Beijo, de todos o mais casto

Beatrice: um olhar de Setembro

Bem sei que já estamos em Outubro, a derrapar para Novembro, mas foi Setembro e são estes versos do brasileiríssimo Carlos Drummond de Andrade que acicatam a minha lamentável cabecinha: “Era manhã de Setem­bro e ela me bei­java o membro. Aviões e nuvens pas­savam, coros negros rebramiam, ela me bei­java o membro.”

Eis o beijo que faz explodir em fogo de artificio o imaginário masculino – mesmo o mais empedernido e tóxico representante da masculinidade. Sim, mesmo um ultra cis, hiper hétero tem vontade de fechar os olhos e entoar com voz lírica e num requebro de mariquíssima doçura o verso de Drummond: “e ela me beijava o membro.”  É como ter asas e voar.

Num filme, “Betty Blue, 37,2º le matin”, Béatrice Dalle, talvez a boca mais sensual do mundo nos anos 80, agracia o amado com essa dádiva divina. Béatrice tinha 21 anos e era na vida o contrário do vulcão de sexualidade e aquecimento global que exibe no ecrã: ingénua e pura. E é assim, pura e rebelde, que beija o que beija.

Ora, uma coisa é a derretida poesia que lambe o ecrã quando vemos o filme. Outra coisa é filmar-se a cena. É preciso filmar de vários ângulos. Havia, conta a actriz, necessidade de grandes planos (esses mesmo, em que a câmara está em cima do rosto, dos lábios da actriz e daquela coisa tem-te não caias do actor) e esses momentos, que os versos de Drummond elidem por deles não precisarem, foram para Béatrice momentos e pormenores angustiantes, com electricistas, cameraman, assistentes a borboletear à volta.

E agora vejam, na estreia do filme, mesmo atrás dos 21 anos de Béatrice está a mãe dela, mais católica ainda do que a católica actriz. Quando a imensa boca de Dalle – boca «carnassière» diziam em França, termo que eu diria ficar mais bem traduzido por «carnívora» do que por «carniceira» – vem delicada beijar o indeciso apêndice que, como a Alice de Carroll, ainda hesita entre o “cresço” ou “encolho”, Béatrice jura que ficou pequenina e invisível na cadeira. Dos beijos pode ser, ensina-nos Drummond, o mais casto, mas ter a mãe na fila de trás é abater a tiro o entusiasmo e êxtase do ou da mais devota praticante.

E autorizem-me, por esta vez, uma digressão brejeira. Estava o Professor Salazar, de quem tão pouco se sabe se crescia ou encolhia o recolhido apêndice, no conforto de São Bento, a senhora Dona Maria aos pés da cama com a botija de água quente, quando a lendária voz de Fernando Pessa vibrava, cálida, na esplêndida sala do cinema Tivoli, na Avenida da Liberdade. Fazia a locução da visita da falecida rainha Isabel, comentando as imagens, em particular o harmonioso conjunto casaco, blusa, saia, dele destacando, e cito, “o belíssimo broche todo feito à mão”! O ponto de exclamação é meu e roubei-o à anónima voz que, no escuro da sala, numa revolta vernácula contra o preciosismo lexical salazarista, se insurgiu contestando: “À mão?!”

E o que queria mesmo dizer é que a poesia nunca foi coisa delicada e para delicados e ainda menos para delicadinhos. Drummond canta com lírica e sublime indelicadeza o beijo mais beijo de todos os beijos. E indelicadeza só o é para quem já não tem a inocên­cia de acred­i­tar que com castidade se abrem coxas ou que mão apal­pante deslize pura pela perna que pronta­mente responde.

Noutro poema, o português infausto que foi Jorge de Sena, tomado por uma afrodisíaca pulsão pedagógica, explica-nos o que é mesmo um beijo: “É lín­gua que na boca se agitando, irá de um corpo inteiro desco­brir o gosto, e sobre­tudo o que se oculta em som­bras e nos recan­tos em cabe­los vive.” Beijem.

Publicado no Jornal de Negócios

O mundo grande e muita alto!

Os novos mundos, o grande e o pequeno

São gloriosos os pontapés que o meu neto de dois anos e quatro meses dá no mundo. No mundo grande e no mundo pequeno. Mal seria se eu, como avô, não considerasse o meu neto uma criança sobredotada, um realíssimo génio avant la lettre. Mal começou a balbuciar e logo desatou a dizer os nomes de todos os animais com uma dicção que deixaria embasbacada a senhora dona Glória de Matos, essa actriz de tão límpida pronúncia, que deu aulas de bem falar a Aníbal Cavaco Silva.

Note-se, não foi só dizer com uma perfeição cristalina os nomes, mas sim reconhecê-los no grande globo terrestre insuflável – o mundo grande – que lhe ofereceu, não este circunflexo avô, mas a aguda avó Antónia. Reconhece a águia, minha ternura e preocupação maior, como o leão e a leoa, o tubarão-martelo, o javali, que ele agora, por influência de um desenho animado, a “Bluey”, já chama, em francês “sanglier”, como continua a reconhecer a preguiça, a orca, o guaxinim, que dorme, irredutível em árvores ocas e se banha nos pântanos, e mesmo o pelicano – “O pelicano”, diria branda e degustadamente Marlon Brando, na pele de Vito Corleone, se tivesse ouvido a fruída alegria do meu neto a ver essa grande ave aquática de bico longo.

Esse mesmo gigantesco globo terrestre insuflável, em que aprendeu os nomes dos animais, é a fonte da sua maior alegria física, atestando-lhe vigorosos pontapés em jogo com este exausto avô na sala grande da casa. O meu neto tem um remate de peito de pé já perfeito e delira com duas coisas. Primeiro, quando o mundo vai às alturas e bate no tecto da sala – “Muita alto, avô, muita alto!”, e as graças que eu, ateu, dou a Deus, à Virgem e a São Judas Tadeu pelo belo pé direito da sala. Em segundo lugar, quando eu, brinca na areia de musseque, toco o mundo de chulipa: “Calcanhar, calcanhar”, grita ele e ri e tosse, à beira daquele género de tanta alegria que até choras.

Por facilidade de educação do infante, e protecção da delicada glass menagerie da sala, a avó comprou-lhe um globo terrestre insuflável mais pequeno. É o mundo pequeno. E foi este o primeiro mundo que não resistiu aos pontapés de neto e avô, dos pais e da avó. Uma biqueirada à Otamendi abriu um furo no mundo para espantada decepção do meu neto: “O mundo não salta”, disse ele, e eu a pensar que sim, que às vezes também eu, o mais excitado optimista deste planeta, tenho medo que o mundo não pule nem avance, mesmo nas mãos de sonho do meu aguerrido neto. E eis que, ontem, foi o mundo grande a já não querer saltar. Soprámos no pipo e o ar sai, sei lá bem por onde. Diagnóstico filosófico do meu neto: “Avô, o mundo está vazio!”

Esclareço: o qualificativo acima, aquele “filosófico” que ali plantei, não é acidental ou arbitrário. Um dos jogos familiares que temos é fazer expressões faciais que ensinamos ao nosso candengue: fingimos caras de alegria, caras de tristeza, caras de surpresa. Já o ensinei mesmo a soltar um muxoxo, esse irónico som fino e trocista como uma agulha, que aprendi nos musseques caluandas e que tantas vezes me vem aos lábios quando ouço os alarmismos obscurantistas de Guterres sobre o mundo vazio dele.

Agora, e por causa disso mesmo, decidi ensinar o meu neto a pensar. Primeiro, sentamo-nos e fazemos silêncio os dois. Depois, fechamos as mãos em punho e encostamos um punho a cada maçã do rosto: eis como se pensa, numa atitude e posição que o robusto Auguste Rodin abençoaria, com toda a certeza. E o mundo há de pular e avançar: já vêm, a caminho mais dois globos terrestres, mundo pequeno e mundo grande.

Publicado no Jornal de Negócios

Humor soviético

O melhor do comunismo soviético foi o humor. Ouçam: desapareceu o mítico cachimbo de Estaline. Ele chama Beria, chefe dos seus Pides, para investigar o roubo. Mas Estaline encontra o cachimbo atrás de um sofá. Liga e conta a Beria. “Como assim, camarada – diz Beria – já fuzilámos três que confessaram!”

A tradição de humor negro já vinha da Rússia czarista. A brutal opressão bolchevique reforça-a. E espalha-a aos países da Cortina de Ferro.  “Anedotas da Alemanha do Leste” é uma louca recolha de Reinhard Wagner, e “Humor atrás da Cortina de Ferro”, tem a surpreendente autoria de Simon Wiesenthal, o caçador de nazis. Calin Stefanescu recolheu “Dez anos de humor negro romeno”, sobre a ditadura comunista de Ceausescu:” O que é que no Inverno romeno é mais frio do que a água fria? A água quente!”

Uma “anedokt” dava direito a dez anos de gulag, essa antecâmara da morte para milhões de soviéticos, e até isso foi matéria de humor: um juiz sai a rir-se, descontrolado, da sala de audiências. Outro juiz pergunta-lhe porquê: “Camarada, acabei de ouvir a melhor piada de sempre.” “Diz lá, diz lá”, pediu o segundo juiz. “Ah, não posso, acabei de condenar a dez anos o insurrecto que a contou.”

Para os bolcheviques a tarefa da comédia soviética era “matar com o riso” os inimigos e “corrigir com o riso” os que fossem leais ao regime. Mas o alcance catártico do humor soviético estilhaça essa pretensão de catequese. Ora ouça-se: incógnito, o camarada Estaline estava a nadar num lago. Começa a afogar-se. Um camponês, que vai a passar, atira-se á água e salva-o. Estaline já respira e pergunta-lhe: “Camarada, que recompensa lhe posso dar. Peça o que quiser.” Percebendo quem salvara, o humilde camponês diz: “Não quero nada, nada, camarada. Só peço que não diga a ninguém que fui eu que o salvei.”

Os soviéticos corriam risco só pelo prazer de contar, uma espécie de deleite com as palavras e ideais proibidas: na cidade de Arkhangelsk, o fogo arrasou a delegação do KGB. O telefone toca: um cidadão pede ajuda. Responde o telefonista: “Camarada, não podemos ajudar, o KGB ardeu”. Passam cinco minutos, novo telefonema. “Camarada – repete o telefonista – lamentamos não ajudar, mas o KGB ardeu.” Nem cinco minutos e novo pedido de ajuda. O telefonista reconhece a voz: “Mas é a terceira vez que liga, já lhe disse que o KGB ardeu!” A voz do outro lado: “Eu sei, não imagina o que gosto de ouvir isso!”

Outro objectivo: cultivar o gosto do absurdo: uma ovelha tenta fugir da URSS e na fronteira, a polícia pára-a. “Porque queres ir embora?”. “Por causa do KGB. Estaline mandou-os prender todos os elefantes!” “Mas tu não és um elefante.” “Vai lá explicar isso ao KGB!”

Uma das primeiras decisões de Nikita Khruschev, após a morte de Estaline, foi a de libertar dos gulags os prisioneiros que lá tinham ido malhar à conta da ousadia da “anedokt” política – “Era dura a vida no Gulag? Ora, só os primeiros dez anos!” – o que não impediu que o próprio Khruschev fosse alvo de piadas. Para dinamizar a suinicultura, visitou uma quinta e o jornal local fotografou-o, sozinho, no meio dos porcos. Como legendar a foto: “O camarada Khruschev no meio dos porcos”, “Os porcos e o camarada Khruschev”, “Khruschev rodeado de porcos”? O excelente editor resolveu: “Terceiro a contar da esquerda, o camarada Khruschev.”

E o imparável Khruschev contou mesmo, no famoso discurso do 20.º Congresso, uma “anedokt”. Disse ele: “O camarada Estaline teria gostado de deportar todos os ucranianos.” E rematou: “Não sabia era onde metê-los!”

Publicado no Jornal de Negócios

São livros de Outubro: o sublime tratado por tu

São os meus livros de Outubro, os livros da já velha Guerra e Paz e os livros das chancelas bebés, a Euforia e a Crisântemo, nossos reforços de guerra. Ou de paz?

os meus livros de Outubro
do bas-fond do sexo às delícias da paixão

“No que tange a quem anda com quem, os serviços informativos das mulheres são comprovadamente muito mais eficientes do que os dos homens.” Não obstante, é um homem, Rui de Azevedo Teixeira, que no seu tão enleante e belo O Imenso, Sereno e Doce Rio nos informa: há uma militante «comuna», controleira do PCP, assolada de «febril paixão» por um ex-comando «facho» – e ele por ela. É com este esplêndido livro, história de amor louco, de amor proibido, de cego amor impossível entre dois professores de uma faculdade de letras, a «comuna» e o «facho», que vos começo a falar dos meus livros de Outubro.

De Michel Houellebecq, de Alguns Meses na Minha Vida, já disse tudo numa prosa conspirativa anterior. Mas, depois da sórdida aventura sem amor do seu «filme porno», o que diria ele da «ardente rotina de apaixonados» de O Imenso, Sereno e Doce Rio, talvez o mais belo romance já publicado pela Guerra e Paz? (Obrigado, Rui de Azevedo Teixeira.)

Uma coisa eu sei: abençoados os leitores a que um editor, no mesmo mês, oferece o Apocalipse do amor de Houellebecq e o Génesis da paixão de O Imenso, Sereno e Doce Rio, de Teixeira.

E será que o Houellebecq e o Rui são leitores do imenso René Girard, antropólogo e um dos grandes pensadores do século XX e ainda do XXI? Em Os Livros Não se Rendem, com apoio da Fundação Manuel António da Mota, que o levará à rede nacional de bibliotecas, publico, de Girard, Aquele por Quem o Escândalo Chega. O livro é a mais perfeita introdução ao pensamento do criador do conceito de «desejo e rivalidade miméticos» com o qual Girard construiu a sua teoria da violência. E faz sentido que, a par de Girard, a Guerra e Paz publique também, Darwin na Praia – A Evolução na Toalha e na Areia, de Jean-Baptiste de Panafieu, na mesma colecção em que já se publicaram, sempre na praia, Freud e Churchill. Outra praia é a de Viana do Castelo: Jóia do Atlântico: o texto é de Cristina Baptista e o livro de grande formato, uma centena de fotografias, paginação de luxo, é uma parceria com os AP Hotels & Resorts, prova de as empresas privadas gostam de livros.

E faço um parêntesis infantil. Tragam os vossos filhos – e podem ser os vossos netos! Vamos todos dar «puns». Dos Fantásticos Irmãos Flatulentos (inventados pelo americano M.D.Whalen) publico O Ainda Mais Fedorento Grande Livro dos Puns. Científico, cheio de histórias, loucamente divertido, é um livro para aromatizar o nosso Natal. Ah, e reconhecendo que somos um grande país para «puns», o autor fixou, agora, residência em Portugal. Fim dos «puns» e do parêntesis.

Falo, por fim, de dois livros outonais. De Auschwitz com Amor, de Daniel Seymour, foi considerado um dos livros de 2022 nos EUA. O autor, impressionado com a narrativa da sua sogra, sobrevivente do campo de morte nazi, converteu em livro, de forma vibrante e tocante, a história dela e da irmã: fuga à  morte, triunfo da vida.

Vibrante, como um manifesto deve ser, é Sobressalto pela Esperança, Apelo a Maçons e a Patriotas, de Jaime Ramos. Poderá Portugal concretizar o potencial de prosperidade que tem? Que obrigações éticas têm todos os patriotas, e sobretudo todos os maçons que militam no PS e PSD, partidos de governo? Uma provocação contra o situacionismo pantanoso.

Estes são os livros de Outubro da Guerra e Paz. Mergulhamos, com Houellebecq, numa infecta peregrinação ao bas-fond do sexo, ascendemos com O Imenso, Sereno e Doce Rio, de Rui A. Teixeira, aos deliciosos tormentos de uma paixão alimentada por uma escrita que trata o sublime por tu. É de ler.

E as chancelas da Rita?

Olhem, na Euforia, chancela de romances contemporâneos, a escritora Eliza Clark criou uma personagem, Irina, que gosta de fotografar rapazes. Boy Parts, Partes Masculinas é um título que já antecipa o perigo: as fotografias são sempre de partes comprometedoras. Há riso e há medo. E não exactamente nas partes certas.

Na Crisântemo, a chancela dos livros práticos, a psicóloga Mafalda Correia e a advogada Marcela Almeida querem ajudar quem se divorcia e tem filhos com Divórcio Consciente, Para Aliar o Direito à Parentalidade. Ou não fosse Portugal o segundo país europeu com mais divórcios, 60 em cada 100 casamentos. Pelos vossos filhos, leiam!

A Crisântemo da Rita Fonseca tem outro miminho. Do psicólogo Helder André Matos, publica A Vida Passa Depressa, Mas Ainda Há Tempo, um livro que apresenta 17 consultas acompanhadas por uma Banda Sonora da Vida. Para quem sofre ou tem doença mental? Não, nada disso, para nós, humanos, que queremos dar sentido à vida.

Manuel S. Fonseca, editor

Uma bala a divagar

Claudine no filme “The Party”

Dois deuses juntos, era o que eles, em Aspen, eram. E acrescento, viviam num chalé de que, se nos puxar o chinelo para a analogia, o Olimpo seria um mero sucedâneo. Nesse Inverno de 1975/76, a branquíssima Aspen nem era bem ou só Aspen, era mais uma Sodoma e Gomorra moderna. Festas, se chamarmos festas a orgias, montanhas e slaloms e slaloms de drogas: tanta neve como coca. Ali viviam Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, Kevin Costner. E deixem que, na primeira cena em que os apresento, Claudine Longet esteja, aos gritos, a proibir Vladimir “Spider” Sabich de ir a uma festa, à festa do “Best Breast”, a festa do melhor peitinho, traduzo eu, e não estamos, se bem sei, a falar de “barbecues”.

Sabich era um dos mais queridos e lambidos atletas olímpicos, que meia América queria meter na cama. Solteiríssimo, com tanta vocação para o esqui, de que era campeão olímpico, como falta de vocação para a monogamia. Convidara, porém, Claudine, e com Claudine os três filhos dela, a virem viver com ele naquele paradisíaco resort de neve: “Erros meus, má fortuna, amor ardente.”

Mas quem não se apaixonaria pela formosa Claudine? Com aquela suavidade tão “mignonne” da Françoise Hardy de “tous les garçons et les filles”, Claudine começou a dançar em França e, picada pelo deletério sonho americano, viria a ser corista em Las Vegas, onde encontrou o cantor de voz mais mimosa da América, Andy Williams. Diz-se que Andy a conheceu quando Claudine mudava um pneu – nesse tempo, uma arte – e ele parou para a ajudar. É lenda, mas imprima-se a lenda.

O que não é lenda é que tiveram um casamento feliz, que nem o divórcio espatifou, e três filhos. Claudine ganhou fama e eu, em Luanda (1970?), delirei a vê-la em “The Party”. comédia de Blake Edwards, com o famoso Peter Sellers. Claudine cantava uma das suas baladas delicodoces. Ouvia-a Sellers, que interpretava um jovem indiano (ó repugnante cena de apropriação cultural!) caído de pára-quedas na festa onde não conhecia ninguém, causando o caos involuntário, como se fosse o Jacques Tati do “Playtime”. E bem, não era só ouvi-la: o fiozinho de voz enleava os ouvidos de Sellers e ele ia-se retorcendo contra a parede, encostando as coxas como uma menina, as mãos apertadinhas contra o baixo-ventre, numa aflição que está entre o desejo e a urgência de uma aliviada micção.  

Ouviram o tiro? Só há um tiro nesta história, “one shot” como dizia o De Niro de “O Caçador”. Sabich tinha chegado a casa, os três filhos de Claudine andavam pelos jardins do chalé. Ele despira-se e estava de cuecas, na casa de banho, para um duche, quando Claudine dispara o tiro que fará um furinho fatal na pele lisa da barriga dele, indo a pequena bala divagar pelo seu atlético estômago e pelo olímpico pâncreas.

A vida de Sabich e Claudine era então uma montanha-russa de ciúmes, clamores e muitas substâncias. Consta que Sabich se preparava para a deixar. Claudine diria, em tribunal, que foi só um acidente infeliz: pediu a Sabich que lhe explicasse como era a segurança da pistola, mas o dispositivo avariou e ela disparou a única bala na câmara: bang, só um bang. O tribunal acreditou: condenou-a a 30 dias de prisão, que Claudine cumpriu, como a proibida canção que os Rolling Stones lhe dedicaram conta, aos fins de semana. Claudine, logo no julgamento, apaixonou-se pelo seu advogado de defesa, que deixou a mulher e dois filhos, para casar com ela. Vivem, ainda hoje, num chalé, muito perto do chalé em que, um só tiro, morreu o infausto Sabich, namoradinho de meia América.

Publicado no Jornal de Negócios

A solidão em passo de corrida

Quem, mesmo se fosse na Quinta Avenida, não desataria a correr atrás de Greta Garbo? Liv Ullmann correu. E recordo, como se fosse preciso, que Liv é a actriz norueguesa que se fundiu, na arte e na vida, com o sueco Ingmar Bergman.

Aliás, a rua, e não só a Quinta Avenida, tem um sortilégio indelével na vida dessa norueguesa de beleza metafísica. Liv vinha na rua, na gélida Estocolmo, com uma amiga de recente data, outra actriz, a sueca Bibi Andersson, que trabalhara, amara e vivera com Bergman, quando tropeçaram em quem? Fatal como o destino, no próprio Ingmar pois claro! Já a história de amor com Bibi tinha acabado – ou andaria adormecida – mas mal as viu, Bergman sentiu a bela amizade delas e, ali mesmo, decidiu que queria imiscuir-se, deitar-se, aninhar-se na amizade daquelas duas mulheres. Olhou para Ullmann e disse-lhe: “Quero que faça um filme comigo. Aceita?”

Nasceu, assim, “Persona”, o mais escandalosamente erótico dos filmes, de uma sexualidade seminal e amoral. Uma intensíssima Liv Ullmann, uma actriz sufocada por um trauma, atravessa em silêncio, esfíngica, todo o filme: Bergman ofereceu a Ullmann, logo para a destrunfa, o silêncio de Deus. Ao seu lado, Bibi, a sua enfermeira no filme, fala sem parar, deslargando-se em monólogos perturbadores sobre o aborto, o horror, o sexo, a orgia, o mais escuso e escuro da identidade humana ou, se se quiser, da identidade feminina.

E, uma vez que não sou um daqueles rapazes que escreve no “Público” sobre cinema, não digo mais sobre “Persona”, a não ser que o vejam para perceberem como se pode fazer do “enigma” (seja lá o que o “enigma” for) o mais belo dos filmes.

Fazendo curta uma história tão bonita como longa, confirmo que, tal como acontecera com as suas anteriores protagonistas, Harriet Andersson e Bibi Andersson, Ullmann e Bergman acabaram amantes: nunca se casaram, mas viveram juntos cinco anos, desse amor tendo nascido Anna, a filha de ambos. A perfeita simbiose, e era tanta, que se em “Persona” Bergman pôs no silêncio de Ullmann as suas mais inquietantes angústias, mais tarde pedir-lhe-ia que realizasse um seu pessoalíssimo guião, “Confissões Privadas”. Liv sentiu que o texto lhe queimava as mãos. Porquê ela? Por que razão, de tão íntimo, de tão envolvido com Deus, Bergman não o realizava? E ele explicou: “Porque tu acreditas em Deus e eu não!”

Sim, esqueci-me de Greta Garbo, que deixei lá em cima, sozinha com Deus. Vejam, os americanos, loucos com Liv Ullmann, convidaram-na para Hollywood, primeiro, depois para a Broadway. Estava então Liv a interpretar, no teatro a “Anna Christie”, depois de ter já feito, de Ibsen, com delírio nova-iorquino, “A Casa de Bonecas”. Chamam-lhe “a nova Garbo”. A caminhar pela Quinta Avenida, Liv vê e reconhece uma transeunte discreta. Era a própria Garbo. Pensa: “Aqui estamos nós, duas escandinavas, actrizes, e ambas fomos, ela no cinema, eu no teatro, a Anna Christie! Vou contar-lhe!”

Vejam, Liv já acelerou o passo, a Garbo sente que alguém se aproxima, olha e vê Liv, vira-se e acelera ainda mais. Liv pensa “ela não me viu, tenho de dar ainda mais à perna”. Dá. A Garbo, ameaçada, começa a correr, Liv corre também. Em plena Quinta Avenida, na prodigiosa Nova Iorque, há uma lenda sueca a correr, e uma bergmaniana mulher norueguesa esfalfa-se no seu encalço. A Garbo entra pelo Central Park dentro e Liv pára. Uma chispa bergmaniana atravessou a cabeça de Liv. Vai ali, em corrida pelo Central Park, a inenarrável e pasmosa solidão da Garbo: não tem o direito de a invadir.

Publicado no Jornal de Negócios

O «meu» Houellebecq

Terá sido a palavra «pornografia» que me fez correr? Não sei bem como, mas consegui que Houellebecq me cedesse os direitos deste seu confessional Alguns Meses na Minha Vida. Sim, Houellebecq fala de pornografia, de como se filma: «As únicas actividades que podem ser de facto filmáveis são a masturbação e a felação. Isso é muito bom, mas está longe de ser tudo o que se deseja.»

Confesso eu também: o meu desejo por este livro vem da candura, inocência e franqueza com que o autor o escreve. Michel e a sua mulher fizeram, com uma jovem holandesa, «desejosa de foder um dos seus autores favoritos», um filme pornográfico. O autor queria que desse trio se soltasse uma «tripla corrente de empatia simultânea» que os levasse ao gozo físico extremo. Mas o filme descambou: o que podia correr mal correu muito mal, e tudo acabou em tribunal.

Este é o livro de um episódio sórdido e doloroso que a prosa e as ideias de Houellebecq resgatam, lavando o sexo de toda a culpa e descobrindo na pornografia dignidade e inocência.

Este é um livro sobre a beleza: de como Houellebecq prefere a pornografia, que consiga ser expressão sincera e honesta do desejo – do desejo pelo corpo de outros, do desejo de exibir o próprio corpo, do orgulho no sexo –, a Picasso e a Sade, que elege como símbolos da fealdade.

Queridos amigos, queridas amigas, não basta este «amuse-bouche» para correrem, como eu, a lê-lo? Então sim, sempre vos digo que o islamismo, a tensão islâmica, esse rumor subterrâneo que faz tremer a França é, ao lado da centralíssima cama, o segundo tópico de Alguns Meses na Minha Vida.

É o «meu» Houellebecq. Um pequeno Houellebecq. Será o melhor Houellebecq?

Manuel S. Fonseca, editor

Em jeito de posfácio, um excerto da obra: «Na posição missionária, injustamente depreciada, é perfeitamente possível ao homem, enquanto penetra a mulher, acar…»

Pois é, pois é, têm mesmo de ler! Chega às livrarias a 10 de Outubro. Em pré-venda aqui: https://www.guerraepaz.pt/produto/alguns-meses-da-minha-vida/

Dormir com Annemarie

Poucos, creio, dormiram já com Annemarie! Mas quem já dormiu com Annemarie, deitado ao lado do seu corpo subversivo, sabe o que é um amante sentir-se invencível. Annemarie é francesa, de Lyon, clandestina em Bruxelas, nesse tempo em que se podia ser clandestino até no próprio país.

Eu trago Annemarie comigo desde 1974, memória do meu tempo clandestino no Lobito, quando tive problemas com a tropa portuguesa, e deambulava pelo porto, o maior da costa ocidental de África, à espera, porventura, de poder enfiar-me sub-repticiamente num barco que me levasse às exóticas cidades da Europa. Deambulava e bebia cervejas pouco geladas nos chungosos bares de prostitutas, que os embarcadiços já sem sonhos vinham mal frequentar. Mas o acaso, a que alguns chamam destino, acabou por levar-me até à porta do Liceu Almirante Lopes Alves, onde acabei a dar aulas de literatura portuguesa e angolana, a angolana por uns canhenhos que a professora Irene Guerra Marques concebeu, sem saber que um dia seríamos editor, eu, e co-autora com o Cassé, ela, da mais bela “Antologia da Poesia Angolana” que já se fez, “Entre a Lua, o Caos e o Silêncio, a Flor”, de seu nome.  

Foi no Lobito, onde nunca foi, que conheci Annemarie, bem longe da clandestina Bruxelas. Apareceu-me inteira, vestida e nua, num livro de Herberto, “Os Passos em Volta”. Num conto a que o título “Polícia” empresta a iminência do perigo, Annemarie senta a sua febril e subversiva solidão ao lado do ilegal narrador da trama que a estrangeira imaginação de Herberto concebeu, talvez em espelho de si mesmo.

Nas cinco páginas, da 29 à 33 da minha edição, em que arrebata Herberto, Annemarie é uma das mais belas mulheres que a literatura portuguesa nos oferece. Tão poética como a Léah do conto do mesmo nome de José Rodrigues Miguéis, vem, ao contrário da inocente Léah, carregada de experiência. O corpo, a pele alva e o seio oferecido de Léah não têm pecado, como se nunca tivéssemos saído do Paraíso. Annemarie já saboreou todos os frutos da árvore do conhecimento. Abandonou “um filho de dois anos aos cuidados da sogra” e não sabe se está vivo ou morto o marido que combate na Argélia.

Ao narrador português, perseguido pela polícia, ilegal em Bruxelas, manhosamente protegido por um intermediário ligado ao partido comunista belga, Annemarie oferece o “calor inconcebível” da sua solidão. Furtivos, escondem-se da polícia nas ruas mais escusas, e acabarão a amar-se “até de manhã”, sobre um cobertor do quarto do narrador de que nunca saberemos o nome: lá fora, a persistente chuva belga: “Sentíamos a chuva sobre a terra inteira.”

É esta Annemarie que trago comigo num livro, “Passos em Volta”, publicado por Herberto na Portugália Editora, em 1963. O meu exemplar, quase a desfazer-se, tem o carimbo do Liceu do Lobito, com o número 5064 apontado a esferográfica. Tinha-o em casa quando os sul-africanos entraram na cidade e fugi, a um dia da independência de Angola, para o Sumbe. De vez quando volto ao livro, só para ver essa Annemarie despir-se no desesperado calor humano do quarto que, breve nota prosaica, o ilegal narrador não pagava à senhoria.   O que terá feito Annemarie depois dessa noite de amor num conto português? Terá sido apanhada e presa pela polícia? Voltou ao filho de dois anos? O marido, que combatia na Argélia, terá desertado? Sobretudo, não me digam que já morreu: Annemarie continuará sempre a beber cerveja na irremediável solidão de quem é clandestino nas perdidas horas frias em que o único som é a dolorosa música da chuva.

Publicado no Jornal de Negócios