
Já está nas livrarias um livro que organizei e para o qual escrevi o texto de apresentação que é, diga-se, quase metade do livro. Estou a falar do Sermão da Montanha, que publiquei na colecção Livros Brancos. É um dos mais belos e comoventes textos da História da Literatura.
Deixo-vos um bocadinho do que escrevi:
«Eu. A multidão acaba de ouvir o que, na boca do que parece ser um profeta, é uma palavra nova. É um «eu» que nunca tinha sido dito desta maneira: é um «eu» legislativo, é um «eu» que muda o horizonte divino.
Diálogo pejado de adversativas a cada evocação da Lei, o Sermão da Montanha é um triunfo exuberante do «eu» que o pronuncia. Jesus Cristo, o homem de 30 anos, reescreve e reinterpreta a Lei. Será que a nega? Com o seu insistente e sonoro «Eu, porém, vos digo», o homem de 30 anos, sentado numa colina de altura negativa, 210 metros abaixo do nível do mar, fere o mundo que o precede para inaugurar o que ele parece desejar que seja o reino radical de uma compaixão incondicional, um mundo de Amor, um mundo de Ágape.
É inútil esconder um deslumbramento – também um tremor? – que dura há séculos: o Sermão da Montanha é um cântico de utopia. Porventura irrealizável. Talvez seja mesmo essa radical impossibilidade que converte o Sermão no manifesto sublime que é. Lê-se como um texto – dos mais escandalosamente doces – da História da literatura. Emana dele uma abundante e irrecusável repercussão filosófica, comparável à que, desse improvável Homero, a Ilíada nos oferece, comparável também à que, do mais certo Hesíodo, os versos da Teogonia, de Caos a Eros, nos revelam da mítica origem do mundo. Começa aqui, neste atónito encontro de um homem e de uma multidão, qualquer coisa de novo, uma reinvenção do mundo? Sim, começa.»
E umas páginas à frente, acrescentei:
«A poética do Sermão, as suas profusas analogias, os seus «lírios do campo», as «aves do céu», a «luz do corpo», as «vestes de Salomão», bem como a vívida linguagem em que emergem «tesouros», «ladrões», «a cidade no cimo da montanha», «o reino dos céus», «lobos ferozes», «uvas e espinhos», tem um fôlego estético que, na Bíblia, talvez só se encontre nos Salmos ou no Cântico dos Cânticos.»
E desse prodigioso Sermão da Montanha, de que me atrevi a fazer a minha tradução/versão, leiam este passo, verdadeira revolução naquele tempo. (Se é que não continua a ser uma «revolução» hoje!)«Ouvistes que foi dito: “Olho por olho e dente por dente.”
Eu, porém, vos digo: não resistais a quem vos faz o mal. Em vez disso, àquele que te agride na face direita oferece-lhe também a esquerda; e àquele que te quer levar a juízo, para te arrebatar a túnica, oferece-lhe também a capa; e se alguém te forçar a acompanhá-lo por uma milha, caminha com ele duas.
Dá ao que te pede. E não voltes as costas ao que te pede emprestado.
Ouvistes que foi dito: “Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo.”
Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos, abençoai os que vos maldizem, fazei o bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos desprezam e perseguem.»
Vou ser muito directo: gostava muito que fizessem o favor de ir a uma livraria e comprassem o livrinho ou o encomendassem no site da Guerra e Paz. Não é só um generoso favor que fazem a este pobre autor/editor: Arrisco dizer que lerem o Sermão da Montanha é um favor que se fazem e uma forma generosa de se tratarem bem, caros leitores.