que não quero recordar mais do que o primeiro erecto e dissoluto verso: “Caralhim, caralhim, caralhim…

Durante três meses, com o Da Guia, meu camarada de recruta, vínhamos cada fim de semana a Luanda: 1200 km em pouco mais de 48 horas, numa imparável Honda 300 (ou CB350?). A mesma estrada, mas agora, de corpo oferecido ao vento e ao sol: um rumoroso rio, o mato, o planalto, os morros entravam-nos por cada poro. A viagem, não sei se de Pégaso ou de Centauro, que é a viagem de moto, exsuda de solidão: os gritos que piloto e pendura possam soltar, são gritos que o infinito come e que nem o norueguês Munch saberia pintar. Nenhuma angústia, apenas e só uma reverberação do grito de um Deus em êxtase com a velocidade humana e o prodigioso equilíbrio do centauro de duas rodas.

E entre a solidão e a anti-solidão, foi a viagem ao Bié, ao Cuíto, já eu e o Nelinho Ramos adultos, sem os mais velhos Orlando e Zeka. Ida e regresso foram 1430 km feitos na fímbria do pós-apocalipse, na guerra civil de 1976. Viajámos num Citroen boca de sapo. E vejam, o Citroen segue, fulgurante, pela estrada despedaçada, pontes caídas, grandes crateras a roubarem o alcatrão. E pergunto: o que viam no Citroen, e nos dois inopinados habitantes, os faplinhas das patrulhas de estrada: os novos argonautas ou a barca de Caronte?

O Nelinho, caluanda avisado e diplomata, municiou-se de «gasosa». A «gasosa» mais apetecida pelas patrulhas das FAPLA na estrada era o tabaco ou a bebida. “Komé camaradas, estamos aqui, na trincheira? Esse carro manda estilo. Dá já aí uma ajuda na nossa solidão!

O Citroen era a anti-solidão. E esses jovens de 20 anos, kalash na mão, granada no cinturão, eram a anticorrupção. O tabaco ou a bebida, na boca deles, eram um anseio de conversa, uma palavra na sua chana de silêncio.

Trubin acaba de defender o sétimo penalty. Sísifo pode, enfim, descansar.

Publicado no Weekend, do Jornal de Negócios

David Lynch

Toda a gente sabe que Sailor e Lula são dois seres alados. Aí vão eles pelo céu: levam, um a puxar de cada lado, uma alma. Talvez seja a de David Lynch. A alma de Lynch, se é que é uma alma, é um azulíssimo oceano de humanidade. Voa? Voa.

Morreu David Lynch. Mas como é que viveu? O que se pode esperar de um tipo que nasce em Missoula, Montana, que aos dois anos se muda para Sandpoint, Idaho, a seguir para Spokane, Washington, e logo Durham, North Caroline, ou para Boise, Idaho – e podia continuar nunca mais acabando –, numa peregrinação infindável, nómada, transumante. Pode haver mais liberdade do que essa deambulação cigana?

Fez filmes. Como? O que vestia no plateau? Um casaquinho de pele de cobra?  Seria esse o símbolo da sua personalidade, da sua leve e deliciosamente gaga, mas irreprimível liberdade pessoal?

Há uma orelha perdida no grande jardim que é o cinema do mundo; cães ladram; passam carros de bombeiros; uma voz, esse impossível objecto, canta a cappella Llorando por tu amor num palco de cabaret; um louco respira hélio para uma máscara, olhos postos entre as pernas abertas de uma mulher; um cérebro escorre de um homem amarelo. Desta audácia é que Lynch fez o seu cinema.

Eis o cinema: a bruxa boa diz-nos: «Se tens um autêntico coração selvagem, nunca deixarás de lutar pelos teus sonhos!» E a querida Lula diz a Sailor: «Juro-te, meu amor, tu tens o mais doce dos caralhos. É como se até falasse, quando está dentro de mim. Como se tivesse uma pequenina voz só dele.»

Admiram-se que Sailor corra e salte, de carro em carro, Chevrolets, Cadillacs, Mustangs, Buicks, Chryslers, Dodges, para acabar a cantar Love Me Tender à «skinny woman with breasts that stood up and say “Hello”»?

David Lynch, ser alienígena, que veio como um escuteiro de visita breve à Terra, foi-se embora. Conduz agora um Buick em direcção à Lua.

Os satélites de Marte

Aos três pastorinhos apareceu Nossa Senhora. Na azinheira que era, na minha infância e adolescência, a cara de cada um de nós, apareciam borbulhas e espinhas. E desapareciam. E voltavam. O acne, meu Deus! E os cravos na mão, nos cotovelos, nos joelhos? Havia quem os expusesse à lua cheia e fizesse rezas do “Livro de São Cipriano” ou será que deliro? Mas sei que, com um palito, eu lhes passava em cima uma mínima gota de ácido sulfúrico e assim os exterminava. E onde e como, em nome de Deus, tive acesso a ácido sulfúrico?

Talvez seja tudo mentira, talvez eu nem tenha afinal tido infância e adolescência. E peço que vejam, no exemplo que vou já dar, como estremeço e me revolvo na minha própria perplexidade.

Quando Jonathan Swift, no século XVII, escreveu “As Viagens de Gulliver”, fez uma minuciosa descrição de dois satélites de Marte que, é claro, não existiam: ou seja, que nunca nenhum cientista ou telescópio tinha ainda visto. E Swift, em delírio, ficcionou-lhes a posição, o diâmetro, as leis de gravitação a que estavam submetidos. Ora, os cientistas no século XX, 150 anos depois, descobriram esses satélites e corroboraram as descrições do satírico e deprimente Swift, autor também de “Os Benefícios de Dar Peidos”, essa flatulente actividade tão real como os satélites de Marte.

A Vila Alice, meu bairro da Luanda colonial, era como Marte. E apareceram lá dois satélites: para nós teenagers, eram dois “mais velhos”. O primeiro, de uns cansados 20 anos, era um tipo mirrado, com uma tosse que indiciava três antepassadas gerações de tuberculosos. Passara na altura, no cinema Império, um filme de Mauro Bolognini, “O Belo António”. O viril e sedutor Marcello Mastroianni fazia no filme de impotente. E o objecto da sua impotência era Claudia Cardinale, de cujas leis de gravitação me escuso a falar.  Por uma daquelas crueldades, que depressa se tornou benigna, ao feíssimo tipo mirrado, sempre acompanhado pela banda sonora de uma brusca e convulsa expiração do ar em cativeiro em sus pulmões, demos o nome de Belo António.

Caiu-lhe como uma luva: mais do que a nossa perspicaz autoria, valeu a magnânima adopção dele. E o Belo António contou-nos que fizera, muito jovem, a pesca ao bacalhau na gélida Terra Nova, entre os fiordes dos vikings. Até que, chamado para a tropa, se ofereceu para os comandos. Foi o nosso orgulho, depressa defraudado com a sua expulsão ao fim de uma semana. Os pulmões do Belo António não resistiram às exigências de Claudia Cardinale do capitão Chung, se bem sei. E pergunto-me se, com uma audácia de Jonathan Swift, o Belo António não terá inventado tudo isto para impressionar os putos ignaros e altivos que nós eramos?

Acolhemos com cristã misericórdia outro tipo, praticamente a entrar na terceira idade, com 22 anos. Ao contrário do Belo António, o Fred, julgo que se chamava assim, era quase um Paul Newman. E era paraquedista. Primo, se bem me lembro, de um dos heróis do bairro e chefe de uma quadrilha de assaltos a ourivesarias, que fez primeira página nos jornais luandenses, ignominiosa glória do meu bairro.

Mas o Fred era outra loiça, mais vista alegre. Em ociosas tardes na esplanada da Churrasqueira, sol de chapa a bronzear-nos a preguiça, contava-me o prodígio e sonho de um tipo se lançar de três mil metros. Só uma vez se despistou e, ria-se, entrou por um galinheiro dentro, matando mais galinhas do que uma raposa.

O Belo António e o Fred são o inverso dos satélites de Marte pré-anunciados por Swift. Foram vistos uma vez: parecem ter desaparecido para sempre.

Publicado no Weekend, suplemento das sextas do Jornal de Negócios

Leilão para 2025

Entra-se num ano, por exemplo em 2025, como quem, para participar num leilão, visita uma cidade desconhecida, gélida, de língua hostil:  três graus abaixo de zero e a rua onde caminhamos talvez nos leve ao centro, ao calor de um restaurante – o leilão há de ser ali perto. Assim se entra no Novo Ano, a licitar numa língua desconhecida.

Um cidadão francês quis entrar em 2025 ostentando o relógio que o general De Gaulle usava. É, por certo, cidadão de uma das cidades gélidas do norte de França, e comprou o relógio do general, um Lip, num leilão por 550 mil euros. E lembro-me que no pulso do meu pai havia um humilíssimo Cauny, também o primeiro relógio que ele me ofereceu, a mim que sempre um relógio me pareceu meia algema, o laço com que o penoso tempo nos amarra.

Quem foi, de Dallas no Texas, o sonhador em delírio fetichista que, por 27 milhões de dólares, comprou os sapatinhos vermelhos, enfeitados a rubis, que Judy Garland usava no Feiticeiro de Oz? Que poderes inusitados espera o poético comprador encontrar nesses delicados sapatos? Virá mesmo a calçá-los e a bater os tacões à espera da viagem para lá do arco-íris, em glorioso technicolor, descobrindo Donald Trump na Terra de Oz?

Tiro-me de cuidados e é descalço que quero entrar em 2025. Deixar tudo para trás? Mastigar e digerir o que ainda haja para que de 2024 nada sobre? Foi o que, e desculpem ter deixado o seu nome no ano passado, fez o comprador que, por seis milhões de euros, comprou a famosa banana que o intrépido artista Maurizio Catellan colara com fita adesiva a uma parede. E já me lembro, o comprador chamava-se Justin Sun. Comprou essa obra de arte, retirou a fita adesiva, descascou a banana e comeu-a. Valeu a pena? “É muito melhor do que qualquer banana que já comi”, jurou o eufórico Justin.

E quem não quer uma moeda de ouro, se for uma moeda romana! Esta é, talvez, a mais rara das moedas imperiais. Foi leiloada em Genebra e a compra fechada por quase dois milhões de euros. O que a faz rara é ter numa das faces a efígie de um assassino, Brutus, esse a quem, quando o seu punhal rasgou a carne imperial, Júlio César disse um singelo e quase enternecido, seguramente mais expletivo do que dubitativo, “Também tu, meu filho”. Que melhor companhia do que entrar em 2025 com a efigie de um assassino no bolso?

Aqui estou, na cidade gélida, e é a minha vez de licitar. Que quero levar para 2025? Pedirei uma caneta, uma esferográfica, um dos lápis que seja, com que Jorge de Sena escrevia ou rabiscava desenhos? A tesoura de barbeiro com que o meu amigo Mário Prazeres me cortou pela primeira vez os meus cabelos hippies? Ou a bata de enfermeiro do mais velho Correia Nunes, que me punha, de novo, a ouvir os King Crimson, ao limpar-me os rolhões dos ouvidos que a água da praia pusera em rocha?

E lá do fundo dos tempos, já sei, o que queria era mesmo reencontrar a perdida harmónica do meu pai. O bandolim dele, há muito que o dou como perdido, mas onde andará a sua harmónica de dupla face, com 80 palhetas, de fabrico alemão? O meu pai soprava numa Hohner Comet, lindíssima, cromada, estojo de veludo, tão vermelho e a ouro como os sapatinhos do Feiticeiro de Oz. Nas noites tropicais de Natal e de Ano Novo, em Luanda, o musseque ali ao lado todo a rir-se e a dançar em quimbundo, da Hohner Comet a bailar-lhe nos lábios, o Artur, como da lâmpada de Aladino, fazia sair corridinhos, fandango e tangos. Eu quero a dourada Hohner de volta, quero de volta essa felicidade que não se importa de conviver com a morte, com a inescapável pequena dor de estar vivo.

Publicado no Jornal de Negócios, no suplemento Weekend, das sextas-feiras

A ternura do Samurai

A primeira vez que o vi, ó Nossa Senhora da azinheira, foi no cinema da 7.ª esquadra, em Luanda. O filme chamava-se Rocco e os Seus Irmãos, e Alain Delon, na pele de um pugilista, filho de família operária, era um James Dean sem queixinhas. Nesse cinema ao ar livre, e já Delon peregrinara, entretanto, das mãos (e porventura das pernas) de Visconti para as de Antonioni, coisas a que eu era miúdo demais para ligar pevide, e eis que volto a vê-lo em Le Samouraï, em português chamado com alguma propriedade O Ofício de Matar, que era o que no filme fazia: matar pessoas. À estarrecedora beleza de homem, que já estava em Rocco, juntava-se agora uma virilidade toda entretecida em silêncio e solidão. Mas, sobretudo, costurada com indesculpada e prodigiosa vontade de absoluto. No cinema, só Clint Eastwood é digno de beijar a fímbria deste manto. Com uma diferença, Clint é todo feito em pedra, enquanto Delon é tecido nessa carnal matéria humana de que são feitos os sonhos.

Falei de absoluto e vejam: já essa inquietação fizera Delon fugir de casa aos 14 anos, apanhado num porto francês a querer ir para a Améria. Aos 16, numa de “Angola é nossa”, foi voluntário para a tropa, batendo com os jovens costados na guerra da Indochina. Lá, vê num cinema Jean Gabin e decide: quer ser actor. Volta a Paris e o esplendor dos seus 20 anos de veterano de guerra trespassa o nascente feminismo: desse “deuxième sexe”, de que falava a Beauvoir, o corpo de Delon foi o promíscuo contentamento. As mulheres amaram-no de cima abaixo, Romy Schneider mais do que ninguém.

De Delon, “o mais cool dos actores” como disse Leonardo Di Caprio, pode dizer-se tudo, que foi rebelde, delinquente, talvez mafioso, mas tem de se dizer que amou Romy com incensurável nobreza. As cartas que ele lhe escreveu, a última a uma Romy já morta, são o testemunho da irrefreável ternura de um samurai. Eis o seu epitáfio: era actor e sabia escrever cartas de amor.

Manuel S. Fonseca, ex-produtor de cinema, ex-cinéfilo (que agora já não vale a pena)

Texto escrito para a Visão, a pedido do Pedro Almeida

Eis o que é obsceno

A semana passada meti aqui a mão na massa do mais controverso dos cómicos americanos dos anos 60 e 70, Lenny Bruce. Mas acho que não o mimei o suficiente e embalo-o agora com as duas mãos.

Lenny nasceu pertinho de Nova Iorque, num daqueles subúrbios selectos e agradáveis que só aparecem em certos filmes de Spielberg. Talvez por isso Lenny tenha sido o ET que sempre foi.

Desconhece-se, o que a minha mão esquerda se apresta a reparar, que Lenny era um veterano de guerra. Serviu na Marinha, num cruzador que esteve em vários desembarques americanos na Segunda Guerra Mundial, o mais espectacular dos quais em Anzio. Mas Lenny, já com a sua dose de heroísmo bem metida nas veias, queria era bazar.

Ó e se ele conhecia o que pensam Almirantes! Decidiu, por isso, vestir-se de drag queen e fazer pela meia-noite uma aparição no convés do cruzador. Era uma Cinderela que aparecia, fugazmente, a cada meia-noite e logo se evolava. Alguns marinheiros viram a sereia, espantados com o mistério. O rumor do conto de fadas correu e Lenny foi apanhado. Comunicou então ao seu Almirante – não ao nosso – que andava possuído por «anseios homossexuais», uma doida vontade de tirar as calças a toda a tripulação e acabou expulso da Marinha com desonra. E minto, viram as contas dele e verificaram que tinha um gasto monumental em prostíbulos com mulheres. Perceberam o engodo e acabou na marinha mercante a transportar tropas para a Coreia.

Decide depois começar a carreira de cómico de stand-up. Ora, cómicos de stand-up eram então mais do que as mães. Mergulhado na boémia, dando-se com sonhadores, bêbados e strippers – a companhia que eu, como Cristo, na minha tão longínqua juventude mais apreciei – Lenny libertou o arcanjo que trazia aprisionado nas masmorras do seu inconsciente, oh pois! Ora, para quem saiba alguma coisa de anjos, a verdade é que os arcanjos não são fáceis de assoar.

E a Lenny apareceu-lhe uma certa vontade de fazer humor com uma liberdade trocista, sarcástica, quase raivosa. Mesmo a malta dos night-clubs – e podia ser o Dominó do Lobito ou a Tamar de Luanda – se engasgava com o material desabrido de Lenny. Ele falava, saiam-lhe fuck you por todos os lados, e o pessoal ficava com os amendoins atravessados na garganta. Era demasiado blue, mesmo para o pessoal americano da boémia. As televisões baniram-no, está claro, classificando-o como “doentio, críptico e escatológico”.

Um dia, em São Francisco, tiraram-no do palco e prenderam-no por obscenidade. Nos tribunais, testemunharam por ele os bravos Bob Dylan, Norman Mailer, Woody Allen, Allen Ginsberg e James Baldwin.

A partir daí, criou uma Santíssima Trindade – palavrão, polícia, prisão – e fez disso a sua Bíblia. Ouçam-no: “‘Vir-se’ é uma boa expressão. ‘Se’ é um pronome pessoal, ‘vir’ é um verbo. Ou seja, o contexto sexual de ‘vir-se’ é tão vulgar que nem tem peso. Que alguém se incomode por ouvir o termo só pode resultar dessa pessoa não conseguir vir-se!

Veio um jornalista perguntar-lhe por que raio dizia aquelas coisas: “Porque é cómico”, respondeu. E por muito amor, acrescento eu. “Nunca no mundo se dirão suficientes ‘eu amo-te’” ou “Eu ataco as pessoas que separam aqueles que se amam” foram dois dos seus lemas. Outro, mais cínico, deixou-o aos progressistas: “Conseguem compreender tudo, menos as pessoas que não os compreendem!

Encontraram-no morto, nu, uma seringa caída ao lado do braço. Overdose, portanto. Na boa Playboy de então, lavraram-lhe o mais belo dos epitáfios: “Uma última palavra de quatro letras para Lenny: DEAD. Aos 40. Eis o que é obsceno.”  

Publicado no Jornal de Negócios, no suplemento Weekend, essa preciosidade que sai todas as sextas-feiras 🙂 🙂