A mais imoral das belezas

Desejo-vos a todos um Verão tórrido, que vos dê, ao espírito, ao corpo e à pele um «sentido litoral». Um Agosto de mar, porque o mar, mesmo para quem não estima a praia, tem esse fragor do imenso, essa centelha do cosmos descido à nossa pequena Terra. E os livros são como o mar, um movimento perpétuo, negrume e luz, medo e alegria, tormenta e paz. Para os meus amigos, estes livros que querem casar com o mar de Agosto

os meus livros de Agosto
de uns moralíssimos contos infantis à mais imoral das belezas

Não tenho vergonha nenhuma: li muitos contos infantis. Eram, então, para os meus 6 ou 7 anos, mesmo depois, o que hoje é para mim o Houellebecq, que estou a traduzir e publicarei em Outubro – e depois conto como é que a Guerra e Paz se arranjou para conseguir um Houellebcq!

O que eu quero dizer é que os contos infantis, com o lobo mau a deglutir uma avozinha inteira, com os caçadores a rasgar a barriga ao lobo para de lá arrancarem, intacta, a avozinha, deviam soar-me tão transgressores como o que o meu Houellebecq nos conta neste livro sobre o filme pornográfico em que se enredou.

E não largo os contos infantis. Quem os conta é o Mário Carneiro, autor e jornalista televisivo. Chamou ao livro Uma Noite Descansada, Dez Contos Tradicionais Politicamente Correctos. Numa provocação às hostes censórias, o Mário à Branca de Neve e os Sete Anões chamou A Caucasiana e os Sete Reféns da Gravidade. E, seguindo esta linha de «limpa, lava, esfrega e põe a secar», o Mário Carneiro conta os dez contos que enfeitaram a nossa infância, no que, esperamos, nunca venha a ser o absurdo de reescrever assepticamente os livros do passado.

É lindo, é muito divertido e o livro ficou redondinho como a maçã que a Bruxa dá a comer à Bela Adormecida. Quem também quis dormir com a branquinha Bela Adormecida, que por acaso era prima dele, foi o protagonista que o brasileiro Aluíso Azevedo inventou para o seu O Mulato. Contemporâneo e rival de Machado de Assis, Aluísio, filho de portugueses criou em O Mulato um manifesto contra a escravatura e uma denúncia do preconceito racial. Como é que este romance, esse clássico que Jorge de Sena incensa, nunca tinha sido publicado em Portugal?

Outro brasileiro, menino de hoje, é A. E. Bueno. Ganhou, ex-aequo, o Prémio de Revelação Literária UCCLA-CM Lisboa. Publico o seu O Sentido Litoral, admirável estreia poética, tal como publico, do português Leonel Barbosa, a estreia em prosa, com apurado sentido narrativo, Breviário de Medo e Malícia, o outro vencedor do Prémio UCCLA, que será apresentado na Feira do Livro do Porto.

Já disse que estou a traduzir um livrinho polémico de Houellebecq, não disse? Ah, já, mas não disse, pois não,  que antes do Natal, o Rui de Azevedo Teixeira, comando, intelectual e romancista, autor de O Longo Braço do Passado, nos vai surpreender com um novo romance? Está dito e voltamos a falar em Outubro.

E o que diriam os velhos filósofos do livrinho de contos infantis do Mário Carneiro, que reescreve com humor os Três Porquinhos e a Carochinha e o João Ratão? O que diriam eles dos sentidos figurados, das hipérboles, das metáforas, dos eufemismos e, ai-jesus, das catacreses? O que sei é que, a mais de meio de A República, escrita em prosa argumentativa límpida, Platão desata a usar analogias e conta uma das mais belas histórias já escritas, a Alegoria da Caverna. Foi esse texto de grilhões, escuridão, humanos presos a cadeiras, com uma fogueira a lançar sombras sobre a parede de fundo da caverna, que eu agora isolei, dando-lhe autonomia e permitindo, aos que se assustam com a dimensão de A República, que possam ver como nasceu o pensamento humano e a caminhada do conhecimento: ali, nesse pequeno ovo que é a Alegoria da Caverna.  Ah, numa ousadia que vou pagar caro, escrevi eu mesmo, com uma boa ajuda de Allan Bloom e outros sérios estudiosos de Platão, uma introdução ociosa.

Outro filósofo, Roger Scruton, procuraria e certamente reconheceria nos contos infantis, o que é o centro deste seu livro que, esgotadíssimo, reedito em nova versão: Beleza. Leiam, pelas alminhas, leiam, Beleza, Uma Muito Breve Introdução e descubram que a inspiradora beleza também pode ser perturbante, perigosa e até imoral. Pode? Não deve… ah, com a vírgula fica muito melhor: Pode? Não, deve!

Manuel S. Fonseca, editor

Onde se pode aprender a morrer?

Eis uma das minhas fixações: a morte. E, amigos, se é que me autorizam a expansão afectiva, tenho de ser mais exacto: a minha fixação fatal é a morte com classe.

Peço que olhem para os pés de Maria Antonieta. Esqueçam, por um instante, o seu olhar altivo, a fina boca com que dizem, e é falso, ter mandado os descamisados e vítimas da fome comer brioches. Os pés de Maria Antonieta, arquiduquesa da Áustria, rainha consorte odiada pelos grandes de França, caminham para o cadafalso. Mesmo Luis XVI, seu marido, que demorou seis penosos anos a consumar o casamento, ter-se-ia, agora, comovido com esses pés que rasam o chão.

Henri Sanson, o seu carrasco, cortou rudemente o cabelo à rainha e amarrou-lhe as mãos atrás das costas. Foi assim que veio na carreta dos condenados à morte. Manteve-se firme e estóica no meio da turbulência revolucionária. Tanto que o conde de Mirabeau, derradeiro conselheiro, olhando para a desoladora solidão dela e de Luis XVI, terá dito “o rei só tem um homem ao seu lado, a sua mulher”!

Maria Antonieta levanta-se agora para subir os degraus do cadafalso. Oscila e pisa o pé tosco de Sanson, o carrasco, ele mesmo filho do carrasco que guilhotinou o rei. E ouçam, e essa sim, é a boca da rainha de França, a falar: “Perdão, senhor. Não o pisei de propósito!” O sapato cai-lhe do pé e alguém na turba, um fetichista revolucionário, o apanha.

Uns singelos minutos depois, a lâmina voa lá do alto e separa a cabeça do corpo de Maria Antonieta, essa rainha que, espontânea, acabara de dizer, “Perdão, senhor, não o pisei de propósito”.

Maria Antonieta era rainha. Mas como morre um pirata? Venham comigo a Boston. Ainda o século XVIII ia a meio e não morrera nem sequer nascera Maria Antonieta, já William Fly queria ser marinheiro. Alistou-se, na Jamaica, no navio de que era capitão John Green, um comandante cruel. Fly entra depressa em choque com o capitão energúmeno. Com outro marinheiro, ataca o capitão e lança um motim. Querem deitar o capitão ao mar, mas ele agarra-se com uma das mãos a um mastro. Logo um dos amotinados, com um machado, lhe corta a mão pelo punho.

O motim triunfou e Fly é o novo capitão. Desfralda a bandeira dos piratas e converte o barco numa arma de assalto. Durante três meses ele e a tripulação são felizes: assaltam, roubam, como se pudesse voltar a Idade de Ouro da pirataria. Mas ao quinto navio, a tripulação que aprisionam é tão numerosa que acaba por tomar conta do barco de Fly: atiram-no, em Boston, para o calabouço.

A boca de um pirata não é igual à boca de uma rainha. Da boca do pirata William Fly ninguém ouvirá um “Perdão, Senhor!” Tentam tudo, que se arrependa, que reconheça e confesse os crimes. Dirá sempre aos inquisitoriais calvinistas: “Não sou culpado de nenhum crime. O capitão sim, que era selvagem e bárbaro para os marinheiros. Mas a um capitão ninguém o acusa, só aos marinheiros sofredores que se amotinam!”

E vejam-no. Sai da prisão com outros três condenados em pranto. Da sua boca nem um ai. Os pés, sim, parece que voam. Os degraus para o estrado onde montaram as forcas, sobe-os em passos leves e seguros como se fosse uma Leanora pela verdura. Agarra do chão a corda que o há de enforcar. Atira-a sobre a barra em que vai deslizar e olha para o nó fatal. Chama o carrasco, desata o nó e volta a fazê-lo como deve ser. Sorri aos que assistem, deixa cair o bouquet de flores que trazia, como Maria Antonieta o sapato, e acerta, ele mesmo, o nó ao seu pescoço. Morre, minutos depois. Onde se pode aprender a morrer assim?

Publicado no Jornal de Negócios

O riso de Salman Rushdie

o riso de dois amigos

O povo oprimido engana-se muitas vezes, o amigo não. Vou já continuar, mas antes preciso de falar da solidão. Foi numa solidão amena que Salman Rushdie escreveu um romance, “Os Versículos Satânicos”.  Publicou-o em Setembro de 1988, e pergunto-me em que solidão o não leu o ayatollah Khomeini. Talvez tenha adormecido e o livro tenha deslizado para o seu fofo tapete: sem som e sem fúria. Mas alguém lhe falou do retrato que os “Versículos” davam de Maomé, ou disseram-lhe que talvez fosse ele mesmo, Khomeini, o imã do capítulo IV, que vem, do exílio, incitar um povo à revolta, desgraçando-o.

Eis o que, em nome do provo oprimido, fez Khomeini: mandou matar Rushdie, romancista indiano de origem islâmica, no Dia dos Namorados, a 14 de Fevereiro de 1987. Ou seja, e porque os povos oprimidos não mandam matar ninguém, lançou-lhe uma fatwa, forma de mandatar e abençoar todos os devotos para executarem, à faca, a tiro ou à bomba o indiano ímpio.

Vejam agora a solidão de Rushdie. Estava no funeral de um consumado transumante, o escritor Bruce Chatwin, seu amigo do peito. Um funeral é já uma amarga pílula de solidão, esquinas tapadas pelo pálido rosto da morte. Mas chega a fatwa e todos, mesmo os pálidos rostos da morte, se apressam a abandonar Rushdie. À sua volta, refém de uma fatwa Godot, instala-se uma solidão gelada e cósmica. Ninguém, nos intelectuais pares de Rushdie, nem à direita ou sequer à esquerda, veio com o conforto de um aceno, uma singela chávena de chá.

E minto. Veio o amigo. Chamava-se Christopher Hitchens e pôs o seu corpo à frente do corpo de Rushdie. Diz Rushdie, no seu belo “Linguagens da Verdade”, que a tradução de Isabel Lucas faz ainda mais fácil de ler, que todos se enganaram quando disseram que Hitchens era seu amigo íntimo e por isso o defendia: “A verdade é que ele se tornou meu amigo íntimo porque queria defender-me.”

Chris Hitchens já morreu, mas em vida, à defesa sem reservas da liberdade artística de Rushdie, juntou mais mil batalhas: foi de esquerda e foi de direita, tentando seguir sempre a verdade, consciente de que a verdade, a ética e a beleza, umas vezes são de esquerda, outras de direita. As razões de Rushdie, o seu combate ao fanatismo e a esta coetânea e parva ideia da “política de ofensas”, a sua defesa da liberdade e do humor, tiveram em Hitchens um espelho clarificador. Hitchens defendeu-o, hospedou-o em sua casa, levou-o mesmo a um encontro com o presidente americano. Sem medo, Hitchens arriscou, por fraternidade, converter-se num alvo do ódio sectário desses aiatolas que a cada novo Dia dos Namorados, se bem sei, mandavam a Rushdie um postal a recordar que lhe cortariam a garganta ou lhe furariam o coração.

Como é que se agradece a um amigo assim, ao amigo íntimo? Eu lembro a amizade de dois cómicos, Jerry Lewis e Charlie Chaplin. Ficaram íntimos e já Chaplin era mais velho do que três aiatolas juntos, Jerry veio dar um espectáculo a Paris. Estava lá a Europa das artes em peso, mas Jerry não viu Chaplin. Soube depois, em lágrimas, que Chaplin viera, mas se escondera junto ao controle de luzes: não quis ser visto para não roubar protagonismo ao amigo íntimo.

Rushdie, na última vez que jantou com Hitchens, e sabia que era a última – o cancro de Hitchens já pronto a roubá-lo –, foi com outro amigo, o poeta James Fenton, e fizeram rir Hitchens. Fizeram de Jerry e de Charlot, como se fossem adolescentes e a vida estivesse ali em flor, frescos e doces versículos divinos prontos a ser chupados e saboreados. O riso é a raiz da amizade.

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A mão de Deus

Houve uma guerra, é bom que se diga. Eu vou, é certo, falar de paz, da paz gritada, apupada, esfusiante e delirante, que é um jogo de futebol. Não posso é esconder que houve antes uma guerra e que as tropas inglesas da democrática Senhora Tatcher tinham agarrado pelos colarinhos e humilhado as tropas do ditador argentino, o general Videla.

A guerra fora nas Malvinas, mas estava-se agora no Estádio Azteca. O nome do estádio já provoca uma aflição kirkegaardiana: a angústia dos ecos ancestrais do choque de índios e conquistadores ressoava ainda em cada pedra do estádio. E estarem frente a frente, nessa final do Mundial de 1986, no quente mês de Junho, as equipas da Inglaterra e da Argentina, deixa cair sobre esse confronto um épico pingo de “capsaicina”, a substância activa “del chile”, o picante que faz arder “las carnitas” e “los tacos” mexicanos.

No Estádio Azteca, eram duas civilizações que estavam frente a frente. E lembrem-se, o próprio esférico, uma estreia, era uma bola novinha em folha, igualmente chamada Azteca, o nome a acordar os demónios do passado, mas na forma um exemplo de revolução tecnológica, a primeira bola de futebol a dispensar o couro, toda em adricron, um revestimento sintético impermeável, trinta e duas faces hexagonais elegantes, e de uma inquebrantável longevidade. O horror que foi jogar anos com bolas de catechu, a que uma boa chuvada acrescentava meia tonelada: eis o que afogou o mínimo Eusébio que havia em mim, a encharcada e incirculante bola de catechu.

Adiante e vejam, é a nova bola revolucionária que circula entre Shilton e Lineker, entre Valdano e o pequeno deus chamado Diego Maradona. Durante 45 minutos, esses dois mundos ressentidos, a nórdica rosa dos Tudor e o azul ultramarino das pampas, mediram-se, sem se ferir. Mas aos seis minutos da segunda parte, o defesa Steve Hodge tenta aliviar a pressão sobre a sua área: a mal pontapeada bola ganha efeito e cruza a área, Shilton, o guarda-redes, salta com Maradona. O punho de Shilton vai lá acima, a 200 metros de altura, mas o pequeno Maradona, num exercício de prestidigitação, voa 201 metros e a sua cabeça desvia a bola para o fundo das redes. E há aqui um grande imbróglio teológico-anatómico: a cabeça de Maradona ali, a 201 metros de altura, tão perto do céu, foi roubada por um Deus omni-invejoso. Deus, sentindo o homérico jogo de futebol a roçar-lhe os berlindes, quis também jogar e pôs a sua mão onde devia estar a cabeça prodigiosa de Dieguito. Diga-se, àquela bola, toda feita do leve adricron, bastaria, se Deus quisesse, um simples sopro, mas quem não quereria, em 1986, mesmo Deus, sopesar na própria mão a leveza desse revestimento sintético, o poliuretano, à prova de água.

Essa bola, a Azteca do Estádio Azteca de 1986, esteve, até ao ano passado, nas mãos do árbitro tunisino, Ali Bin Nasser, que Deus iludiu naquela jogada disputada nas nuvens. Quis agora o árbitro, sufocado pela insidiosa presença de Deus, descarregar a temível sombra sobre a humanidade. Num leilão, alguém pagou 2,4 milhões de dólares para ter em casa a bola que a mão de Deus tocou. Já pela camisola de Maradona, que ele, no fim do jogo, dera a Hodge, o inglês que fez o involuntário centro, em leilão alguém ofereceu e pagou mais de 9 milhões, a mais cara camisola de futebol de sempre.

Onde está, pergunto eu, a bola que a mão de Vata meteu na baliza do Olympique de Marseille, no jogo que estes meus olhos viram e que levou o Benfica à final da Liga dos Campeões? O que eu não pagaria por ela em leilão!

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Era a Cinemateca adolescente

“Sou o presidente! Quero entrar!” Os corpanzis do Grave e do Gigante empertigaram-se e ripostaram curto e cerce: “Tem bilhete? É que se não tem bilhete, não entra!” Esse presidente da Câmara Municipal de Lisboa não era nem o gentil Carlos Moedas, nem o dinâmico António Costa. Era o lendário Krus Abecassis e queria impedir a exibição do filme “Je Vous Salue Marie”, uma peça mais lírica do que iconoclasta do falecido Godard. Sem bilhete, Abecassis não entrou. Lá dentro, na sala, não diria que a plateia fluía e refluía num arraial de porrada, mas havia empurrões, gritos, choros e polícias de cassetete no ar.

Uns gentis jovens católicos tentavam acabar com a sessão e uns reformados cineclubistas de saudoso coração comunista ajudavam a polícia a caçar os putos de rebeldia fundamentalista: “É aquele. E apanhe aquele, senhor guarda!”. Os putos, com um olhar a faiscar de desdém, chamavam-lhes “seus pides”.

O que quero dizer é que esse mundo invertido era a natureza intrínseca da Cinemateca do João Bénard e do Luís de Pina, nos anos 80. A adolescência da Cinemateca foram esses anos heróicos que nimbavam, diga-se, o coração de cada um dos funcionários.

Havia um par amoroso, com o mesmo amor que unia Jack Lemmon e Walter Matthau nos filmes de Billy Wilder: eram o senhor Gil, motorista de raízes malandras e alfacinhas, e o senhor Alberto, suave príncipe majestoso de Cabinda, responsável pela manutenção. Formavam a cálida e langorosa simbiose luso-africana. “Ó senhor Alberto, estão três lâmpadas fundidas na sala de cinema!” O senhor Alberto olhava, lançava um fundo suspiro e sussurrava vogais e consoantes num arrasto lento: “Uiiii, issso agora…” Era impossível não amar o senhor Alberto.

O senhor Gil era vivo e ladino. Um dia, quase Natal – contou-me a Antónia, minha mulher –, o Gil conduzia o Bénard. Fez conversa falando da chuvada e da ventania que tinha feito essa noite. O Bénard tinha a cabeça, sei lá, na Anna Karina ou na Marilyn, e nada de troco, de modo que o senhor Gil se calou. Nesse silêncio pré-natalício o carro entra na praça de Londres e o Bénard, arregala os olhos de espanto: “Ó sô Gil, deve ter sido uma tempestade de Adamastor. Olhe para estas árvores caídas por todo o lado.” O Gil ia tendo um ataque: “Sôtor, sôtor, quais árvores caídas, isso são os pinheiros de Natal à venda…”

Saí da Cinemateca e levei comigo, para a SIC, o Chico Grave e, em part-time, o Cintra Ferreira. Com eles, eu, que nunca fumei, gostava de chupar uns havanos, os Partagas série D n.º 4, que eram então o supra-sumo. Eles olhavam-me com carinho e, vá lá, condescendência: “Eh pá, este gajo nem fumar sabe!”

Só uma vez tirei o Grave do sério. Ele queria ficar com um carro meu. Decidi vender-lhe o popó e fixei na minha cabeça um preço. Fomos almoçar – era sempre ao domingo. Ele fez uma oferta, 14 mil. “Vai-te lixar, Chico, nem penses”, cortei logo. “Lá estás tu, com a mania que és capitalista”, gritou a luta de classes que lhe morava no ventrículo esquerdo. “Ah, disse-lhe, não julgues que me assustas. 14 é que não!” “Ok, ok, quanto é que pedes?”. “Quero 10 mil”, disse-lhe eu. Ele ia morrendo de confusão, por detestar favores: pagou-me o almoço, está claro. Eram, o Grave e o Cintra, brutos, grandes, masculinos, duas peças de cristal. Adoravam filmes e livros. Quando foram de transumância para o céu, agarrei nas gordíssimas bibliotecas de cada um deles e doei-as (por ordem do Cintra e obedecendo aos herdeiros do Chico) à Biblioteca de Samora Correia. Estão lá, quase portas contíguas, o Grave e o Cintra, juntos na terra como agora no céu.

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Da tola à justa vaidade

Berlim, pois claro

Lá adiante, talvez fale de Helmut Schmidt, ou melhor de Balsemão, mas devo começar por mim, pela minha vaidade mais tola do que mansa. O Liceu Salvador Correia, em Luanda – o mais belo liceu do mundo, e vejam como a inflada ponta da vaidade já penetra a prosa –, tinha como professor de educação física o sôtor Ramalho.

Ora, o sôtor era dado a um certo “hoje, não estou pra isso!”, e em vez de nos levar para os belos campos de jogos ao ar livre do liceu, escolhia, às vezes, o remanso do ginásio para uma espécie de futsal, que inventara. Das caixas do plinto fazia as balizas e jogavam duas equipas de quatro, divididas em dois defesas e dois avançados, sem guarda-redes, sendo que nas áreas das balizas só podiam entrar os avançados de quem atacava e os defesas de quem defendia. O sôtor pôs-me a defesa e eu, ao atacarmos, coloquei-me em cima da área inimiga, a ganhar segundas bolas, como agora se diz, e a empurrar a bolinha sempre lá para dentro. Resultado, a bola quase não saía da área adversária, exponenciando (e vejam como o tempo verbal é mera gabarolice) as nossas oportunidades de golo. Eis que o profe Ramalho percebeu. Apitou e pára tudo! E explicou a toda a gente, por “a” mais “b”, o que os meus impertinentes onze anos estavam ali a fazer, nomeando-me estratega-mor do Portugal de aquém e além-mar. Aquilo podia ter-me dado cabo da vida: senti-me como Eusébio, no Parque dos Príncipes, em Paris, ao marcar três golos ao Santos de Pelé, com 40 mil franceses a gritar, Euzébiô, Euzébiô, Euzébiô.

Para falar, não da tola, mas da justa vaidade, chamo aqui o segundo golo de Eusébio, no 5 a 1 ao Real de Madrid, no Estádio da Luz, em 1965. E lembro, Simões põe a bola no pé de Eusébio, ainda antes da linha de meio-campo. Eusébio avança, num trote elegante. A defesa madrilena reagrupa-se e há três defesas que se chegam à frente. Eusébio deixa que o cerquem, e depois, com um domínio de bola shakespeariano, pé esquerdo e o pujante corpo todo, estilhaça o trágico triângulo opositor. Entra então na área, e quando um quarto defesa vem, de insidioso punhal macbethiano no pé, Eusébio dispara para o golo avassalador e colossal: da antiguidade grega, descera ao Estádio da Luz a mais esplêndida figura mitológica.

Vejam, Eusébio respirava glória, mais do que vaidade. Já Norman Mailer, o famoso escritor, era tão vaidoso, que tinha de purgar esse pecado mortal com a lixivia da autodepreciação.  Candidatou-se a mayor de Nova Iorque e o slogan dos seus cartazes era: “Votem no canalha!” Mas o que quero mesmo contar é a vaidade que tive da justa vaidade alheia. Tinha ido com Francisco Balsemão a Berlim, a uma das suas mil conferências. Também falei, um belo desastre, aliás, e fomos convidados para um jantar num Gambrinus da cidadezita que é Berlim. No fim, estava numa outra mesa, o Embaixador alemão nos EUA, uma estrela que tinha toda a sala em salamaleques. O nosso anfitrião quis conceder a Balsemão a honra de o apresentar à grande vedeta. Assim foi. O ascendente Embaixador alemão, mal chegámos à mesa, interrompeu a apresentação, e foi directo a Balsemão: “O senhor já não se lembra de mim, pois não?” Balsemão ficou meio encavacado (salvo seja) e a estrela da noite rematou: “Estive consigo, quando o senhor era primeiro-ministro de Portugal e se encontrou com Helmut Schmidt. Eu vinha atrás, era o que lhe levava a mala. Que grande momento, para mim.” Quando saímos, Balsemão respirou o ar fresco da noite e disse-me: “Às vezes, sabe bem afagarem-nos o ego.” Fora ele, afinal, a estrela da noite.

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Os meus livros de Julho, mês em que nasci

os meus livros de Julho
escaldantes e apresentados com linguagem de fazer corar

Ah, a cacimbada doçura das minhas adolescentes férias coloniais. Por uma bizarria salazarista, as férias escolares angolanas, do lado de lá do Equador, coincidiam com as de Portugal. No pico do Verão luandense, de Dezembro a Março, grelhávamos no belo liceu. De Junho a Setembro, época de cacimbo, tínhamos férias e, claro, não havia praia para ninguém. Líamos, líamos, líamos. Éramos nómadas e líamos.

Foi a pensar nessas leituras que criei, na Guerra e Paz, uma nova colecção: chama-se Na Praia… e mete toalha e areia. Começo com dois livros: Freud na Praia: A Psicanálise na Toalha e na Areia e Churchill na Praia: O Velho Leão na Toalha e na Areia. São biografias cálidas, belos retratos da vida, ideias e acção de Churchill e Freud: irrecalcadas leituras de prazer e desejo, em que não é preciso matar o pai. Uma promessa: em breve, também Napoleão e Darwin virão estender a toalha nesta areia.

Ofereço-vos ainda outra biografia, mais musical, menos estival. Escrita pelo Prémio Nobel da Literatura, Romain Rolland, A Vida de Beethoven é um clássico tenso e tonitruante, para se ler com a abertura da Quinta Sinfonia em fundo.

Deixem-me convocar outra vez a música, um adagio agora, para apresentar o último romance de Luís Carmelo. Chama-se O Planisfério e foi o último livro que o nosso autor escreveu, antes de partir, ainda tão novo, chamado pelos deuses. De uma prosa suave, de veludo, esta é a história de um protagonista que perde tarde a virgindade. Mas será só isso?

Estes são os livros que chegam às livrarias a 11 de Julho. Estivais? Bom, mas no dia 25 as livrarias entrarão em combustão. Com A Cona de Irène, primeiro. Sobre Irène, e sobre esse singelo atributo que dá título ao livro, escreveu, clandestino, o surrealista Louis Aragon. O livro foi proibido e proibido e proibido (três vezes! três vezes) e, não obstante, na nudez franca da sua linguagem emerge uma ternura ingénua, quase infantil: «Ó fenda, fenda húmida e doce, querido abismo vertiginoso…» Estremece-se? Ligeira e sentidamente.

Perseguido, esfaqueado numa ruela de Roma, foi o grande Pietro Aretino. Tinha escrito Os Sonetos Luxuriosos, um livro em que canta, num vernáculo desabrido, o amor e as atléticas e lascadas posições do amor: «Fodamos, meu amor, fodamos presto, / Pois foi para foder que se nasceu, / E se amas o caralho, a cona amo eu; / Sem isto, fora o mundo bem molesto.» Primeiro livro erótico ilustrado da Renascença, a proibição papal e mil perseguições não o destruíram: aqui está, na tradução de um grande poeta, o brasileiro José Paulo Paes.

Até coro: o fôlego erótico da Guerra e Paz está imparável. Uma narrativa contemporânea, O Monólogo da Faxineira, da autoria de um estreante tardio, o português Alcídio de Oliveira, mereceu à escritora Clara Pinto Correia este elogio: «… da primeira palavra até à última, uma cena de cama muito bem pensada.» E sim, este romance é a descrição incisiva – franca e cheia de ironia – da vida sexual de uma empregada brasileira. Um elogio da imigração? E se for a imigração a elogiar-nos a nós?

Outro romance português é o de Catarina Costa, vencedora, o ano passado, do Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal. É o seu segundo romance, E então, lembro-me, e é uma distopia. Entre reminiscências, uma mulher procura entender quem é. Sabe que está amnésica e castrada: sem memória nem ovários. Um grande arranque.

José Jorge Letria quis dizer O Que Faltava Contar. É um livro memorialista. A cada página episódios de vida, revelações de figuras como José Saramago ou Luiz Pacheco, Zeca Afonso, Ary dos Santos ou Ruy Belo. Era preciso que alguém contasse.

E fecha o mês de Julho um dos mais belos livros de filosofia, o mais legível e bem organizado, que conheço. Chama-se Guia de Filosofia para Pessoas Inteligentes. É de Roger Scruton. É mais do que um livro, é uma conversa connosco, uma conversa sobre «as preocupações mais amplas da civilização», sobre a música ou o sexo, sobre Deus, a liberdade, o demónio ou a História. É o pensamento em majestosa onda alta a varrer a praia e o Verão.

São os meus dez livros de Julho, o mês em que nasci.

Manuel S. Fonseca, o editor

Despe essas calcinhas

“Se o pénis dele não fosse tão maravilhoso, tê-lo-ia deixado há muito!” Foi o que escreveu Carole Mallory na biografia, “Loving Mailer”, que dedicou ao escritor, seu amante durante nove anos. Estou a falar de Norman Mailer, o autor de um tremendo livro de guerra, “Os Nus e os Mortos”, um dos grandes romances americanos do século XX.

Carole publicou as suas memórias de Mailer já três anos depois da morte do escritor, o que significa que podia ser sincera sem risco de vida, por estarem os temíveis punhos de Mailer em sossego e descanso no irrevogável caixão.

O livro saiu, aliás, no mesmo dia em que a última mulher de Mailer, Norris Church Mailer, publicou também outra acalorada biografia, “A Ticket to the Circus”, e numa coisa o sólido testemunho de Norris coincide com o de Carole. Referindo-se ao mesmo atributo de Mailer que Carole louvara, Norris chama-lhe, e peço desculpa pela sincera ternura do palavrão que ela usou, um “esplêndido caralho”.

A incomensurável vaidade de Norman Mailer deve ter explodido no seu caixão em sonoro fogo de artificio. Arthur Miller, o escritor que casou com Marilyn Monroe, e que viveu alguns anos no mesmo prédio de Mailer, lembra-se de Norman ainda ele um chavalo, acabadinho de sair da tropa. Norman veio ter com ele e apresentou-se como escritor. Disse a Arthur que vira e gostara da sua peça “All Our Sons” e que era também capaz de escrever uma peça igual. Arthur não conseguiu conter o riso, impressionado com a convicção e a prosápia daquele novato.

Alberto Moravia, o italiano autor de “Duas Mulheres”, conta que conheceu o megalómano Mailer, no lançamento da nave Apollo 11, que chegaria à Lua. Moravia e Mailer foram convidados a escrever sobre o tema. Lembra o italiano: “Ele escreveu um livro de 500 páginas, eu escrevi três crónicas.”

Se as duas biografias confirmam a pulsão para o excesso e a inadjectivável vaidade desse judeu que um dia José Cardoso Pires foi encontrar em Brooklyn, como numa longa noite de copos, no Festival de Cinema de Tróia, nos contou, ao lado do Fernando Lopes, do Dinis Machado, do Pedro Bandeira Freire, desse bando de Tróia, de que, agora, só estamos vivos a Antónia, o Setúbal, o Zé Navarro e eu, também é verdade que as duas biografias mostram um homem mais amoroso do que a sua propalada e lendária incapacidade de compreender e aprender com as mulheres.

Que Norman Mailer é o dessas biografias? Não parece ser o mesmo que na edição do 50.º aniversário do seu “Os Nus e os Mortos”, escreveu no prefácio: “Odeio tudo aquilo que não seja eu próprio.” Esse seria o Mailer da ficção pura. Na vida, conta Norris, a sua mulher, que foi ela que um dia lhe deu um indesmentível murro nos queixos no meio de uma viva discussão.

Se com a última amante e a última mulher só houve doçuras, os seis casamentos de Mailer e a mariana procissão das velas que poderia fazer-se com as suas aventuras de esfuziante adúltero praticante contam outra história. Esfaqueou uma das suas seis mulheres durante uma festa de alcoólico dilúvio, tendo de ser internado numa clínica psiquiátrica. Porém, Norris e Carole insistem: Mailer era quase um mentor, insistia mesmo para que elas escrevessem. E ambas são mulheres com vida e liberdade amorosa própria antes de conhecerem Mailer, Norris foi amante de Bill Clinton, Carole de De Niro, Warren Beatty e Clint Eastwood.

Sem desprimor, quem poderá ter memória tão comovente como a da primeira noite de Carole e Norman? Escreve Carole que ele lhe disse: “Despe essas lindas cuecas. Quero provar a tua alma!”