Do que e como gostava ANTÓNIO LOBO ANTUNES

Foi num daqueles cafés baratinhos e populares na Rua de Campolide. O António Lobo Antunes e eu tínhamo-nos habituado a almoçar com matemática irregularidade, e ali estávamos, o António, omisso em matéria gastronómica (e vínica, ó meu rico Baco), e eu, na conversa. À nossa frente, os pratos do que, se lhes chamasse «comida caseira», já seria uma rotunda promoção.

Falávamos muito de Angola, e tantas vezes a dele e a minha só coincidiam pelo muito e coincidente amor que um e outro lhes derramávamos em cima. Falávamos de livros: ou melhor ele falava, erguendo o José Cardoso Pires como um estandarte de glória, crucificando-me o Jorge de Sena, ao que eu me opunha peito nu oferecido às suas garras de lobo, logo nos reconciliando quando lhe saía, saberá o senhor santo Deus de que prodigiosa nuvem do seu cérebro, boca fora, uma página inteira de Agustina. Dizia o texto, de cor, num êxtase de menina, com o mais feminino sorriso que ele tão bem sabia fingir. Ou verdadeiramente sentir.

E não sei já do que estávamos a falar. Talvez do glorioso Sport Lisboa e Benfica ou das crónicas que cada um de nós escrevia ou talvez dessa coisa estranha a que se chama «amor» – mostrávamos um ao outro fotografias, «o Manuel não deixe de amar a sua mulher», ambos seduzidos pela ideia de que se não for sufocada pela beleza, uma vida não é vida – quando, de uma das mesas, se levantou um senhor de uma certa idade com um portuguesíssimo saco plástico na mão: povo puro se é que há povo puro. Veio à nossa mesa e disse: «Senhor António, queria dar-lhe uma coisa.» Contou que estava reformado e distraía a solidão não com livros, mas com uma navalha e uma circense habilidade de mãos. Fazia peças singelas, miniaturas de carrinhos e camiões de madeira. «Estes são para o senhor António, que eu gosto muito de si.» E pôs em cima da mesa os carrinhos que a fotografia mostra. 

«Gosto muito de si» disse aquele português de saco plástico, já de uma certa idade, e eu quase jurava ter ouvido o pingo da lágrima que tombou no poço fundo que se abriu no interior do ex-alferes que escrevia, das chanas de Angola, cartas de amor à mulher que amava.

«Gosto muito de si» foi também o que António Lobo Antunes me disse no último bilhete que me escreveu, já arrancado com força sobre-humana à dificuldade das suas mãos segurarem a caneta, ao contrário das mãos leves do senhor das miniaturas de madeira tosca. E despedia-se o António com um «abraço bem forte» logo reforçado, para que não sobrasse sombra de dúvida, «que isto fique bem claro, um abraço bem forte».

Eis o que tenho a dizer: nunca se gosta o suficiente de quem gosta assim. Nunca se abraça o suficiente quem nos abraça assim.

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