Humor soviético

O melhor do comunismo soviético foi o humor. Ouçam: desapareceu o mítico cachimbo de Estaline. Ele chama Beria, chefe dos seus Pides, para investigar o roubo. Mas Estaline encontra o cachimbo atrás de um sofá. Liga e conta a Beria. “Como assim, camarada – diz Beria – já fuzilámos três que confessaram!”

A tradição de humor negro já vinha da Rússia czarista. A brutal opressão bolchevique reforça-a. E espalha-a aos países da Cortina de Ferro.  “Anedotas da Alemanha do Leste” é uma louca recolha de Reinhard Wagner, e “Humor atrás da Cortina de Ferro”, tem a surpreendente autoria de Simon Wiesenthal, o caçador de nazis. Calin Stefanescu recolheu “Dez anos de humor negro romeno”, sobre a ditadura comunista de Ceausescu:” O que é que no Inverno romeno é mais frio do que a água fria? A água quente!”

Uma “anedokt” dava direito a dez anos de gulag, essa antecâmara da morte para milhões de soviéticos, e até isso foi matéria de humor: um juiz sai a rir-se, descontrolado, da sala de audiências. Outro juiz pergunta-lhe porquê: “Camarada, acabei de ouvir a melhor piada de sempre.” “Diz lá, diz lá”, pediu o segundo juiz. “Ah, não posso, acabei de condenar a dez anos o insurrecto que a contou.”

Para os bolcheviques a tarefa da comédia soviética era “matar com o riso” os inimigos e “corrigir com o riso” os que fossem leais ao regime. Mas o alcance catártico do humor soviético estilhaça essa pretensão de catequese. Ora ouça-se: incógnito, o camarada Estaline estava a nadar num lago. Começa a afogar-se. Um camponês, que vai a passar, atira-se á água e salva-o. Estaline já respira e pergunta-lhe: “Camarada, que recompensa lhe posso dar. Peça o que quiser.” Percebendo quem salvara, o humilde camponês diz: “Não quero nada, nada, camarada. Só peço que não diga a ninguém que fui eu que o salvei.”

Os soviéticos corriam risco só pelo prazer de contar, uma espécie de deleite com as palavras e ideais proibidas: na cidade de Arkhangelsk, o fogo arrasou a delegação do KGB. O telefone toca: um cidadão pede ajuda. Responde o telefonista: “Camarada, não podemos ajudar, o KGB ardeu”. Passam cinco minutos, novo telefonema. “Camarada – repete o telefonista – lamentamos não ajudar, mas o KGB ardeu.” Nem cinco minutos e novo pedido de ajuda. O telefonista reconhece a voz: “Mas é a terceira vez que liga, já lhe disse que o KGB ardeu!” A voz do outro lado: “Eu sei, não imagina o que gosto de ouvir isso!”

Outro objectivo: cultivar o gosto do absurdo: uma ovelha tenta fugir da URSS e na fronteira, a polícia pára-a. “Porque queres ir embora?”. “Por causa do KGB. Estaline mandou-os prender todos os elefantes!” “Mas tu não és um elefante.” “Vai lá explicar isso ao KGB!”

Uma das primeiras decisões de Nikita Khruschev, após a morte de Estaline, foi a de libertar dos gulags os prisioneiros que lá tinham ido malhar à conta da ousadia da “anedokt” política – “Era dura a vida no Gulag? Ora, só os primeiros dez anos!” – o que não impediu que o próprio Khruschev fosse alvo de piadas. Para dinamizar a suinicultura, visitou uma quinta e o jornal local fotografou-o, sozinho, no meio dos porcos. Como legendar a foto: “O camarada Khruschev no meio dos porcos”, “Os porcos e o camarada Khruschev”, “Khruschev rodeado de porcos”? O excelente editor resolveu: “Terceiro a contar da esquerda, o camarada Khruschev.”

E o imparável Khruschev contou mesmo, no famoso discurso do 20.º Congresso, uma “anedokt”. Disse ele: “O camarada Estaline teria gostado de deportar todos os ucranianos.” E rematou: “Não sabia era onde metê-los!”

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São livros de Outubro: o sublime tratado por tu

São os meus livros de Outubro, os livros da já velha Guerra e Paz e os livros das chancelas bebés, a Euforia e a Crisântemo, nossos reforços de guerra. Ou de paz?

os meus livros de Outubro
do bas-fond do sexo às delícias da paixão

“No que tange a quem anda com quem, os serviços informativos das mulheres são comprovadamente muito mais eficientes do que os dos homens.” Não obstante, é um homem, Rui de Azevedo Teixeira, que no seu tão enleante e belo O Imenso, Sereno e Doce Rio nos informa: há uma militante «comuna», controleira do PCP, assolada de «febril paixão» por um ex-comando «facho» – e ele por ela. É com este esplêndido livro, história de amor louco, de amor proibido, de cego amor impossível entre dois professores de uma faculdade de letras, a «comuna» e o «facho», que vos começo a falar dos meus livros de Outubro.

De Michel Houellebecq, de Alguns Meses na Minha Vida, já disse tudo numa prosa conspirativa anterior. Mas, depois da sórdida aventura sem amor do seu «filme porno», o que diria ele da «ardente rotina de apaixonados» de O Imenso, Sereno e Doce Rio, talvez o mais belo romance já publicado pela Guerra e Paz? (Obrigado, Rui de Azevedo Teixeira.)

Uma coisa eu sei: abençoados os leitores a que um editor, no mesmo mês, oferece o Apocalipse do amor de Houellebecq e o Génesis da paixão de O Imenso, Sereno e Doce Rio, de Teixeira.

E será que o Houellebecq e o Rui são leitores do imenso René Girard, antropólogo e um dos grandes pensadores do século XX e ainda do XXI? Em Os Livros Não se Rendem, com apoio da Fundação Manuel António da Mota, que o levará à rede nacional de bibliotecas, publico, de Girard, Aquele por Quem o Escândalo Chega. O livro é a mais perfeita introdução ao pensamento do criador do conceito de «desejo e rivalidade miméticos» com o qual Girard construiu a sua teoria da violência. E faz sentido que, a par de Girard, a Guerra e Paz publique também, Darwin na Praia – A Evolução na Toalha e na Areia, de Jean-Baptiste de Panafieu, na mesma colecção em que já se publicaram, sempre na praia, Freud e Churchill. Outra praia é a de Viana do Castelo: Jóia do Atlântico: o texto é de Cristina Baptista e o livro de grande formato, uma centena de fotografias, paginação de luxo, é uma parceria com os AP Hotels & Resorts, prova de as empresas privadas gostam de livros.

E faço um parêntesis infantil. Tragam os vossos filhos – e podem ser os vossos netos! Vamos todos dar «puns». Dos Fantásticos Irmãos Flatulentos (inventados pelo americano M.D.Whalen) publico O Ainda Mais Fedorento Grande Livro dos Puns. Científico, cheio de histórias, loucamente divertido, é um livro para aromatizar o nosso Natal. Ah, e reconhecendo que somos um grande país para «puns», o autor fixou, agora, residência em Portugal. Fim dos «puns» e do parêntesis.

Falo, por fim, de dois livros outonais. De Auschwitz com Amor, de Daniel Seymour, foi considerado um dos livros de 2022 nos EUA. O autor, impressionado com a narrativa da sua sogra, sobrevivente do campo de morte nazi, converteu em livro, de forma vibrante e tocante, a história dela e da irmã: fuga à  morte, triunfo da vida.

Vibrante, como um manifesto deve ser, é Sobressalto pela Esperança, Apelo a Maçons e a Patriotas, de Jaime Ramos. Poderá Portugal concretizar o potencial de prosperidade que tem? Que obrigações éticas têm todos os patriotas, e sobretudo todos os maçons que militam no PS e PSD, partidos de governo? Uma provocação contra o situacionismo pantanoso.

Estes são os livros de Outubro da Guerra e Paz. Mergulhamos, com Houellebecq, numa infecta peregrinação ao bas-fond do sexo, ascendemos com O Imenso, Sereno e Doce Rio, de Rui A. Teixeira, aos deliciosos tormentos de uma paixão alimentada por uma escrita que trata o sublime por tu. É de ler.

E as chancelas da Rita?

Olhem, na Euforia, chancela de romances contemporâneos, a escritora Eliza Clark criou uma personagem, Irina, que gosta de fotografar rapazes. Boy Parts, Partes Masculinas é um título que já antecipa o perigo: as fotografias são sempre de partes comprometedoras. Há riso e há medo. E não exactamente nas partes certas.

Na Crisântemo, a chancela dos livros práticos, a psicóloga Mafalda Correia e a advogada Marcela Almeida querem ajudar quem se divorcia e tem filhos com Divórcio Consciente, Para Aliar o Direito à Parentalidade. Ou não fosse Portugal o segundo país europeu com mais divórcios, 60 em cada 100 casamentos. Pelos vossos filhos, leiam!

A Crisântemo da Rita Fonseca tem outro miminho. Do psicólogo Helder André Matos, publica A Vida Passa Depressa, Mas Ainda Há Tempo, um livro que apresenta 17 consultas acompanhadas por uma Banda Sonora da Vida. Para quem sofre ou tem doença mental? Não, nada disso, para nós, humanos, que queremos dar sentido à vida.

Manuel S. Fonseca, editor

Uma bala a divagar

Claudine no filme “The Party”

Dois deuses juntos, era o que eles, em Aspen, eram. E acrescento, viviam num chalé de que, se nos puxar o chinelo para a analogia, o Olimpo seria um mero sucedâneo. Nesse Inverno de 1975/76, a branquíssima Aspen nem era bem ou só Aspen, era mais uma Sodoma e Gomorra moderna. Festas, se chamarmos festas a orgias, montanhas e slaloms e slaloms de drogas: tanta neve como coca. Ali viviam Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, Kevin Costner. E deixem que, na primeira cena em que os apresento, Claudine Longet esteja, aos gritos, a proibir Vladimir “Spider” Sabich de ir a uma festa, à festa do “Best Breast”, a festa do melhor peitinho, traduzo eu, e não estamos, se bem sei, a falar de “barbecues”.

Sabich era um dos mais queridos e lambidos atletas olímpicos, que meia América queria meter na cama. Solteiríssimo, com tanta vocação para o esqui, de que era campeão olímpico, como falta de vocação para a monogamia. Convidara, porém, Claudine, e com Claudine os três filhos dela, a virem viver com ele naquele paradisíaco resort de neve: “Erros meus, má fortuna, amor ardente.”

Mas quem não se apaixonaria pela formosa Claudine? Com aquela suavidade tão “mignonne” da Françoise Hardy de “tous les garçons et les filles”, Claudine começou a dançar em França e, picada pelo deletério sonho americano, viria a ser corista em Las Vegas, onde encontrou o cantor de voz mais mimosa da América, Andy Williams. Diz-se que Andy a conheceu quando Claudine mudava um pneu – nesse tempo, uma arte – e ele parou para a ajudar. É lenda, mas imprima-se a lenda.

O que não é lenda é que tiveram um casamento feliz, que nem o divórcio espatifou, e três filhos. Claudine ganhou fama e eu, em Luanda (1970?), delirei a vê-la em “The Party”. comédia de Blake Edwards, com o famoso Peter Sellers. Claudine cantava uma das suas baladas delicodoces. Ouvia-a Sellers, que interpretava um jovem indiano (ó repugnante cena de apropriação cultural!) caído de pára-quedas na festa onde não conhecia ninguém, causando o caos involuntário, como se fosse o Jacques Tati do “Playtime”. E bem, não era só ouvi-la: o fiozinho de voz enleava os ouvidos de Sellers e ele ia-se retorcendo contra a parede, encostando as coxas como uma menina, as mãos apertadinhas contra o baixo-ventre, numa aflição que está entre o desejo e a urgência de uma aliviada micção.  

Ouviram o tiro? Só há um tiro nesta história, “one shot” como dizia o De Niro de “O Caçador”. Sabich tinha chegado a casa, os três filhos de Claudine andavam pelos jardins do chalé. Ele despira-se e estava de cuecas, na casa de banho, para um duche, quando Claudine dispara o tiro que fará um furinho fatal na pele lisa da barriga dele, indo a pequena bala divagar pelo seu atlético estômago e pelo olímpico pâncreas.

A vida de Sabich e Claudine era então uma montanha-russa de ciúmes, clamores e muitas substâncias. Consta que Sabich se preparava para a deixar. Claudine diria, em tribunal, que foi só um acidente infeliz: pediu a Sabich que lhe explicasse como era a segurança da pistola, mas o dispositivo avariou e ela disparou a única bala na câmara: bang, só um bang. O tribunal acreditou: condenou-a a 30 dias de prisão, que Claudine cumpriu, como a proibida canção que os Rolling Stones lhe dedicaram conta, aos fins de semana. Claudine, logo no julgamento, apaixonou-se pelo seu advogado de defesa, que deixou a mulher e dois filhos, para casar com ela. Vivem, ainda hoje, num chalé, muito perto do chalé em que, um só tiro, morreu o infausto Sabich, namoradinho de meia América.

Publicado no Jornal de Negócios

A solidão em passo de corrida

Quem, mesmo se fosse na Quinta Avenida, não desataria a correr atrás de Greta Garbo? Liv Ullmann correu. E recordo, como se fosse preciso, que Liv é a actriz norueguesa que se fundiu, na arte e na vida, com o sueco Ingmar Bergman.

Aliás, a rua, e não só a Quinta Avenida, tem um sortilégio indelével na vida dessa norueguesa de beleza metafísica. Liv vinha na rua, na gélida Estocolmo, com uma amiga de recente data, outra actriz, a sueca Bibi Andersson, que trabalhara, amara e vivera com Bergman, quando tropeçaram em quem? Fatal como o destino, no próprio Ingmar pois claro! Já a história de amor com Bibi tinha acabado – ou andaria adormecida – mas mal as viu, Bergman sentiu a bela amizade delas e, ali mesmo, decidiu que queria imiscuir-se, deitar-se, aninhar-se na amizade daquelas duas mulheres. Olhou para Ullmann e disse-lhe: “Quero que faça um filme comigo. Aceita?”

Nasceu, assim, “Persona”, o mais escandalosamente erótico dos filmes, de uma sexualidade seminal e amoral. Uma intensíssima Liv Ullmann, uma actriz sufocada por um trauma, atravessa em silêncio, esfíngica, todo o filme: Bergman ofereceu a Ullmann, logo para a destrunfa, o silêncio de Deus. Ao seu lado, Bibi, a sua enfermeira no filme, fala sem parar, deslargando-se em monólogos perturbadores sobre o aborto, o horror, o sexo, a orgia, o mais escuso e escuro da identidade humana ou, se se quiser, da identidade feminina.

E, uma vez que não sou um daqueles rapazes que escreve no “Público” sobre cinema, não digo mais sobre “Persona”, a não ser que o vejam para perceberem como se pode fazer do “enigma” (seja lá o que o “enigma” for) o mais belo dos filmes.

Fazendo curta uma história tão bonita como longa, confirmo que, tal como acontecera com as suas anteriores protagonistas, Harriet Andersson e Bibi Andersson, Ullmann e Bergman acabaram amantes: nunca se casaram, mas viveram juntos cinco anos, desse amor tendo nascido Anna, a filha de ambos. A perfeita simbiose, e era tanta, que se em “Persona” Bergman pôs no silêncio de Ullmann as suas mais inquietantes angústias, mais tarde pedir-lhe-ia que realizasse um seu pessoalíssimo guião, “Confissões Privadas”. Liv sentiu que o texto lhe queimava as mãos. Porquê ela? Por que razão, de tão íntimo, de tão envolvido com Deus, Bergman não o realizava? E ele explicou: “Porque tu acreditas em Deus e eu não!”

Sim, esqueci-me de Greta Garbo, que deixei lá em cima, sozinha com Deus. Vejam, os americanos, loucos com Liv Ullmann, convidaram-na para Hollywood, primeiro, depois para a Broadway. Estava então Liv a interpretar, no teatro a “Anna Christie”, depois de ter já feito, de Ibsen, com delírio nova-iorquino, “A Casa de Bonecas”. Chamam-lhe “a nova Garbo”. A caminhar pela Quinta Avenida, Liv vê e reconhece uma transeunte discreta. Era a própria Garbo. Pensa: “Aqui estamos nós, duas escandinavas, actrizes, e ambas fomos, ela no cinema, eu no teatro, a Anna Christie! Vou contar-lhe!”

Vejam, Liv já acelerou o passo, a Garbo sente que alguém se aproxima, olha e vê Liv, vira-se e acelera ainda mais. Liv pensa “ela não me viu, tenho de dar ainda mais à perna”. Dá. A Garbo, ameaçada, começa a correr, Liv corre também. Em plena Quinta Avenida, na prodigiosa Nova Iorque, há uma lenda sueca a correr, e uma bergmaniana mulher norueguesa esfalfa-se no seu encalço. A Garbo entra pelo Central Park dentro e Liv pára. Uma chispa bergmaniana atravessou a cabeça de Liv. Vai ali, em corrida pelo Central Park, a inenarrável e pasmosa solidão da Garbo: não tem o direito de a invadir.

Publicado no Jornal de Negócios

O «meu» Houellebecq

Terá sido a palavra «pornografia» que me fez correr? Não sei bem como, mas consegui que Houellebecq me cedesse os direitos deste seu confessional Alguns Meses na Minha Vida. Sim, Houellebecq fala de pornografia, de como se filma: «As únicas actividades que podem ser de facto filmáveis são a masturbação e a felação. Isso é muito bom, mas está longe de ser tudo o que se deseja.»

Confesso eu também: o meu desejo por este livro vem da candura, inocência e franqueza com que o autor o escreve. Michel e a sua mulher fizeram, com uma jovem holandesa, «desejosa de foder um dos seus autores favoritos», um filme pornográfico. O autor queria que desse trio se soltasse uma «tripla corrente de empatia simultânea» que os levasse ao gozo físico extremo. Mas o filme descambou: o que podia correr mal correu muito mal, e tudo acabou em tribunal.

Este é o livro de um episódio sórdido e doloroso que a prosa e as ideias de Houellebecq resgatam, lavando o sexo de toda a culpa e descobrindo na pornografia dignidade e inocência.

Este é um livro sobre a beleza: de como Houellebecq prefere a pornografia, que consiga ser expressão sincera e honesta do desejo – do desejo pelo corpo de outros, do desejo de exibir o próprio corpo, do orgulho no sexo –, a Picasso e a Sade, que elege como símbolos da fealdade.

Queridos amigos, queridas amigas, não basta este «amuse-bouche» para correrem, como eu, a lê-lo? Então sim, sempre vos digo que o islamismo, a tensão islâmica, esse rumor subterrâneo que faz tremer a França é, ao lado da centralíssima cama, o segundo tópico de Alguns Meses na Minha Vida.

É o «meu» Houellebecq. Um pequeno Houellebecq. Será o melhor Houellebecq?

Manuel S. Fonseca, editor

Em jeito de posfácio, um excerto da obra: «Na posição missionária, injustamente depreciada, é perfeitamente possível ao homem, enquanto penetra a mulher, acar…»

Pois é, pois é, têm mesmo de ler! Chega às livrarias a 10 de Outubro. Em pré-venda aqui: https://www.guerraepaz.pt/produto/alguns-meses-da-minha-vida/

Dormir com Annemarie

Poucos, creio, dormiram já com Annemarie! Mas quem já dormiu com Annemarie, deitado ao lado do seu corpo subversivo, sabe o que é um amante sentir-se invencível. Annemarie é francesa, de Lyon, clandestina em Bruxelas, nesse tempo em que se podia ser clandestino até no próprio país.

Eu trago Annemarie comigo desde 1974, memória do meu tempo clandestino no Lobito, quando tive problemas com a tropa portuguesa, e deambulava pelo porto, o maior da costa ocidental de África, à espera, porventura, de poder enfiar-me sub-repticiamente num barco que me levasse às exóticas cidades da Europa. Deambulava e bebia cervejas pouco geladas nos chungosos bares de prostitutas, que os embarcadiços já sem sonhos vinham mal frequentar. Mas o acaso, a que alguns chamam destino, acabou por levar-me até à porta do Liceu Almirante Lopes Alves, onde acabei a dar aulas de literatura portuguesa e angolana, a angolana por uns canhenhos que a professora Irene Guerra Marques concebeu, sem saber que um dia seríamos editor, eu, e co-autora com o Cassé, ela, da mais bela “Antologia da Poesia Angolana” que já se fez, “Entre a Lua, o Caos e o Silêncio, a Flor”, de seu nome.  

Foi no Lobito, onde nunca foi, que conheci Annemarie, bem longe da clandestina Bruxelas. Apareceu-me inteira, vestida e nua, num livro de Herberto, “Os Passos em Volta”. Num conto a que o título “Polícia” empresta a iminência do perigo, Annemarie senta a sua febril e subversiva solidão ao lado do ilegal narrador da trama que a estrangeira imaginação de Herberto concebeu, talvez em espelho de si mesmo.

Nas cinco páginas, da 29 à 33 da minha edição, em que arrebata Herberto, Annemarie é uma das mais belas mulheres que a literatura portuguesa nos oferece. Tão poética como a Léah do conto do mesmo nome de José Rodrigues Miguéis, vem, ao contrário da inocente Léah, carregada de experiência. O corpo, a pele alva e o seio oferecido de Léah não têm pecado, como se nunca tivéssemos saído do Paraíso. Annemarie já saboreou todos os frutos da árvore do conhecimento. Abandonou “um filho de dois anos aos cuidados da sogra” e não sabe se está vivo ou morto o marido que combate na Argélia.

Ao narrador português, perseguido pela polícia, ilegal em Bruxelas, manhosamente protegido por um intermediário ligado ao partido comunista belga, Annemarie oferece o “calor inconcebível” da sua solidão. Furtivos, escondem-se da polícia nas ruas mais escusas, e acabarão a amar-se “até de manhã”, sobre um cobertor do quarto do narrador de que nunca saberemos o nome: lá fora, a persistente chuva belga: “Sentíamos a chuva sobre a terra inteira.”

É esta Annemarie que trago comigo num livro, “Passos em Volta”, publicado por Herberto na Portugália Editora, em 1963. O meu exemplar, quase a desfazer-se, tem o carimbo do Liceu do Lobito, com o número 5064 apontado a esferográfica. Tinha-o em casa quando os sul-africanos entraram na cidade e fugi, a um dia da independência de Angola, para o Sumbe. De vez quando volto ao livro, só para ver essa Annemarie despir-se no desesperado calor humano do quarto que, breve nota prosaica, o ilegal narrador não pagava à senhoria.   O que terá feito Annemarie depois dessa noite de amor num conto português? Terá sido apanhada e presa pela polícia? Voltou ao filho de dois anos? O marido, que combatia na Argélia, terá desertado? Sobretudo, não me digam que já morreu: Annemarie continuará sempre a beber cerveja na irremediável solidão de quem é clandestino nas perdidas horas frias em que o único som é a dolorosa música da chuva.

Publicado no Jornal de Negócios

Noite, tarde ou manhã de amor

Entre dois Kennedys

Juro, não foi a Marilyn de ancas violentas e de louro cabelo em fogo que morreu a 4 de Agosto de 1962. Há gravações de Marilyn a fazer amor com John F. Kennedy, tão presidente então dos Estados Unidos da América como hoje Marcelo o é de Portugal. As gravações revelou-as o detective privado Fred Otash, proprietário, aliás, de uma delas. Toda a casa de Marilyn estava polvilhada de microfones. A cama também. Nessa noite, tarde ou manhã de amor com John, era a Marilyn de ancas violentas e louro cabelo em fogo que desenrolava um ciclone audível nos crispados lençóis de cambraia.

John só conheceu, aliás, essa Marilyn – nunca soube que havia outra. Viu-a, pela primeira vez em 1954, era Marilyn casada com Joe Di Maggio, o Messi ou Cristiano Ronaldo desse tempo. Foi numa festa em Los Angeles, ainda John não era presidente. Ficou de arregalados olhos de cherne postos nela. Tanto, tanto, que Di Maggio, o inseguro Di Maggio, que também só conhecia essa Marilyn fulgurante, curvilínea e vulcânica, a quis arrancar da festa, bazando dali para fora. Já em 1960, quando John se candidatou às primárias do Partido Democrático, Marilyn veio apoiá-lo. Houve um jantar, mas antes desapareceram os dois. Quando voltaram, uma eufórica Marilyn sussurrou a ouvidos amigos, que John tinha sido “very democratic” e “very penetrating”.

A Marilyn de John é a que lhe canta o “Happy Birthday… Mr. President”, é a que, noutro jantar, por debaixo da mesa, deixa que John lhe acaricie as coxas e que a mão dele vá descalça, segura, incorrigível por ali acima, na direcção da rosa dos ventos até tocar numa certa delicadeza húmida e estremecida. Marilyn viera sem cuequinhas, uma tanga que fosse, e, nas palavras dela, que eu componho à minha maneira, “ele tocou e recuou assustado, a cara vermelhíssima”.

Foi com esta Marilyn que dormiu uma estimável lista de homens. Também o cunhado de John, o actor Peter Lawford, que foi quem lhe a apresentou, e mesmo o irmão de John, Bob Kennedy. Todos amavam Marilyn e era o que lhe juravam na corte íntima à sua volta. Ela dizia o contrário: “Não, não me amam todos. Os únicos que me amam são os gajos que se sentam a ver-me no cinema e a bater uma.”

Mafia, FBI, a própria Marilyn, todos inundaram a casa dela de escutas. E John, o presidente, teve de fugir de Marilyn, como já acontecera ao seu dedo impertinente. Deixou de lhe atender o telefone, deixou sem respostas bilhetes e cartas. Mandou o irmão, Bob, explicar-lhe o inexplicável, o fim do recreio. E Bob, que já dormira com a mesma Marilyn que John, descobriu a outra Marilyn: a Marilyn que o cineasta Elia Kazan encontrou um dia em lágrimas, num estúdio, logo ficando amantes, a mesmo Marilyn que o escritor Arthur Miller, tendo casado com a girândola de estrelas e cometas, acabou por descobrir em casa, a sofrida, sonhadora, íntima Marilyn.

Bob viu e deixou Marilyn transferir para ele o que, na verdade, ela teria querido dar ao Mr. President. Uma tremenda nuvem de afecto, toda em pétalas, de uma pureza nocturna. E Bob, batido pela empatia e compaixão, tombou apaixonadíssimo pelo outro lado da actriz, pela outra Marilyn. Vinha vê-la e beijavam-se como miúdos de liceu, escondidos, exaltados, o corpo todo a tremer. E Marilyn acreditava que esse homem, casado e de família católica, com sete filhos, se ia divorciar e casar com ela. Foi essa Marilyn que, ao descobrir que voltaria à implacável solidão, desligou os tubos quentes do coração, e se deixou morrer. A de ancas violentas era só um holograma da Marilyn autêntica.

Publicado no Jornal de Negócios

A amizade (masculina)

Estes são os gangsters de Coppola

Ninguém percebe nada de amizade masculina, a começar pelos próprios homens. A amizade masculina é uma bagagem que atrapalha qualquer gajo. Como na história do caçador furtivo que traz aos ombros o veado que acabou de abater e lhe aparece o fiscal de caça. O homem nega: “A caçar? Eu? Jamais.” O fiscal aponta para o veado, o caçador dá um salto, surpreendido e assustado, e lança o veado ao chão com um grito, “Ui, raio do bicho!”

Já os mafiosos não têm medo da amizade. No “Cotton Club”, de Francis Coppola, há dois gangsters, o gordinho e afável Owney, e o trombudo e gigantesco Frenchy. Não é só serem leais um ao outro: mesmo que eles não saibam ou finjam não saber, o coração de cada um estremece pelo coração do outro. São mais irmãos do que os irmãos. Um dia, os inimigos raptam Frenchy. Pedem um resgate. Owney, o bonacheirão, consegue salvar Frenchy. Reencontram-se e estão os dois, na casa de banho, naquela intimidade masculina de mudar o líquido às azeitonas. Frenchy tira a Owney o seu belo relógio de bolso. Deita-o ao chão e salta-lhe em cima, partindo-o todo. Owney vermelho de raiva, tem vontade o matar. Mas Frenchy nem o deixa falar: “Meu filho da puta, disseram-me que nem querias pagar 500 dólares para me libertar! Eu por ti pagava uma fortuna.”

O gordinho, apopléctico, grita: “Cabrão, pediram-me 35 mil e eu dei 50 mil dólares. Se fossem 500 mil pagava-os. A merda que fizeste ao meu relógio!” E o brutamontes, soturno, cão raivoso Frenchy abre-se em flor, a sussurrar “50 mil…” Tira do bolso o mais terno dos presentes. Owney abre-o: “Um relógio de platina… minha grande besta.” E é melhor fecharmos os olhos para não vermos o abraço deles.

Como é melhor fecharmos os ouvidos para não ouvir a entusiástica fanfarra de gritos no hospital onde, em “Wings of Eagles”, de John Ford, está internado John Wayne, com uma fractura na coluna. Militar, comandante da marinha, um acidente paralisou-o. Os seus marinheiros vêm vê-lo todos os dias. Escondem das enfermeiras, em bouquets de flores, as garrafas de whisky. Mas sobretudo, estão ali, horas perdidas, a tentar que as cavalares pernas de John Wayne voltem a andar. Têm um mantra: “Eu vou mexer este dedo! Eu vou mexer este dedo!”. Repetem-no dias, meses, um ano a fio, sofridas e infinitas horas seguidas: “Eu vou mexer este dedo!” Mas o dedo, esse abstruso polegar de Wayne, não se mexe. Julgam que estes gajos – buddies, kambas, o que lhe queiram chamar –, esculpidos a guerra, mar e sal, perdem a fé? Até a ukelele eles cantam, “Eu-vou-mexer-esse-dedo!”

E um dia, Wayne, deitado de rabo virado à lua, a cara metida no buraco da marquesa, um espelho ao lado para ver o petrificado dedo, vê que o dedo, como a Terra de Galileu, se moveu um bocadinho. Os gritos do seu sargento do ukelele atroam o hospital. A fé, a alegria masculina sobe pelas paredes acima, beija o céu, certo de ter vencido o inferno.

Eu sei do que falo. Quando estive nos cuidados intensivos, no tempo da estúpida pandemia, no cruel Dezembro de 2020, entre os delírios e o meu solitário mantra “eu vou mexer esse dedo!”, ouvia as vozes dos meus amigos. Quando saí, a minha ressuscitada Antónia disse-me que todos os dias o Pedro Norton e o Manolo Bello telefonavam. Nem era bem telefonar, cantavam, sabendo que eu havia de ouvir um “foda-se, tens de mexer esse dedo!”, e tocavam ukelele como os marinheiros de Wayne. Como já não se usam relógios de bolso de platina, ofereço-lhes esta crónica ligeiramente mariquinhas, de quem continua sem perceber um alho que seja de amizades masculinas.

Publicado no Jornal de Negócios

Este é John Wayne cercado de mimos