Blog de escrita e de reflexão lúdicas. Um lema: chatices não!
Author: Manuel S. Fonseca
Eis a felicidade: estar sentado num fim de tarde de Verão, na mesa um fino estarrecedoramente gelado e um prato de jinguba. E Deus sentado, ali ao lado, sendo certo e sabido que Deus é Amor e só Amor.
Já está nas livrarias um livro que organizei e para o qual escrevi o texto de apresentação que é, diga-se, quase metade do livro. Estou a falar do Sermão da Montanha, que publiquei na colecção Livros Brancos. É um dos mais belos e comoventes textos da História da Literatura.
Deixo-vos um bocadinho do que escrevi:
«Eu. A multidão acaba de ouvir o que, na boca do que parece ser um profeta, é uma palavra nova. É um «eu» que nunca tinha sido dito desta maneira: é um «eu» legislativo, é um «eu» que muda o horizonte divino.
Diálogo pejado de adversativas a cada evocação da Lei, o Sermão da Montanha é um triunfo exuberante do «eu» que o pronuncia. Jesus Cristo, o homem de 30 anos, reescreve e reinterpreta a Lei. Será que a nega? Com o seu insistente e sonoro «Eu, porém, vos digo», o homem de 30 anos, sentado numa colina de altura negativa, 210 metros abaixo do nível do mar, fere o mundo que o precede para inaugurar o que ele parece desejar que seja o reino radical de uma compaixão incondicional, um mundo de Amor, um mundo de Ágape.
É inútil esconder um deslumbramento – também um tremor? – que dura há séculos: o Sermão da Montanha é um cântico de utopia. Porventura irrealizável. Talvez seja mesmo essa radical impossibilidade que converte o Sermão no manifesto sublime que é. Lê-se como um texto – dos mais escandalosamente doces – da História da literatura. Emana dele uma abundante e irrecusável repercussão filosófica, comparável à que, desse improvável Homero, a Ilíada nos oferece, comparável também à que, do mais certo Hesíodo, os versos da Teogonia, de Caos a Eros, nos revelam da mítica origem do mundo. Começa aqui, neste atónito encontro de um homem e de uma multidão, qualquer coisa de novo, uma reinvenção do mundo? Sim, começa.»
E umas páginas à frente, acrescentei:
«A poética do Sermão, as suas profusas analogias, os seus «lírios do campo», as «aves do céu», a «luz do corpo», as «vestes de Salomão», bem como a vívida linguagem em que emergem «tesouros», «ladrões», «a cidade no cimo da montanha», «o reino dos céus», «lobos ferozes», «uvas e espinhos», tem um fôlego estético que, na Bíblia, talvez só se encontre nos Salmos ou no Cântico dos Cânticos.»
E desse prodigioso Sermão da Montanha, de que me atrevi a fazer a minha tradução/versão, leiam este passo, verdadeira revolução naquele tempo. (Se é que não continua a ser uma «revolução» hoje!)«Ouvistes que foi dito: “Olho por olho e dente por dente.”
Eu, porém, vos digo: não resistais a quem vos faz o mal. Em vez disso, àquele que te agride na face direita oferece-lhe também a esquerda; e àquele que te quer levar a juízo, para te arrebatar a túnica, oferece-lhe também a capa; e se alguém te forçar a acompanhá-lo por uma milha, caminha com ele duas.
Dá ao que te pede. E não voltes as costas ao que te pede emprestado.
Ouvistes que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.”
Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos, abençoai os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos desprezam e perseguem.»
Vou ser muito directo: gostava muito que fizessem o favor de ir a uma livraria e comprassem o livrinho ou o encomendassem no site da Guerra e Paz. Não é só um generoso favor que fazem a este pobre autor/editor: Arrisco dizer que lerem o Sermão da Montanha é um favor que se fazem e uma forma generosa de se tratarem bem, caros leitores.
Que frio está lá fora. Peço licença para me enfiar nessa manta a que o(a) caro(a) leitor(a) se aquece. E por cima da manta vamos correr o álbum dos livros de Janeiro. Por esta ordem: Guerra e Paz, Euforia, Gradiva. Os meus livros de Janeiro
Quero lá, querem lá os meus leitores saber do frio de Janeiro quando têm à mão as edições afrodisíacas da Guerra e Paz, a começar por A Mitologia Grega de A a Z, de Luc Ferry, obra povoada de Afrodites (ou Vénus), de Eros e da embriaguez de Dionísio: a desordem e a volúpia dos deuses gregos, a companhia de sereias e musas faz deste livro e dos seus mistérios uma leitura abrasadora. De Os Livros Não se Rendem, colecção patrocinada pela gentileza e amor aos livros da Fundação Manuel António da Mota e da Mota Gestão e Participações. Agora encostem-se sem preconceitos a António Botto se querem sentir o calor do que era um escândalo para o Portugal dos anos 50: no Caderno Proibido, como lhe chamou Botto, há nudez e abraços violentos, mas também a ternura de, e cito, «foder um corpo delgado, / Seios duros, pequeninos […]/ Ancas descidas de mocinho…». Nunca publicado até hoje, este erotíssimo inédito foi organizado e prefaciado pelo professor Victor Correia. Um muito mais contemporâneo afago dos corpos, eis o que inunda as narrativas ficcionadas (ficcionadas?) que o romancista Virgílio Castelo (sim, também é actor) assina em Consumo Obrigatório. Uma viagem por boîtes, discotecas, bares bem ou mal-afamados, viagem que é a autobiografia de toda uma geração: a sua, caro leitor? Depois disto, de que outra coisa vos iria falar que não fosse de lendas e contos de fadas. Só queria que tivessem o livro na mão. É das coisas mais bonitas que já fiz na vida: chama-se Lendas e Contos de Fadas Japoneses e das suas 144 páginas, 47 são de ilustrações japonesas deslumbrantes, de cores arrebatadoras. Por este livro, Deus e os demónios perdoar-me-ão todos os desacatos que me queiram arrolar: quem não quer ler contos como «O cortador de bambu e a criança da lua» ou «O pardal com a língua cortada»? É o primeiro de uma série: a seguir vêm aí os contos de fadas chineses. Parece também um conto de fadas: um homem fala a uma multidão e declara bem-aventurados os mansos e humildes, os perseguidos e os que sofrem. O homem tem 30 anos, dá pelo nome de Jesus Cristo, e essa pequena maravilha retórica, o Sermão da Montanha, que nos instiga a amar os nossos inimigos e a oferecer a outra face a quem nos agrida, é uma das mais belas utopias já ditas e escritas por nós, os humanos. Agora, com uma apresentação que eu, Manuel S. Fonseca, assino, o Sermão da Montanha junta-se ao Cântico dos Cânticos ou à Alegoria da Caverna, na colecção Livros Brancos. O professor de filosofia Alexander Douglas dá, creio eu, eco ao Sermão, quando nos avisa contra a obsessão do eu. Leiam um dos mais lúcidos livros do ano passado no Reino Unido: Contra a Identidade, A Sabedoria de Escapar do Eu, diagnóstico de uma das grandes aflições contemporâneas. Venha de lá o passado. De um historiador medievalista, Pierre Bauduin, Os Vikings é uma magnífica e actualizadíssima apresentação de uma civilização que nos desafia. Não se esqueçam das violências e pilhagens, mas leiam-no para descobrir mil outras facetas de uma civilização pletórica. Em Janeiro, dois estudos e um sombreiro? De provérbios nada sei, mas sei que vou publicar dois estudos com mérito. Macau: A Última Transição – Vasco Rocha Vieira (1991-1999), é um rigoroso trabalho de fundo do historiador Alfredo Gomes Dias. Temos a honra de o publicar em parceria com a Fundação Jorge Álvares. Tal como em parceria com a Academia Militar e o Instituto Universitário Militar se publica Guerra e Disrupção, textos de dez especialistas sobre estratégia e ciência militar, com coordenação de Luís Barroso, António Paulo Duarte e Pedro Ferreira. Reservo os últimos suspiros de Janeiro para duas fortes e convictas apostas polémicas. Primeiro para o extraordinário e tocante Refém, de Eli Sharabi. Eli foi um dos judeus raptados pelo Hamas no 7 de Outubro e esteve em cativeiro 491 dias. Narra esse tormento de forma crua, directa, sem rodeios. Terão a mulher e as duas filhas sobrevivido? Um documento que dói e fere muito mais do que qualquer ficção. Ecrãs, um desastre sanitário, da neurologista Servane Mouton, é um panfleto brilhante sobre o uso dos ecrãs, dos smartphones, e sobre os terríveis efeitos detectados. Baseado nos mais recentes estudos, este livrinho, que se lê de um fôlego, com bela tradução de Miguel Graça Moura, é um vivíssimo alerta: «antes que seja tarde demais.»
Vamos e vejamos e no vai e vem chegamos à EUFORIA: A chancela que a Rita Fonseca criou ganhou a carta de alforria. Cresceu em 2025 213% em relação ao ano anterior e tem um público definido, muito específico. Passa por isso, agora, a ter uma newsletter própria, tal como terá o seu próprio site. Despeço-me, ainda assim, dizendo-vos que em Janeiro há dois romances sufocantes. Em Tóxico, de Nicole Blanchard, a heroína casa primeiro com um homem abusivo e apaixona-se, depois, por um recluso perigoso. Se há beijos intoxicantes? Bom, no mínimo. Já a autora Navessa Allen (há 52 semanas no top do NYT bestsellers) oferece-nos O Crime de São Valentim e deixa-nos uma inquietação: pode alguém ser enterrado vivo por mero acaso?
Que 2026 seja o ano de alguns prodígios e que esses prodígios sejam da nossa GRADIVA. Começa, agora, em Janeiro de 2026, a nova Gradiva, e da mão de Guilherme Valente, seu fundador, para a minha mão passa o mesmo testemunho, como se estivéssemos numa corrida de estafetas. O livro que inaugurou esta casa editora há 45 anos é o primeiro livro desta nova vida da Gradiva: Delírio e Sonhos na Gradiva de Jensen, de Sigmund Freud. Tal como o Guilherme, acredito no valor simbólico de um livro que exala o perfume do que Freud chamou a «cura pela sedução e pelo amor». Para começar em beleza, é este o primeiro dos oito títulos Gradiva deste mês. E agora aligeiremos: tem estado um frio de rachar. Para aplacar os lobos de Inverno pedi ajuda ao Calvin & Hobbes, de Bill Watterson. À lareira ou entre cobertores, Calvin & Hobbes, O Ataque dos Demónio da Neve resgata-nos e devolve-nos a alegria, o riso e o sorriso, desenho a desenho, em edição novinha em folha. Passam os Invernos e o nosso descontentamento não nos deslarga: tanta é a sede e fome de plenitude, a sede e fome de perfeição! E é sobre essa busca espiritual, essa busca de uma harmonia universal, que nos escreve Luís Portela, em Ser Espiritual, da Evidência à Ciência. Prometo-vos uma viagem de um prazer inebriante – e de um rigoroso desafio – do que a série da RTP, «Para Além do Cérebro», foi há pouco veículo, uma viagem que nos religa a uma outra dimensão, a da Energia Universal. Utopia? E será que viver sem utopia é viver? E por que utopia – ou só realidade – nos guia Carlos Fiolhais em A Inteligência Artificial de A a Z? Com mestria, Fiolhais, porventura o nosso melhor pedagogo, leva-nos da entrada «agentes inteligentes» à entrada «Zuckerberg», preparando-nos para o avassalador mundo de amanhã: a inteligência de Fiolhais disseca a complexa Inteligência Artificial. Um choque? Sim, enciclopédico. E há um novo livro na colecção Ciência Aberta: de Elói Figueiredoe C. Matias Ramos, A Ciência Descobre, a Engenharia Cria. O subtítulo, «uma visão em doze axiomas e meio» deixa-me tão perplexo como encantado, e o que me tranquiliza é que Carlos Fiolhais, no posfácio, me jura tratar-se de «uma magnífica introdução à engenharia». Com o apoio mecenático do dstgroup e o patrocínio da Ordem dos Engenheiros, este é o livro que nos ensina que a função da engenharia é simplificar, mas que se o risco se minimiza, tal não significa que se anule. Axiomas. Há dois livros de Janeiro que nos fazem pensar a Europa, a do passado e a do futuro. Um, O Esplendor das Amizades: A experiência portuguesa de Edgar Morin, é coordenado por Guilherme d’Oliveira Martins e é um esplêndido relato do que era o Portugal da ditadura e de como os católicos do Tempo e o Modo descobriram a Europa através deEdgar Morine de como Morin descobriu, em amizade, o melhor de Portugal. Já em O Mundo de Amanhã: Uma Europa Soberana e Democrática, o austríaco Robert Menassepartilha a morna angústia do nosso tempo europeu, cheio de dúvidas, défices e conflitos, procurando, ainda assim, arrancar desse pântano um frágil módico de esperança. A fragilidade será uma arma? Onde começa e onde acaba a fragilidade em Ian McEwan? Na delicadeza das ideias ou na argúcia psicológica? Na sua narrativa tão minudente? E de onde surge, abrupto, o simbolismo quase brutal desses Cães Pretos, que dão título a este romance humano, demasiado humano? Que cães são esses? Autênticos, só cosa mentale, metafóricos? A verdade é que são vorazes e ferozes. São os livros Gradiva de Janeiro. Oito: da ciência ao cartoon, do pensamento à grande ficção.
Que alegria é esta, que alegria é a alegria que se desenha no rosto de Rita Hayworth? E quem é esta Rita, que já, contando pelos dedos, mudou oito vezes a cor do cabelo, que é agora tão ruivo como o ruivo da mais ruiva das irlandesas?
Uma coisa é certa, Rita pode não ser irlandesa, mas na camada anglicizada que lhe cobre a pele, que lhe maquilha os olhos e a boca, ninguém consegue adivinhar um grão da hispanidade em que nasceu e foi criada.
Rita Hayworth nasceu Margarita Carmen Cansino, filha de um bailarino espanhol. Morena, cabelo negro de encarapinhados caracóis, quis fazer carreira no cinema, num tempo, meados dos anos 1930, em que os marujos americanos invadiam os cinemas de Los Angeles para arrear em tudo o que fosse latino. Os marinheiros acendiam as luzes, paravam os filmes, arrancavam os pés das cadeiras e mexicano que se prezasse era espancado e atirado do balcão para a plateia, com a certeza de malévolas marés.
Hollywood não era – ó se não era! – imune ao preconceito. Margarita Cansino teve de apagar a sua latinidade: a começar pelo nome e a acabar no cabelo. O que seduziu os produtores foi ver o seu então extraordinário metro e 68 a dançar. A menina Cansino era apagadita, que Nossa Senhora lhe acuda, mas quando dançava, sobretudo os movimentos dos joelhos para cima, o seu «big bang» de ancas, a dançante e perfurante simetria das libérrimas mamas, eis o que assombrava plateias.
À volta da menina Cansino desenvolveu-se uma certa tendência para que homens de meia-idade a quisessem proteger, se é que estou a usar o termo com propriedade. Um deles Edward Johnson, 40 anos de um gordo desengraçado, crânio mais desértico do que arborizado, casou-se com os 18 anos dela. Este Eduardinho fora vendedor de automóveis; passou a ser pai, marido, professor, agente, ensinando Margarita, agora já só Rita, a vestir-se, a comer à mesa, a falar.
Rita converteu-se, então, numa estrela. Era, talvez (e ajudem-me a estrangular este talvez, tirem-me o raio desta palavra do dicionário!) a mulher mais bela do mundo. Vejam-na: hoje é dia 8 de Setembro de 1943, ontem houve uma folga nas filmagens de Cover Girl, mas filma-se de novo agora, Gene Kelly e Rita estão em cena e há qualquer coisa de diferente na cara de Rita. Que alegria é aquela, tão verdadeira e incontrolável? A boca de Rita soluça alegria, os olhos, o corpo dela cintilam. Eis o que alguém que lá estava me disse: a tanta alegria de Hayworth faz pequena, quase risível, toda a alegria que o mundo anterior a esse Setembro de 1943 já sentira.
«É um segredo!» explica Rita a quem se espanta com tão incandescente felicidade. E depois confessa: «Casei ontem em segredo com Orson Welles.» Tinham-se conhecido num programa de rádio. O imenso Orson, com a sua cara de bebé depravado, teve logo ali um amoroso AVC: uma coisa era já ter visto as fotografias de Rita, como «pin-up», as longas pernas, o fato de banho a desenhar tanta fonte de desejo; outra foi olhar de frente a luz do próprio sol.
Marcaram encontro. Orson encantou-a: trouxe Shakespeare para a mesa, fê-la rir com Mark Twain, deu-lhe a beber Safo e Dante. Rita mergulhou, maravilhada, nesse mundo como nós numa viagem cósmica. Casaram.
Nos quatro anos de casados nunca ninguém foi tão feliz: Orson chamava-lhe «angel girl», «queridíssima bebé», dizia-lhe «és a minha vida, a minha verdadeira vida» ou «que o sol ande mais depressa para eu poder voltar a ver-te» quando não estavam juntos, e assinava «o teu rapaz».
Apetece ser assim, lamechas, sentimental à «outrance»; afinal é tão breve a nossa vida breve.
O Gil foi a enterrar no dia 19 de Dezembro. Escrevi este texto na manhã de sábado, dia 20. Mas quis, e o Expresso e o Miguel Cadete gentilmente aceitaram, que ele fosse publicado no jornal onde ao longo de alguns anos o Gil escreveu notáveis artigos literários. Ontem, o Expresso publicou-o. Hoje, deixo aqui aos meus amigos deste mural, esse texto de despedida. O Gil (e a Céu) é um pedaço muito grande da minha vida, da vida da Antónia, e da minha filha Rita. O Gil foi a enterrar. Um dos bocados mais ternos, mais desconcertante, mais genuíno da minha vida – e da Antónia – foi a enterrar com ele.
Gil de Carvalho: depressa e devagar
Foi agora, na tarde fria de Dezembro. Estava ali o Gil, deitado na urna, os fúnebres panejamentos alvos a combinarem com a sua tão bem aparada barba branca. Mão hesitante, afaguei-lhe a testa: um gelo antárctico onde em vida estava o fogo de um vulcão. E assim, dedos no crânio, nos despedimos.
Conhecemo-nos, em 1973, estertor da Velha Senhora à vista, na então tão bonita pastelaria São Carlos, na Rua da Beneficência. Ele 18, eu 19 anos. Foi amor à primeira vista. Eu viera de Angola estudar Direito e não parámos de falar. Eu a exorcizar o medo de Lisboa com gritadas saudades da Mutamba e da Ilha, ele a locupletar-se com esses frutos dos trópicos que eu tirava do avental, reinventando um imaginário, que a breve passagem por Luanda, com o pai em missão militar, mal lhe autorizava.
Vivíamos, nesse Verão de 1973, em silenciosos quartos alugados que só o estardalhaço de algum comboio na estação do Rego se permitia romper. Uma semana depois, com o João Carlos, filho da professora de Canto Coral do meu liceu de Luanda, alugávamos um apartamento na Padre Francisco Álvares, ao lado do Jardim Zoológico. Conquistámos assim a liberdade, o direito à boémia, o estriduloso desregulamento da ordem do dia e da noite. Estou pronto a jurar que o cheiro dos animais do Zoo nos chegava pela madrugada, talvez fosse o intenso aroma dos dejectos dos elefantes, e vínhamos à varanda gritar, «Cagaram no Mundo», como quem gritava uma palavra de ordem.
O Gil era já, e era só o que queria ser, um poeta. Mas à mitologia de escassez e reclusão da que viria a ser a fase final da sua vida, da sua vida de Gil de Carvalho, é de justiça pôr em paralelo uma outra mitologia, a que eu nunca deixarei de amar, a do Gil pletórico, guloso de vida, excessivo, por vezes truculento, a vida de Gil Abrunhosa.
Eu, um amigo, o Semedo, e o Gil, em pose descabelada. Nenhum de nós fuma, os charutos eram uma excepção festiva.
Circulávamos em bando nas finíssimas horas da madrugada, a Guida, a Vanda, o Tomã, também connosco. Entre a fumarada de morte do tabaco e a límpida ressurreição de uma aguardente cê-érre-éfe, tão depressa batíamos manilhas e asas, avançando para a destrunfa, que «este filho da puta há-de pagar-mas», como «por las 6 en punto de la tarde», se não se importam com a parvoíce da paráfrase (o que adorávamos parvoíces e paráfrases), o Gil avançava, e eu de arrasto, para as manifs contra o regime, na Praça do Chile, no Rossio, na Praça da Figueira, no Largo do Rato, até mesmo na António Maria Cardoso. Éramos só os dois, nos fins de tarde de Lisboa, entre vultos evasivos, a polícia de choque a estimular em nós os dotes de corrida de uma gazela de Catete, mas era como se, só os dois, estivéssemos, heróicos, a refundar a ordem do mundo. Éramos capazes de matar por um número da revista «Tel Quel», gritávamos de madrugada contra o fascismo versos dos «Cantos» do talvez fascista Ezra Pond.
Foi assim, nesse ano de 1973, até Março de 1974, em que vivemos juntos na Padre Francisco Álvares. Assim seria, depois, a partir de 1977, quando regressei da independência de Angola.
Alugámos uma casa, um esconso, num 5.º andar da Cidade de Liverpool, aos Anjos. Éramos três casais, o Gil e a Céu, eu e a Antónia, o Da Guia e a Catarina. Abreviando, não tínhamos um tusto e tivemos de disputar essa casa aos ratos que vinham das roídas paredes de tabique. Vencemos. Na maior parte da casa só se podia andar de gatas, tão rasteiro era o esconso. Metáfora feliz, o Gil chamou-lhe «o pombal dos Anjos». Só havia uma casa de banho e era preciso, por alma de todos santos, Emmanuel Lévinas incluído, evitar que o Gil, de manhã, fosse o primeiro a lá entrar com um livro na mão.
Por duas das janelas ia-se para o telhado e sentávamo-nos à noite, gatos vadios a ver as luzes de Lisboa. Nos dias de canícula, regávamos as alcantiladas telhas à mangueira para cortar o que lá dentro era um irrespirável calor equatorial. E o que quero dizer é que «o pombal dos Anjos» era uma vergonhosa mancha de felicidade e de permanente e epifânica alegria, com música, gritos, festa, futebol, saltos e pedaços de tecto a caírem sobre as camas dos vizinhos de baixo.
Essa ruidosa alegria e espalhafato extravasava o «pombal». Em plena Almirante Reis, a meio de uma tarde, numa rocambolesca discussão sobre guerra ultramarina, para vergonha da Céu e da Antónia, o Gil e eu abrimos as camisas e lançámo-nos ao chão, rastejando à comando pelo alcatrão, aos gritos de «até à Portugália, até à Portugália».
Já a minha filha tinha nascido, cada casal com casa própria, deu-nos, ao Gil e a mim, um bizarro sopro de saudade: «Há quanto tempo não nos metemos no cacilheiro até à outra banda? Vamos mostrar à Rita o cacilheiro, o rio, a neblina de Outono.» Fomos. A Rita, os cinco anos a darem-lhe um imparável balanço às pernas, ia pontapeando o passageiro à nossa frente, um «velho» que se deslargou em resmungos e impropérios. O Gil, que adorava a Rita, afrontou-o, «Queres ver que este tem de ir borda fora?», fazendo desandar o cavalheiro e dando total liberdade ao trote nervoso das perninhas da minha filha.
Em Lagos, em Salema e em Altura partilhámos as casas de férias, com discussões homéricas sobre a organização dos dias, almoços e jantares, e sobre as limpezas – «estes riscos no chão não são meus. Só limpo até aqui!» – ou sobre política (nós, os deserdados do maoísmo) ou sobre as falésias de Ernst Jünger ou sobre René Girard, que tanto nos iluminou sobre as coisas escondidas desde a fundação do mundo.
Puxávamos de pistolas quando tínhamos de discutir romances e filmes ou o autêntico sentido do termo «clinamen», eu sempre a lembrar-me da navalha ponto e mola com que, aos 18 anos, o Gil saía certas noites, sei lá se para clandestinos encontros políticos ou amorosos. E se, nesse distante Neanderthal de 1973, éramos simpatizantes do «Ousar Lutar, Ousar Vencer», o que mais nos uniu sempre foi a rejeição à visão do mundo e dos costumes do partido do camarada Barreirinhas.
Se evoquei tudo isto não foi para opor este lado da vida do Gil à imagem a que, por certo e por ser da ordem escolar de alguns círculos e seitas, lhe quererão enfeudar a obra de mais de uma dezena de livros de poemas, contos ou relatos, alguns tão breves como fulgurantes ensaios.
A poesia de Gil de Carvalho, que começou por assinar Gil Abrunhosa numa plaquete colectiva, «Asterisco», passando a Gil Nozes de Carvalho em «Alba» e «Aboiz», só depois se fixando em Gil de Carvalho, a poesia dele, dizia eu, é uma soberba intelectualização dos «materiais da vida»: há Poço do Borratém e Almirante Reis a desaguarem no sofisticadíssimo léxico do poeta. Há versos de raparigas «ao ataque», «joviais putinhas», e garanto que as ervas dispersas que roem o passeio de um largo meio deserto, em «A Cidade de Cobre», pisou-as o Gil em Xabregas. Vulvas e dedos, esperma e «coitus cantabile», gritos e estrangulamentos, nomes que atravessam os seus poemas, são traços fumegantes de uma vida vivida.
Não me «delicadizem», por favor, a poesia do Gil. A sua sensibilidade alimenta-se também da esplêndida crueldade animal. Muita da reclusão do Gil deve-se à forma tão especial como se roçava pela natureza, sem temer o sangue, o mênstruo, as garras ferozes e a caça, o focinho e o «cu do bicho».
Aos 18 e 19 anos, nada faria calar em nós o espanto e o fascínio pelas exclamativas «l’élégance, la science, la violence» de Rimbaud, como nada sufocaria o «riverurn», nosso riocorrente, que eram as juvenis laudas que dedicávamos ao «cunnilingus» e ao decantado botão-de-rosa, «portmanteaux» do nosso imaginário antifascista, esse sim, se o fascismo era o cinzento imaginário sexual que então oficialmente vigorava. Desse fetichista pedaço das nossas vidas é memória um verso iconoclasta de «Tarantela & Viagens»: «Na tua posição sexual favorita. Lambida por trás e / Fodida na raia pela frente.» Ou ainda: «Acende a prece / nas palhetas da vulva sobre o ânus.».
Sim, fecho os olhos e volto a ver a boca gulosa do Gil a devorar a vida, excessivo, esfomeado, num período deslumbrado com a marginalidade, das putas ao chuleco, do lustroso vígaro ao pequeno delinquente, um ano depois transferindo essa devoção obsessiva para o estudo dos coleópteros. E depois para a China e depois para o judaísmo.
Excessivo no amor, excessivo nos ódios, que nele eram também ódios obsessivos: aos carros em cima do passeio, aos políticos, esses frankensteins, à americanização, aos costumes em mudança, recusando aprender a manejar um computador, recusando o telemóvel que eu lhe dei quando trabalhou nas minhas editoras, a Três Sinais, de que o Da Guia e eu o fizemos sócio, e a Guerra e Paz, mas de que é exemplo de altar, e não tecnológico, a desolação face à púbis rapada, que também aflora e se exibe nos seus poemas.
Este de que vos falei não é, esclareço, «o meu Gil», este era o Gil. E sem se chamar esse Gil à pedra, mal se compreenderá como a sensibilidade e subtileza, quase intimista, dos seus poemas é abalroada por súbitas explosões de imaginação e espontâneas inovações e invenções lexicais.
De onde vêm as elipses, as rupturas e as intermitências que travam o que, às vezes, nos seus poemas e nos seus contos-relatos parece ser um desejo de discursividade, quase uma promessa de narrativa? O que afoga a tentação da linearidade, de que ele tinha o domínio, é a onda violenta, o maremoto que era a vida dentro do Gil. A expressão desse vulcão, o Gil só pôde fazê-la fluir literariamente pela mais elevada ironia, uma ironia que o sarcasmo vem uma ou outra vez lamber com um trágico desencanto, nunca o Gil prescindindo de um princípio que foi a sua fé: a soberania do acto poético.
Fogoso, pletórico, guloso da alegria e da vitalidade na sua própria vida, a poesia de Gil de Carvalho exige vagar, muito e tão devagar. E exige despojamento espiritual.
Não sou eu que o recomendo. Foi o Gil que deixou o aviso nestes versos, em que adivinho um distante eco de Dylan Thomas: «… recomendou / aos inimigos que não fossem / com dedos frios abrir / a rápida porta, / na noite.» Leiam-no e aqueçam nele os vossos dedos. Devagar.
Uma festa em minha casa. Além do Gil, ao fundo, estão também o Dinis Machado, o Cintra Ferreira, e o grande cirurgião António Setúbal. E estão, lindas e ambas de cabelo curto à frente, a Antónia e a Céu, nossas ditas caras-metade.
Que interessa o fim e o começo se o Novo Ano não for ano de mudança? E o que é a mudança se não mudarmos por dentro, se não mudarmos nós próprios? Temos, porém, horror à mudança. Medo, muito. É sobre a mudança e o medo dela que esta crónica me fala. A todos, um excelente 2026 e até para o ano.
«O povo já está a ficar…» E interrompo o que o Dr. Jerónimo Elavoko Wanga, ilustre militante da UNITA, ministro do governo de transição de Angola, em 1975, me vai já dizer, para antes confessar que nunca mais me esqueci, e cada vez mais me lembro, da frase lapidar com que então, a poucos meses da independência da terra amada que não me viu nascer, ele me escandalizou.
Depressa veremos o que é que «o povo já está a ficar», mas preciso que me dêem a mão e viajem comigo. Venham. Eu era um rapaz de Luanda que desaguara revolucionariamente no Lobito: professor de literatura no liceu, fazia comícios, anunciava o homem novo e, em plena terra do galo negro, o sonoro símbolo kwacha de Jonas Savimbi, proclamava a primordial pureza do seu inimigo figadal, o movimento do retornado poeta de um verso profético: «às nossas casas, às nossas lavras, havemos de voltar.» Voltámos todos.
Seja como for, no Lobito, Savimbi hospedava-se do outro lado da rua onde eu morava: se eu saltasse, do meu 5.º andar, cair-lhe-ia ao colo, e, eis o problema que estávamos com ele, eu andava a fazer uma insustentável algazarra e a arrastar a juventude.
E o que o Dr. Wanga, que os meus olhos então viram com o ar eriçado de uma hiena e agora vêem como um bom homem… repito, o que Jerónimo Wanga me disse foi: «O povo já está a ficar fodido convosco.»
Eu era um revolucionário rutilante: em boa verdade, só eu, sozinho, era uma flotilha a navegar mediterrâneos de utopia. Do alto da colossal e resplandecente sabedoria dos meus 21 anos proclamava o poder popular, a violência revolucionária, um mundo de que se varreria a abjecção da desigualdade, o ópio alienante de todo o passado canalha. Ai ué Nzambi, o futuro do vento leste, esse limpo e lavado sopro proletário-camponês, esse mundo de cantado amanhã, perfeito e imóvel para sempre, forever e forever de nunca acabar… eis o que o pesado coração e a leve cabeça me instigavam a proclamar.
Estou para aqui a deixar a minha crónica falar, mas não é bem isso que quero que ela diga. Vou corrigi-la. Nesses dias e tantos meses de 1975 (quantos foram?), uma faca trazia-me retalhada a alma. Da boca para fora, saíam-me as grandes parangonas revolucionárias, mas no tumular silêncio do meu coração recolhiam-se, protegidos e clandestinos, canções e poemas, filmes e livros. Disfarçado, metia-me por nocturníssimas vielas, para deixar tocar dentro de mim os adolescentes Beatles; o Keith Jarrett em Köln; um fado de «coração por aí por onde vais» até; uma carta da remota Pinhel com as tão deliciosas reaccionárias saudades de mãe, pai e irmã; o desperdício de versos burgueses de colher na boca e amor em visita.
Se era essa a metade da alma que eu queria, o que fazia, então, de mim o refém dos sórdidos túneis da revolução, que tentava enfiar pela garganta sem espinhas do povo? Que flotilha de presunção, sem água benta, me fazia esconder o intrincado e complexo mundo de milhões de pensamentos, afectos, dilemas, intenções e dúvidas – que eu sabia existirem! – agarrando-me a uma cartilha tão tansa como astuciosa?
Vaidade e medo, diria hoje, eis os ingredientes do mais feroz revolucionário. A vaidade de ser único, de ser guia e «educador», de arrastar um cortejo de condenados. E o que, quando se apercebe da armadilha, faz o revolucionário persistir é o medo de ser excluído por tantos companheiros, camaradas, amigos, palhaços.
Aos que têm medo de deixar cantar as dúvidas, os poemas, o tão antigo e sábio passado, o raio dessas coisas a que chamamos conforto, carinho e saudade, talvez não seja mau que ouçam a frase imortal que o ministro Wanga disse, em Luanda, terra amada em que já não irei morrer.
Soube agora da morte de Mário Jorge Torres, professor universitário e perdidamente cinéfilo. Estes têm sido dias de perda e luto. Ficam memórias e este texto que escrevi a pedido para um livro de merecida homenagem.
A um educativo ménage à trois: ao Prof. Mário Jorge Torres, ao Prof. Manuel Cintra Ferreira, ao Prof. João Bénard da Costa.
É que não encontrarão em mim nem um pingo de anti-americanismo. Dessa moderna doença europeia lavaram-me a alma as épicas chuvadas tropicais, deixando-me de mente cândida, coração pioneiro e peregrino. Eu conheci a América, em Luanda, no esplêndido design dos Chevrolets, os Bel Air e o Impala, e da Plymouth Station Wagon do meu professor primário que nos despachava porta a porta depois da escola. Eu conheci a América, sempre em Luanda, na escavacada rua e apedrejado consulado yankee, em 1961, pelo putativo apoio aos putativos terroristas da UPA. Levou-me o meu pai, de motorizada, aos sete anos, a ver esse vingativo torvelinho colonial acendendo em mim o surdo e pequenino fogo que só verdadeiramente compreendi quando, tantos anos mais tarde, noutra África, a África de Casablanca, ouvi Ricky, a quem também chamam Humphrey Bogart, dizer a Ilsa, que eu sei ser a sueca Ingrid Bergman: «I’m no good at being noble, but it doesn’t take much to see that the problems of three little people don’t amount to a hill of beans in this crazy world.»
A sala das metamorfoses
E dizendo meia-verdade e só a verdade ainda não disse toda a verdade. Se conheci a América no tamanho e beleza dos intermináveis carros e se a conheci na acirrada defesa de três zé ninguéns que para o nosso mundo louco não valem um pataco ou um tostão furado ou a seca casca de um caracol, conheci-a sobretudo na tumultuosa sala das metamorfoses. Eram esplanadas abertas sobre a redonda doçura de uma baía, eram salas violentamente brancas e tinham o condão, como a larva em borboleta, de se transformar, por obra e graça de uma súbita escuridão, num inocente e terrível animal nocturno. Eis como, mais do que em nenhum outro lado, conheci a América: entrou-me pela porta da alma, projectada em luz e sombras nessa cósmica parede de cal viva que a alma tem do seu lado direito.
Comi filmes com a mesma sincera alegria com que os dentes do menino pobre afiambram a muito amarela e brilhante fatia de pão-de-ló. Ah, a doçura intransponível desses dias já mais adolescentes do que infantis! Eis o meu chuto: nessas salas namorei com Natalie Wood e Elizabeth Taylor – entreguei-lhes, à mão, a minha virgindade. E se não digo Marilyn, foi por não a ter então encontrado, e por não ter eu vocação de Manuela de Freitas, incapaz por isso de ser a personagem que ela tão bem vestiu em O Passado e o Presente, no qual, por perversão do senhor Manoel de Oliveira, a Manuela só amava maridos mortos. Marilyn Monroe já estava morta, mas à minha adolescência ainda não tinha sido dada licença para visitas ao purgatório: era lá que ela recebia as visitas de Di Maggio, Arthur Miller e JFK, esse pequeno e tenebroso rosário de maridos e amantes.
Páro um instante e, deste futuro em que vivo e então não imaginava, num instante volto a esse passado tão tenro. Desfazia-me, lembro-me, nessa sala das metamorfoses. De tão maleável e elástico como o mapa que num célebre conto de Jorge Luis Borges se transforma no território, eu era, à escala de um para um, igualzinho ao James Dean de Rebel Without a Cause, ao Paul Newman de The Hustler. E já era, desde os seis anos, o cowboy. Comecei a montar cedo, colt à ilharga: conheci o cowboy pela mão dos meus padres capuchinhos italianos, no incipiente cinema da Missão de São Domingos, que eles ofereciam ao musseque de Luanda. Conheci o cowboy mas não a cabeça de cowboy de que quero falar, a cabeça do John Wayne de The Searchers. Nessa cabeça estala o zumbido infrene de todos os tumultos que nos submergem a alma numa noite de insónias. Apagam-se as luzes da sala, a larva começa a transformar-se em borboleta, e o realizador John Ford dá-nos a ouvir a partitura de Max Steiner. Mas não é a música de Max Steiner que os ouvidos do cavaleiro John Wayne escutam. Nós ouvimos essa música, mas que sons e gritos munchianos espremem o crânio duro, obcecado e inconfessável de John Wayne?
Expulsar a infância
Cheguei onde queria e tinha-me prometido já não sair daqui, mas não resisto a voltar um passo leninista atrás, a uma catolicíssima confissão, tão sincera e simples como as que fiz aos meus padres capuchinhos italianos: posso ter pecado por pensamentos, palavras e obras, por silêncios e omissões, mas todos os ardentes entusiasmos físicos, todos os velozes e repentinos risos, todas as soluçadas lágrimas da minha sala das metamorfoses foram realíssimos, tintados a autenticidade, emoção em estado selvagem. As mulheres persas, quando os maridos estavam ausentes na guerra, guardavam as lágrimas de saudade e inquietação em delicadíssimas garrafas de vidro colorido e translúcido, de longo gargalo e boca a abrir-se em sofrida corola. Essas garrafas, as ashkdan, são hoje peças de museu. Eu trago guardado comigo o meu museu de ashkdan. Juntam risos e lágrimas, medo e exaltação, compaixão e desejo. É neste sacrário de infância, em filmes colhido, que a minha vida adulta ritualmente comunga.
Essa é a novidade da vida adulta: expulsar a infância. Eu deveria, lisamente, ter perdido na vida adulta esse amor infantil ao cinema americano. Há uma sofisticação grã-fina, ideológica, estética, cínica, que destrata o cinema americano. A mesma sofisticação que fez escritores e pensadores europeus do século XX fazer a vénia ao pai dos povos, cujo lamentável bigode aqui evoco, enquanto desdenhavam as terríveis iniquidades capitalistas americanas. E é neste ponto, e se outras razões não houvesse, que eu aqui me encontro com o Prof. Mário Jorge Torres. Fazemos parte de uma geração que teve a felicidade de transitar de um cinema americano bom selvagem da infância para uma visão interpretativa, compaginável com a transmissão do mais universal da cultura filosófica, literária e artística ocidentais, que não só não menorizou essa imagem idílica do cinema americano como lhe emprestou facetas inesperadas, que roçam o sublime, a provocação, a bela perversidade, por vezes o delírio.
Esse milagre, não duvidando que Jesus Cristo tenha caminhado sobre as águas, não o devemos ao Filho do Homem, mas sim ao bando felizmente terrorista que escreveu os Cahiers du Cinéma de capa amarela e que faria depois, com glória desigual, os filmes da Nouvelle Vague.
E há um dia, já em Lisboa, já adulto, já de Filosofia feita na Universidade Clássica de Lisboa, que simboliza na minha vida essa branda confluência das águas da infância e da vida adulta, o dia da exibição de The Searchers, no ciclo de cinema americano dos anos 50, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. Éramos mais de mil e duzentos seres humanos, vestidos com as nossas infâncias e vidas adultas. Houve quem as tivesse de sentar no chão, que não chegavam as cadeiras para tanta infância e idade madura. E eu sei que nessa sala estavam o João Bénard da Costa, que foi ao palco, e estava o Manuel Cintra Ferreira, os dois estudiosos de cinema, historiadores informais, se assim os quisermos chamar: e com eles tanto trabalhei e tanto me identifico. E estava, tenho a certeza, o Prof. Mário Jorge Torres, fidelíssima presença nesses ciclos.
Gostando, venerando, fazendo desse filme uma religião, ou levantando-lhe objecções, numa coisa comungámos: naquela prodigiosa sala de metamorfoses, aquele animal que vinha do escuro, a polifémica figura de John Wayne, os cavalos, a intolerável paisagem de Monument Valley, os atormentados índios, eram muito mais do que um entretenimento. O rio de solidão, crueldade, ódio e raivosa vingança que ali corria tinha uma auréola de tragédia grega, há quem diga de Odisseia.
Os amarelíssimos franceses
Quem nos ofereceu as ferramentas, o bisturi, para assim, em carne viva, o dissecarmos foi essa geração francesa, amarelíssima, dos Cahiers du Cinéma. Ajudaram-nos a prolongar a emoção de infância, conferindo-lhe novos prazeres. Em Portugal, na minha geração (ou nas gerações que com a minha fazem tangente), Mário Jorge Torres junta-se a João Bénard da Costa e a Manuel Cintra Ferreira, nessa forma de ver, pensar e transmitir o cinema.
É este o filme americano, quase um modesto western, que junta tudo o que de arrebatadoramente sublime espero da arte. Há uma porta que se abre, abrindo The Searchers, e vemos aproximar-se a solidão cansada de John Wayne. Depois numa sequência breve, em poucos planos, desenha-se em surdina um antigo amor inconfessável e proibido. E agora John Wayne voltou a casa e levanta no ar a nova sobrinha que ainda não conhecera. Essa breve alegria logo se apaga com o irreparável e irrevogável ataque dos índios e massacre da família. O que se segue, e os siderados olhos de mil e duzentos seres humanos seguiram no Grande Auditório da Gulbenkian, é uma peregrinação ad loca infecta em busca dessa sobrinha que uma cena atrás Wayne levantara aos céus e é agora a única sobrevivente, raptada pelos índios. É uma busca comandada pela raiva e pelo desejo de vingança. John Wayne leva às costas um alforge de ódio e de preconceito. Quer encontrar Debbie, a sobrinha, para a matar, poupando-a, quer ao opróbrio da vida com os índios, quer à vergonha que seria voltar a trazê-la para o meio dos brancos, depois da perda da inocência com os selvagens.
O cinema americano pode ser um cinema de inocência, mas poucas vezes o cinema filmou um olhar tão carregado de maldade, como o dos olhos maus e impiedosos de John Wayne. E é a maldade desses olhos que nos leva, em estado de hiperventilação, para a cena de redenção. Wayne não mata a sobrinha. Agarra-a e ergue-a em peso, já ela é uma jovem mulher, a Natalie Wood com que namorei na minha adolescência. Como na cena inicial, em que a conheceu, levanta-a aos céus, para depois a segurar contra o peito. Esse gesto resgata-nos de todo o preconceito, de toda a amargura e ressentimento. Quando a voz descrente e grave do John Wayne solta um manso, «let’s go home, Debbie«, por mais desgraçada que seja a caverna onde estamos, por mais desértica que, como as montanhas de Monument Valley, seja a paisagem onde somos peregrinos, desiludidos e vencidos, todos acreditamos que também nós voltaremos um dia a casa, aos braços de quem nos ame e proteja.
Princípio e fim
Todos menos John Wayne. A porta que, abrindo-se, abriu o filme em luz e para a luz, como o útero materno de que saímos, fecha-se em escuridão, como na hora da nossa morte, ámen. Toda a família se recolheu. Cá fora, ficou ele, John Wayne, agarrado ao seu próprio cotovelo. A porta fechada empurra-o, sem delicadeza, para um imóvel oceano de solidão. Ethan Edwards, a personagem de John Wayne, está desamparado e só: a solidão do começo é a solidão do fim.
Por onde vagueará hoje, Ethan Edwards? Acontece-me fechar os olhos, às vezes, e voltar à sala de metamorfose que a Gulbenkian foi nesse dia em que mil e duzentos vimos The Searchers. E sonho então que, como da lua cai um leão, em O Fazedor, texto do cego Borges, do céu a que levantou a minha Natalie Wood, ou da lua que só pés americanos já pisaram, cai Ethan Edwards, John Wayne, cavalo e cavaleiro, mamíferos e inteiros.
Morrem-me os amigos, morrem-me também os mitos. Um dos mais puros era o de Brigitte Bardot. Não sei como cantá-la, logo a ela que cantou (bem antes de Jane Birkini) o «Je t’aime moi non plus», que Serge Gainsbourg compôs para o corpo e para a voz dela.
Não sei chorar um mito, muito menos o mito da BB. Despeço-me dela com duas crónicas. Leiam uma, à vossa escolha.
Crónica 1, E Deus Criou a Mulher
O pé descalço emociona sempre. Nada é mais pobre do que o sumário pé descalço. Minto. O pé descalço, na sua prístina nudez, também nos atira aos olhos com a sumptuária excentricidade do milionário, o exotismo de uma Cleópatra.
Na praia deserta, fascina-nos o mistério das marcas que outros pés deixaram na mesma areia que envergonhadamente pisamos. Esses «vestigia pedis» abrem-se à nossa inquieta imaginação: evitamos apagar os traços que tanto podem insinuar a mais extrema liberdade como a caminhada de um suicida.
O pé descalço emociona. Os pés descalços de Brigitte Bardot exigem uma emoção ajoelhada. Ajoelho-me eu e ajoelha-se Wim Wenders. Numa entrevista que lhe fiz no século passado, disse-me ter vivido a adolescência convencido de que a Bardot, de só a ter visto em filmes dobrados, falava alemão. Bardot caminhava, dançava de pés descalços, e falava com a mesma língua abstracta, duramente metafísica que Hegel entregou a Merkel.
Deixem-me dizer o que quero: falasse francês, alemão ou espanhol, o pluralíssimo europeu tinha então a mesma devoção: os pés descalços de Brigitte Bardot. Arrisco: os pés da Bardot eram mais europeus do que a cabeça de Jean Monnet. Os pés nus da BB corriam por Saint Tropez e inventavam a Europa, davam-lhe asas irreverentes, pedalavam uma veloz bicicleta. Com um erotismo europeu (havia, garanto, um erotismo europeu!) dançavam um mambo em cima da mesa de um caveau. Os pés nus de Bardot eram bem-vindos mesmo na livraria onde trabalha. E noiva, Bardot foi a noiva descalça.
Lembram bem, ainda não disse que filme era. Era “Et Dieu Créa la Femme”, história da órfã de 18 anos que a ingrata associação de menoridade e mau comportamento, ameaça fazer voltar à clausura correcional. No começo do filme, apresentava-a o preguiçoso movimento de uns pés descalços. Adivinhamos que o corpo daqueles pés está atrás do lençol estendido a secar ao sol. Roger Vadim, o realizador, revela, depois, num contracampo brutal, tal e qual Deus a criara, a suave linha senoidal do corpo de Bardot que o espectador tem logo vontade de transformar numa linha dentada.
Bardot comporta-se mal porque recusa o futuro. Ouço em francês o que Wenders a ouviu dizer em alemão: “Oh, l’ avenir c’est ce qu’on a inventé de mieux pour cacher le présent.” A hedónica Bardot vive com um gato, um periquito e um coelho. O coelho tem nome: chama-se Sócrates. Não invento: é coelho e é Sócrates. Quando, com promessa de casamento, troca o presente pelo futuro, BB liberta os animais no campo. Descobre depressa ter ido ao engano. Ainda tenta recuperar os bichos. Grita pelo coelho chamado Sócrates. Em vão. Já corre, dois em um, do presente de Bardot para um país sem futuro.
Crónica 2, Já sou mulher?
Brigitte Bardot é a antítese – antítese marxista, mesmo – de Marilyn Monroe. O léxico de BB nem sequer incluía a palavra “sexo”; já o léxico de Marilyn não precisava de mais nenhuma.
Têm ambas as mais subtis e maravilhosas curvas. Mas há uma cruel luta de classes a separar a lábil e citrina geometria de cada uma delas. Bardot casou virgem, com o enfant terrible Roger Vadim. Era pelo menos o que pensavam os selectos pais dela. A forma como Bardot casou virgem sem ser já virgem é que faz toda a diferença entre o mundo dela e o de Marilyn.
Os pais tinham autorizado o namoro de BB e Vadim. Namoro à vista. Para dialécticos saltos qualitativos, encontravam-se às escondidas. No primeiro encontro BB perguntou ao amado: “E agora, já sou mulher?” Ele foi sincero: “Já és 25%.” Ao segundo encontro, a mesma pergunta e Vadim, ofegante, terá dito: “Já és 75%.” Ao terceiro encontro, ele disse-lhe o que ela já não precisava que ele dissesse e Brigitte, abrindo as portadas da varanda de um recluso quartinho, gritou para uma estreita rua de Saint-Germain-des-Prés: “Já sou mulher.” Os aplausos do bairro fizeram-na perceber que estava deliciosamente nua.
Bardot era uma nua menina de liceu, desses franceses anos cinquenta em que o amor se começava a conjugar transitiva e intransitivamente com o sexo. Era inocente e, pasme-se, guardou sempre a inocência. Fala-se muito do pecado católico, europeu, mas há muito mais pecado e ínvios sentidos no mundo WASP que deseja Marilyn, e nesse desejo a tortura, do que no mundo de primeira comunhão e crisma de BB.
Vadim casou com Brigitte. Filmou-a em “Et Dieu Créa La Femme” venusiana, amoral. Deus criou a mulher, Vadim criou o mito. E estava Vadim com o mito em Roma, num hotel, quando uma suíça de indescritível orografia, que namorava um actor amigo, veio ter com eles, a chorar, amorosamente insolvente e sofrida. Trouxeram-na para o quarto deles e, havendo só uma cama, dormiram juntos. Todos juntos e fé em Deus, porque a inocência de BB não admitia cá «bouquets». Vadim, nas memórias, conta que estava sentado num cadeirão e elas as duas ingenuamente nuas na cama. Olhava, siderado com os claros-escuros delas, como siderado se fica a contemplar uma Madonna de Bellini. A inenarrável suíça era Ursula Andress. Tudo o que fizeram foi rir-se e conversar muito.
Morreu ontem Gil de Carvalho. Morreu ontem um poeta. Gil de Carvalho foi um dos fundadores da Três Sinais Editores, a casa editora da qual nasceria, depois, a Guerra e Paz, de cuja equipa inicial Gil de Carvalho fez também parte.
Mas foi a escrita, a poesia (o «coitus cantabile» da sua poesia, de «Alba» e «Aboiz» a «8») , algum ensaio («A Dama Luminosa»), os relatos, de língua a passear entre os lábios, de «A Cidade de Cobre», a sua paixão pela poesia chinesa, as suas deambulações pelos poemas anónimos mongóis, turcos e outros incertos, que marcou e encheu uma vida vivida neste mundo à margem deste mundo.
Ia dizer que nos despedíamos agora, mas a ideia de alguém se despedir de Gil de Carvalho é uma ideia bizarra e ilusória. Há um eco de Gil de Carvalho, da sua linguagem simultaneamente escassa e deslumbrante, que sempre permanecia a preencher a sua ausência. Gil Abrunhosa, Gil Nozes de Carvalho, Gil de Carvalho, de que Gil afinal nos despediríamos?
Talvez amanhã eu consiga alinhavar os estilhaços estereofónicos que, agora, esta ideia da «morte do Gil», meu amigo desde os 18 anos, me faz passar, como um rio turvo, entre a memória e o esquecimento.
Morreu Gil de Carvalho. morreu um grande poeta português, um daqueles raros poetas que vai ser maior e mais presente à medida que os anos passem.