Deu-lhe um tiro! Mas onde?

Será a perna de Wanger? Foto de MS Fonseca *

Walter Wanger deu-lhe um tiro. Não houve cá fum-fum nem gaitinhas: um tiro e o homem no chão. E se gemera antes, mais gemeu a seguir. Eis o problema que ficámos com ele: onde é que o homem levou o tiro?

Wanger era um produtor de Hollywood e, se voássemos agora na “magic carpet” dos Steppenwolf da minha gloriosa adolescência, estaríamos em Los Angeles, no dia 24 de Fevereiro de 1951, no parque de estacionamento ao ar livre da grande MCA, a maior agência de talentos, céu e inferno dos actores, lugar de anjos e temíveis diabos.

Wanger andava com a cabeça feita num oito, porventura noves fora nada: produzira um filme, “Joan of Arc”, protagonizado por Ingrid Bergman. Previa-se um êxito arrasador, o rico povo americano às portas dos cinemas a querer fazer selfies com a bela Ingrid, mas eis que a sueca se apaixonou por um intectualíssimo pé rapado italiano, um tal Rossellini. Foge da América, abandona o marido e a filha – por um católico! –, afogando em escândalo e vergonha a alma de Hollywood: Joana d’Arc morria na fogueira pela segunda vez. Ninguém queria ver o filme e a bancarrota ameaçava Wanger: é que nem o Espírito Santo o salvaria, que Wanger, de católico nada tinha.

É a esta cabeça vulcânica que um detective privado diz que a sua mulher, a actriz Joan Bennett, criadora de arrebatadoras “femmes fatales” em filmes de Fritz Lang, esse casmurro que mandara Hitler bugiar, anda a ter um caso. Ter um caso, dito assim, parece uma minudência, mas o torvelinho que era a cabeça de Wanger bem via que isso significava que a sua Joan se despia, tocava, se enrolava com alguém, também certamente despido, num incendiário vai e vem, que só parece ridículo, e em nada aproveita, a quem está de fora.

Wanger, cujo nome se pronuncia como “danger”, meteu-se no carro e zarpou para a MCA. Lá estava, estacionado, o inocente Cadillac verde de Joan. Deu voltas, subiu e desceu a Hollywood Bld e, uma hora depois, a acusadora imobilidade do Cadillac ali estava a denunciar Joan. Wanger estacionou. Esperou em brasa e, aí estão eles: a sua mulher sai com o agente Jennings Lang, ambos irradiando, arrisco, esse bem raro que é a beleza e consolação.

Wanger foi directo e violento. Joan bem gritou: “Vai-te embora, deixa-nos em paz!” E Jennings, o consolado e zeloso agente, levantou as rendidas mãos ao ver a pistola de Wanger. Dois tiros! O primeiro foi roçar-se pelo Cadillac verde, o segundo furou o macio casaco e atingiu aquela área humana que todo o homem preza e que, a tudo ser verdade, Joan também acarinhava.

Ora, aqui, a autoridade divide-se. Uns dizem que sim, em cheio, pelo menos um testículo tombou em combate, outros asseguram que foi na virilha, tiro limpo, preservando a “manhood” de Jennings, que a tudo sobreviveu, anos mais tarde passando a produtor, responsável por dois filmes, “Play Misty For Me” e “High Plains Drifter”, desse outro marco de virilidade, de que nem o #metoo se queixa, que dá pelo nome de Clint Eastwood.

Houve quem jurasse que o tiro de Wanger não foi sequer para atingir Lang, mas sim furar a alma dos milhões de puritanos que não foram ver o filme de Ingrid. Mas Wanger desmente: “Todos falam mal dessa cáfila que são os agentes. Eu fiz qualquer coisa.” Fez e o juiz deu-lhe quatro meses de amena prisão numa quinta reformatório, de onde voltou para o regaço de Joan.

E o tiro, afinal? Nascido de um casamento posterior, um filho de Jennings Lang foi peremptório: “A vital nobreza do senhor meu pai não foi beliscada pelas balas tresloucadas de Walter! Não foi atingido ‘in the balls’. Sou disso a prova viva!”

Publicado no Jornal de Negócios

*Doravante, por questões que se prendem com possível conflito de direito de autor, todas as fotos deste blog são minhas.

Um verso muda o mundo

Vamos ali, ao deserto, modificar o futuro…

Dai-me uma jovem mulher… Se bem me lembro foi com este verso que começou o futuro, o futuro que ainda não chegou, da poesia portuguesa. Corria o ano de 1958, ainda eu não sabia ler, quando esse verso irrompeu como um relâmpago, trovão de ternura, tempestade de desejo, em O Amor em Visita. Tê-lo-á Herberto Helder escrito nesse mesmo ano? Talvez o tenha sonhado um, dois anos antes. Mais improvável, e por inverosímil que pareça, talvez esse meio verso e os versos que logo, colher na boca, se lhe colavam, tenham vindo do futuro, de um futuro que os nossos eléctricos dedos de hoje mal sabem tactear.

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue.
Com ela encantarei a noite.

E eis aqui, neste ritmo inexplicavelmente encantatório, de uma juvenil inocência que nenhuma palavra esdrúxula perturba, um futuro rasgado a crença, potência e uma insustentável extremíssima beleza. O que pode ser o futuro, que não seja esse desejo de absoluto e de beleza?

De onde pode vir o mundo mais humano pelo qual, a cada segundo, golpeados como César por punhais de «também tu, meu filho», tanto ansiamos? Quem, e como, nos resgatará do caos angustiante, labiríntico, do melhor e pior dos mundos de que o incompreensível presente em que vivemos nos faz tão cativos, como os agrilhoados cativos da vaga e escura caverna de Platão?

O futuro já está no melhor do nosso presente: eu bebo a mesma água do Paraíso que Steven Pinker nos serviu no seu Os Anjos Bons da Nossa Natureza. O futuro está nos prodigiosos poderes da medicina que reinventa o corpo humano; o futuro está nessa engenhosa viagem pelo estupefacto cérebro humano, paisagem de líricos silêncios que nos revela que somos, agora, neste instante, tudo o que já fomos e tudo o que viremos a ser; o futuro está nessa alquímica, indecifrável, algorítmica A.I. de transbordante imaginação.

É nesse mundo da ciência que se desenha o futuro: pletórico, imparável, capaz de encantar a noite e o dia, day and night, night and day, se a essa jovem mulher, que a ciência é, juntarmos as antiquíssimas harpas de sombra e arbustos de sangue. Juntemos ao futuro, a um futuro de gloriosa ciência, os mortos do passado, as temporadas no Inferno dos poetas que morreram jovens. Precisamos de voltar a falar com os fantasmas – são tão belos, tão criativos e imaginativos os fantasmas – para que nessa fusão estranha, talvez nocturna, a ciência seja a nova nobreza. A poesia do passado, soubesse-o ou não, estava grávida de futuro; soubesse-o ou não, esperava os deslumbramentos da ciência para sobre ela criar o mais humano mundo de sempre que este profético lema de Rimbaud antecipou: l’élégance, la science, la violence!

Cada dia é um dia novíssimo, inaugural, por nele estar o mesmo Sol, a mesma Terra, a velha, emotiva e humaníssima esperança de uns olhos que se espantam. O mundo, esse mundo em que tudo começa de novo, o admirável mundo humano está nas nossas mãos, como nas mãos de Borges que escreveram estas linhas:

«A uns trezentos ou quatrocentos metros da Pirâmide inclinei-me, peguei num punhado de areia, deixei-o cair silenciosamente um pouco mais longe e disse em voz baixa: Estou a modificar o Sahara

Texto publicado na revista Líder, num número especial sobre o «admirável mundo do futuro»

Um prazer sem vergonha

O in-famoso Scotty

O que Vivien Leigh gemeu: parecia até que à sua cama chegara o vento que tudo leva! E juro que não estou a falar do filme que a imortalizou. Esqueçam Vivien Leigh: quero é apresentar-vos Scotty. Só assim, Scotty – ele que se chamava George Albert – tornou-se uma figura lendária de Hollywood, quase tão belo e de corpo tão perfeito como Vivien Leigh.

E agora vejam, Scotty voltou da II Guerra sem traumas apesar de ter estado na batalha de Iwo Jima, e está de mangueira na mão a verter gasolina, no cruzamento da North Van Ness com a Hollywood Boulevard. O condutor, o actor Walter Pidgeon, impressionado com a beleza de Scotty, pergunta-lhe se não quer vir dar um mergulho na piscina da sua mansão. Ora Scotty via a vida com um optimismo do tamanho de um tsunami, uma boca que se proibia de dizer a palavra “não”. Foi. E começou ali uma carreira de serviço público que tomara muitos dos nossos ministros.

Para que conste, o sexo penetrara na vida de Scotty pela mão, digamos assim, de padres católicos, ainda ele era uma dulcíssima criança. Como mais tarde, o cientista Alfred Kinsey estudaria com beatífico espanto, Scotty encarava o sexo com santíssima bonomia, providenciando-o a mulheres e homens com a mesma alegria com que atestava os amplos tambores de combustível de um Chevrolet ou de um Plymouth. E nem da mão impertinente dos padres guardava ressentimento.

Junto um pormenor. É relevante. A Scotty, o Senhor Nosso Deus, na sua omnisciente imprevisibilidade, dotara-o de um savoir-faire e de uma souplesse (ele há coisinhas que só mesmo em francês) que convertiam o sexo num festim de liberalidade, poeticamente inocente, tanto visto pela frente como visto por trás. Em suma, era muito bom naquilo. E não vou, com estes juízos técnico-éticos, esquecer-me do tal pormenor: se alguém se sentasse ao colo de Scotty, por mais em repouso que a sua virtude estivesse, logo se sobressaltaria e desfaria em endechas à bárbara escrava que ele ali tinha cativa.

E agora percebem a fila (ah, pois) que se fazia na estação de serviço: vinha toda a Hollywood fechadita no armário. De Cary Grant ao virilíssimo Randolph Scott, do maciço Raymond Burr da “Janela Indiscreta” a Charles Laughton, passando pelo melodioso Cole Porter, Scotty foi um bálsamo na vida deles. Spencer Tracy e Katherine Hepburn, o duque e duquesa de Windsor recorreram à vigorosa amabilidade de Scotty.

Scotty, em 2012, publicou a sua autobiografia. Chamou-lhe “Para Todo o Serviço: as Minhas Aventuras em Hollywood e as Vidas Secretas das Estrelas”. O escritor Gore Vidal, na última aparição pública antes de morrer, veio ao lançamento atestar duas coisas: a exaltação de ilhas dos amores que experimentara com Scotty e a certeza de que ele em nada mentira por não saber o que mentir fosse.

 A ética de Scotty impedia-o de tirar partido dos amantes. Pansexual, digo eu, copiando o sexólogo Kinsey que o estudou, Scotty jamais chantageou. Na sua carreira de cálidos serviços, que vai de 1946 com o citado Pidgeon, então a 20 dólares por noite de prazer, a 1980, viveu em genuína confiança com os seus amantes. Só queria prodigalizar alegria: a felicidade deles, homens ou mulheres, era a sua felicidade. Tirava prazer do mistério e da clandestinidade, e como só as melhores companhias de seguros poderão gabar-se, garantia segurança e confidencialidade.

Ah, sim, o terramoto de prazer que lá em cima, no começo desta crónica, assolava o corpo de Vivien Leigh, essa tormenta que, aqui, no fim se amansa, é culpa do prodigioso Scotty, que nela a pena descansa.

Publicado no Jornal de Negócios

os meus livros de Natal

os meus livros de Natal
livros de one night stand

Sim, eu era então um adolescente em ponto de rebuçado, de Consoadas alimentadas a filhoses, rabanadas e um pão-de-ló etéreo que só as mãos da minha mãe Alice para o irem tirar à boca de Deus. Vejam, vejam: era a cidade de Luanda em toda a sua plenitude trópico-colonial. Se o Menino Jesus descia meio nu à terra aqui em Portugal, imaginem como ele aterrava na cálida noite angolana.

E vou ao que interessa. A noite era longa, Cruzeiro do Sul e uma Lua de 1968, que pé de homem ainda não pisara: um Natal em calor de fogo e um sossego lânguido e de calções convidavam os meus 15 anos à leitura. Nessa noite de Natal de 1968, comecei a ler e só me deitei quando terminei o Tortilla Flat, de John Steinbeck, a que o tradutor português chamou Milagre de São Francisco. Boémia e deliquescente deboche, fiquei fã dessa one night stand: a leitura de uma noite.

É para esse vício, para essa perversão nocturna a que devo a minha precoce miopia e tantas silenciosas asfixias eróticas, que vos quero convidar: neste Natal entreguem-se sem reservas à clandestina e vadia leitura de uma noite. Estes são os meus livros: tomem e leiam todos.

  Não é que Camilo não mereça uma inteira noite de amor, ali que até os olhinhos se lambem, mas Maria! Não Me Mates, Que Sou Tua Mãe! lê-se em metade de uma noite. Leiam, leiam, está lá – ai, Maria José – uma mãe em sangue e a cabeça de Camilo. E na outra metade, agarrem-se, noite dentro, ao «beija-me com os beijos da tua boca» com que se abre o meu Cântico dos Cânticos, que Eugénia de Vasconcellos traduziu, e que um texto da ousada Agustina, «um tijolo na cama», prefacia, culminando com esta desvairada exaltação: «És como um jovem pavão armado de pernas azuis, e eu amo-te, que Deus me perdoe.»

Livro de uma só noite, agonista como mais nenhum outro de James Joyce, Os Mortos pede recidiva: one night stand no Natal, mas com a perspectiva de um aflito e desesperado regresso, na Noite de Reis, às lágrimas de generosidade dos olhos desse Gabriel que se confessa: «Nunca tinha sentido nada assim em relação a mulher alguma…»

Deixem agora descer a bondade à Terra. Expurguem a maldade, a avareza, a misantropia, como se um retumbante Adeste Fidelis ecoasse na catedral do vosso coração, e leiam, de Charles Dickens, Um Cântico de Natal. A santa noite toda: soletrem com os mais vagarosos requintes as letrinhas do corpo desta missa cantada, uma das mais belas novelas de sempre: é curta, mas dura… dura para sempre.

Formas, se querem mesmo falar de formas, abracem-se às 100 páginas de Amor, o prodigioso ensaio de Jorge de Sena, delicada peça de joalharia sobre o «puro» e o «impuro», o «pecaminoso» e o «santificado», o «sim» e o «não», a «maligna distorção» da beleza e onde, nas mais diversas ordens e desordens, surgem as palavras «prazer», «sexo», «epifania», «paixão» e «posse». Que noite, santo Deus!

Mas se o vosso amor é panteísta aninhem-se na caminha que Pero Vaz armou ao escrever ao nosso rei D. Manuel: Carta do Achamento do Brasil é mais do que um Natal, são dois povos em castíssimos beijos na boca, os corpos enlaçados na dança de seres espantados e arrebatados com a humanidade comum. Ménage à trois, porque a esta noite de um só livro se junta Onésimo Teotónio de Almeida com o seu belíssimo e percuciente prefácio A Carta do Deslumbramento com o Brasil. Que bem desliza, Onésimo.

Duas línguas, francês e português, entrelaçam-se na tradução que o João Moita fez da Saison essa Temporada no Inferno das incendiadas noites de Jean-Arthur Rimbaud, então em plena «puberdade miraculosa». E eu acabo já, se aceitam acabar na minha companhia, no Bordel das Musas, a que Claude Le Petit, morto pelas autoridades francesas na fogueira, em Paris, deu o subtítulo «ou as nove donzelas putas»: traduziu-o a Eugénia de Vasconcellos, desenhou-o João Cutileiro, numa das mais eróticas e espirituais (peço desculpa pela redundância) edições da Guerra e Paz.

Estes são os livros de uma noite. Para serem lidos numa inesquecível noite de Natal, com arrebatamento libertino, fundindo-nos com a eternidade. Que festa! Que felicidade!

A heterodoxa Agustina

Foi mesmo há bocadinho. O Paulo Portas disse, e disse bem, que a Guerra e Paz Editores tem no baú estes livros únicos de Agustina Bessa Luís.

Deixem-me expandir: sei lá como, mas com Agustina estabeleci uma espécie de irmandade secreta. Ela deixava que eu lhe fizesse, digamos, «propostas». Por vezes, aceitava-as, e assim nasceram os dois livros de que o Paulo Portas falou. Só de um mostrou a capa. Mal seria se eu não mostrasse a outra.

Os livros são, garanto-vos, duas pequenas maravilhas. Estão à espera de quê para encherem de Agustina, a grande e tão heterodoxa Agustina, o vosso Natal?!

Lorca, o amor obscuro

Lá longe, na Rússia do czar, estava Dostoievski encostado ao paredão, as armas do esquadrão de fuzilamento apontadas ao seu peito. A sórdida morte, sorriso manhoso, espreitava das nuvens. Tinha, no Portugal monárquico, Camilo Castelo Branco acabado de escrever em folhetim Maria! Não Me Mates Que Sou Tua Mãe!

Eis a diferença, a grande Rússia é trágica, o pequeno Portugal é folhetinesco e anedótico. E, todavia, mesmo na tragédia há redenção: um enviado especial do czar entra no último minuto, como nos devastadores e geniais filmes mudos de D.W. Griffith, e resgata Dostoievski da morte: pena comutada num gelado exílio na Sibéria.

Vejamos, as espingardas da Falange, começara há dias a sublevação de Franco contra a República, estão apontadas ao peito – ou foi às costas? – de Federico Garcia Lorca. Haverá resgate, um salvamento hollywoodiano de último minuto?

O que fazia Lorca em Granada? De que amor obscuro – esses “oscuros amores”, que cantou em soneto – se escondia ou clandestinamente buscava? A 18 de Julho de 1936, escreve, e não sabe que escreve a sua última carta, a um jovem amante de 17 anos, que deixou em Madrid. Aconselha-o a não enfrentar o pai conservador, que saiba desmentir as “calúnias” com gentileza e, na linha da raça flamenca, seja capaz, com graça e alegria, de travar até um comboio.

Juan Ramírez de Lucas, o juvenilíssimo amante de Lorca, era uma paixão recente. E talvez a vinda a Granada do poeta fosse a antecâmara de uma fuga para o México, mas que deveria esperar pelos 18 anos do jovem. E talvez não ou pelo menos não só.

Já velho, 69 anos depois, Juan Ramirez procurou o reformado director da casa-museu de Lorca e, afirmando-se admirador do poeta, mas ocultando a intensa e tão breve paixão, quis saber se, em Granada, no fatídico Verão de 1936, Lorca lá se encontrara com outro jovem, Eduardo Rodriguez Valdevieso. O director contou-lhe tudo, de como o poeta e o jovem bancário eram amantes há alguns anos e das cartas que o museu guardava.

Foi esse o Lorca que os falangistas foram buscar, de assalto, a casa de Luis Rosales, um direitista conservador que o acolhera e protegia. A lenda fala de tortura, mas a investigação histórica baseada nos relatos de quem o viu, fala de um Lorca cativo, absorto, agarrado obsessivamente ao seu cigarro, sem interrogatórios, por não pertencer a nenhum partido ou sindicato.

E há outra lenda, porventura indestrinçável. Lorca e Primo de Rivera, o ideólogo e fundador da fascista Falange, teriam sido amigos. Encontravam-se em Madrid a cada sexta-feira. Para jantar? Ou, como Lorca terá contado a Gabriel Celaya, percorriam Madrid, conversando num táxi de cortinas corridas para não porem em causa a reputação política de cada um? A especulação erótica é um delírio, mas o interesse comum pela poesia – tanto que Rivera dizia que Lorca seria o poeta da Falange – pode ter forjado essa amizade improbabilíssima. O táxi de cortinas corridas é, certamente, uma transfiguração do imaginário lorquiano.

Seja como for, são agora 4:45 da madrugada do dia 18 de Agosto de 1936 e, no ignorado caminho de Víznar a Alfacar, as armas dos falangistas estão apontadas ao peito de Lorca. A quem apontam? A um inimigo político ou a um poeta que sabem ser maricón e por isso querem matar? E será verdade que, numa ironia torpe, o mandaram pôr de costas? E quem deu, cego por que ódio, a ordem da execução criminosa?

No ano seguinte, no jornal fascista Unidad, Luis Hurtado, um falangista, escrevia: “À Espanha Imperial, assassinaram lhe o seu melhor poeta.”

Publicado no Jornal de Negócios

Os ovos de Salazar

O meu reino por uma galinha

Já tinha na ponta da língua a palavra “Salazar” e, sei lá como, acabo a dizer a palavra “galinha”. E o que eu queria mesmo era falar de São Bento, desse palácio que assombra os portugueses, e onde crescem notas de euros nas páginas de livros e em caixas de vinhos.

São Bento, palácio e jardins, sofisticou-se. Houve um tempo em que São Bento era uma Animal Farm. Não a de Orwell, mas a nossa, idilicamente provinciana, como se, fechadas as portas que dão quase para a Calçada da Estrela, para ali se tivesse transplantado uma réstia da região saloia. Ou dessa Beira Alta de que os meus pais fugiram levando-me para a pujante selva tropical.

O que quero dizer é que, estava eu já na Vila Alice, em Luanda, onde não se via uma galinha na rua a picar o alcatrão, e no Palácio de São Bento, dos anos 60, corriam pelos jardins não só as galinhas, mas mesmo os coelhos, os perus, alguns patos. Dona Maria, a governanta de Salazar, espremida pela austeridade do senhor doutor ditador, queixou-se do preço a que andavam os ovos. E as carnes.

Cavaco Silva mandou construir nos jardins de São Bento uma piscina e não sei se António Costa, pouco dado a reformas estruturais, não deixou ficar tudo como antes, mas sei que Salazar, dando ouvidos à sua governanta, mandou fazer capoeiras. Eis a primeira fuga das galinhas: os galináceos portugueses marcharam para São Bento. À Beira Alta, a Santa Comba, Salazar deu uma suave ordem: “Quero que me mandem galinhas poedeiras!”

Luís de Pina, que foi com o João Bénard, meu saudoso director na Cinemateca, lembrava-me sempre um infalível critério estético:  um bom filme pode não ter galinhas, mas se num filme aparecem galinhas, ó critério sublime, esse filme faz certamente parte do panteão da história do cinema. Quem se esquece, no portentoso “Rocky II”, de ver Sylvester Stallone a adoptar novas técnicas de treino? Rocky Balboa é instado a apanhar uma galinha. É o apanhas: a galinha em esquindivas uá lá lá, dribles, fintas, cuecas e cabritos (se uma galinha faz cabritos) parte o Rocky todo e eis o que, desistindo, ouvimos da boca sábia da personagem de Stallone, em alusão ao frango frito de Kenctucky: “Sinto-me como um Kentucky fried idiot!”

Com o empreendedorismo que tomara muito totó da Web Summit, Dona Maria, em pouco tempo tinha centenas de galinhas, cerca de 300, asseguram as melhores fontes., bem mais do que os ministros que Salazar depenava e cozia em lume brando, e fez dos ovos das galinhas de Salazar uma fonte de rendimento. Desse “reino de Maria”, saíam aos 500 ovos por dia, que eram vendidos a hotéis, inclusivamente ao hotel onde se instalara o senhor Gulbenkian. Os ovos de Salazar eram, talvez, o “visto gold” daquele tempo.

Já disse que eu vivia então nessa dourada colónia chamada Angola, mas providencio agora aos meus leitores uma informação de fonte primária, que eu estou muito longe de ser só um rato de biblioteca. Já bem depois da morte do Império e da morte desse ditador, que faleceu a 27 de Julho, o meu dia de anos, morei na Teófilo Braga, a dois passos de São Bento. Uma das minhas vizinhas era uma velhinha, com 11 filhos, o último dos quais nascido em modo “faça você mesmo”, sem mais ninguém no quarto. Conhecera a Dona Maria. Confirmou-me as galinhas e acrescentou esta democrática informação: “A Dona Maria vinha bater às portas, à minha também, e vendia ao bom povo da Calçada da Estrela, os ovinhos de São Bento.” A minha vizinha estrelava, afinal, os ovos das mesmas galinhas, que o senhor Calouste comia mexidos. Os suculentos ovinhos de Salazar.

Publicado no Jornal de Negócios

O talismã de Greta Garbo

Os soldados, que defenderam na fausta selva o nosso infausto Império Colonial, levavam debaixo da farda, colada ao peito, uma medalhinha da virginal Senhora de Fátima. Agora abram a camisa da farda americana de Gilbert Roland, actor de Hollywood que foi, no ecrã, Cisko Kid. Durante a II Guerra Mundial, Gilbert serviu no Air Corps do exército americano e levava colada ao peito a cuequinha que lhe dera Greta Garbo. Assim, sim, ganham-se guerras!

A Garbo, essa esfinge que a Suécia deu ao mundo, comoveu-se ao saber que Roland se alistara: meteu-o na sua cama, levou-o, presumo, ao nirvana, e deu-lhe no fim, como talismã, o par de delicadas cuecas tombadas nesse húmido plaino abandonado que a morna brisa dos dois bem aquecera. Nunca, está claro, a Gilbert lhe raiou a farda o sangue.

Detectaram vagos ecos de Pessoa por aqui? Não foi acaso, que este vosso cronista não cede a facilitismos culturais sensacionalistas! Pergunta pessoana: quantos heterónimos se escondiam atrás dessa Garbo de cara amarrada e de pau?

Um realizador caixa-de-óculos que muito estimo, Rouben Mamoulian, filmou-a na “Rainha Cristina”. Era uma quase adaptação da peça de Strindberg, nesse tempo em que Hollywood fundia, em inspiradora selvajaria erótica, o acme de duas culturas, a da elite europeia e a de massas americana. A rainha fazia-se passar por homem, beijava na boca uma aia, e acabava apaixonada pelo inimigo, na figura de um nobre espanhol, que começou por ser Laurence Olivier, que a Garbo logo despediu ao ensaiarem o primeiro beijo, trocando-o pelo seu ex-amante John Gilbert. O que interessa é a cena final. A rainha e o espanhol fogem num barco, mas duas setas atingem o amado, que lhe morre nos braços. Cadáver deitado no convés, a câmara fecha-se, em close-up, sobre o rosto da rainha.

O que devo fazer?” – perguntou a Garbo ao realizador, antes da cena. Não sei se o aconselhou a Virgem de Fátima ou a morna brisa das cuequinhas de Garbo, que Mamoulian também aspirou, mas eis o que ele lhe disse: “Não faças nada, nada de acting, não penses em nada, não pestanejes sequer, nadinha, como se tivesses uma máscara em cima da cara.

É um dos mais arrebatadores close-ups do cinema: pelo rosto indecifrável de Garbo passa uma procissão de adjectivos e de estados de alma: a amargura da perda, o estoicismo de quem se oferece ao futuro, a serenidade de quem aceita o seu destino e a sua missão. Digam e está lá.

Essa quase heteronímia, atrevo-me a dizer, esquinando leve, levemente, o conceito, é o coração de Greta Garbo. Faça-se a lista dos seus amantes e, ao lado de John Gilbert, de Mamoulian, de Orson Welles, do nosso viril Roland, surge uma lista de mulheres, sendo os seus amores sáficos celebrados em todos os estudos queer. Junto mais um ponto a essa orgia lésbica: os dois papéis que a Garbo mais quereria ter feito no cinema eram, de um lado São Francisco de Assis (com barbas) e, do outro, o Dorian Gray do romance de Oscar Wilde. E sim, a Garbo tem razão, o que ela juntaria de doçura, mistério, beleza e dissipação da beleza, aos dois.

Afronta por afronta, acabemos na cama e com um par de cuecas da Garbo na mão. Fotografada por Cecil Beaton, homossexual retinto e convicto, Garbo descobriu nele o amante perfeito, porventura o único, louva-se Beaton, a dar-lhe rouca e arfante satisfação: “Pelo facto – explica ele – de eu ser inesperadamente violento e ter uma energia desbragada e licenciosa.” Eis a mulher mais bela do mundo: queria estar sozinha, dormiu com homens e mulheres, e só um gay sem freios a levou ao êxtase.

Publicado no Jornal de Negócios