
Que alegria é esta, que alegria é a alegria que se desenha no rosto de Rita Hayworth? E quem é esta Rita, que já, contando pelos dedos, mudou oito vezes a cor do cabelo, que é agora tão ruivo como o ruivo da mais ruiva das irlandesas?
Uma coisa é certa, Rita pode não ser irlandesa, mas na camada anglicizada que lhe cobre a pele, que lhe maquilha os olhos e a boca, ninguém consegue adivinhar um grão da hispanidade em que nasceu e foi criada.
Rita Hayworth nasceu Margarita Carmen Cansino, filha de um bailarino espanhol. Morena, cabelo negro de encarapinhados caracóis, quis fazer carreira no cinema, num tempo, meados dos anos 1930, em que os marujos americanos invadiam os cinemas de Los Angeles para arrear em tudo o que fosse latino. Os marinheiros acendiam as luzes, paravam os filmes, arrancavam os pés das cadeiras e mexicano que se prezasse era espancado e atirado do balcão para a plateia, com a certeza de malévolas marés.
Hollywood não era – ó se não era! – imune ao preconceito. Margarita Cansino teve de apagar a sua latinidade: a começar pelo nome e a acabar no cabelo. O que seduziu os produtores foi ver o seu então extraordinário metro e 68 a dançar. A menina Cansino era apagadita, que Nossa Senhora lhe acuda, mas quando dançava, sobretudo os movimentos dos joelhos para cima, o seu «big bang» de ancas, a dançante e perfurante simetria das libérrimas mamas, eis o que assombrava plateias.
À volta da menina Cansino desenvolveu-se uma certa tendência para que homens de meia-idade a quisessem proteger, se é que estou a usar o termo com propriedade. Um deles Edward Johnson, 40 anos de um gordo desengraçado, crânio mais desértico do que arborizado, casou-se com os 18 anos dela. Este Eduardinho fora vendedor de automóveis; passou a ser pai, marido, professor, agente, ensinando Margarita, agora já só Rita, a vestir-se, a comer à mesa, a falar.
Rita converteu-se, então, numa estrela. Era, talvez (e ajudem-me a estrangular este talvez, tirem-me o raio desta palavra do dicionário!) a mulher mais bela do mundo. Vejam-na: hoje é dia 8 de Setembro de 1943, ontem houve uma folga nas filmagens de Cover Girl, mas filma-se de novo agora, Gene Kelly e Rita estão em cena e há qualquer coisa de diferente na cara de Rita. Que alegria é aquela, tão verdadeira e incontrolável? A boca de Rita soluça alegria, os olhos, o corpo dela cintilam. Eis o que alguém que lá estava me disse: a tanta alegria de Hayworth faz pequena, quase risível, toda a alegria que o mundo anterior a esse Setembro de 1943 já sentira.
«É um segredo!» explica Rita a quem se espanta com tão incandescente felicidade. E depois confessa: «Casei ontem em segredo com Orson Welles.» Tinham-se conhecido num programa de rádio. O imenso Orson, com a sua cara de bebé depravado, teve logo ali um amoroso AVC: uma coisa era já ter visto as fotografias de Rita, como «pin-up», as longas pernas, o fato de banho a desenhar tanta fonte de desejo; outra foi olhar de frente a luz do próprio sol.
Marcaram encontro. Orson encantou-a: trouxe Shakespeare para a mesa, fê-la rir com Mark Twain, deu-lhe a beber Safo e Dante. Rita mergulhou, maravilhada, nesse mundo como nós numa viagem cósmica. Casaram.
Nos quatro anos de casados nunca ninguém foi tão feliz: Orson chamava-lhe «angel girl», «queridíssima bebé», dizia-lhe «és a minha vida, a minha verdadeira vida» ou «que o sol ande mais depressa para eu poder voltar a ver-te» quando não estavam juntos, e assinava «o teu rapaz».
Apetece ser assim, lamechas, sentimental à «outrance»; afinal é tão breve a nossa vida breve.
(Que livro extraordinário seria o escrito por este Manuel, sobre as suas deusas queridas da sétima arte…)
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