A Rapariga Alta

Eliot em visita a Virginia Wolf. De branco, Vivienne, a primeira mulher.

Não se deixem enganar. No mais recatado, sóbrio e sereno dos seres humanos pode esconder-se um vulcão fremente, labaredas e lava incandescente.

Vejam o poeta T. S. Eliot. Epítome da modernidade, era um verde vale de conservadorismo, quase timidez, vestido com a elegância de um fatinho de quatro peças, como o descrevia Virginia Wolf: chapéu redondo, abotoadíssimos casaco, colete e calças.

O erotismo era um cavalo alado que jamais pensaria visitá-lo. Eliot casara virgem e tão mal, com Vivienne Haigh-Wood, que não só a noite de núpcias, conta a lenda, foi dormida num cadeirão do convés do barco da lua de mel, como depois, em 1928, convertido ao anglicanismo, essa forma pela qual os ingleses nacionalizaram o catolicismo, o poeta fez voto de castidade.

Vivienne não escondeu sequer a infidelidade ao poeta de «Waste Land». Bertrand Russell era visita da casa e, no que filosoficamente entendia como uma contribuição para a terapia do casal, proporcionava penetrantes favores à dama com que Eliot não tinha, lá por baixo, a mínima química.

O que nenhum deles sabia é que no passado de Eliot se escondia uma mina de erótico ouro. Escrevera, entre 1908 e 1914, um livro nunca publicado, «King Bolo e a sua Grande Rainha Preta». Eram versos de uma sexualidade desgovernada e cómica. Narrava a viagem de um explorador colonial, Colombo, e o seu encontro com o Rei e a Rainha de Cuba. Havia versos com «um par de bolas peludas» outros com «um grande e nédio pénis preto» que rasga uma prostituta «da rata ao umbigo».  Num dos poemas, está Colombo morto e trazem-no à rainha que «com um garfo de ostra / trespassa de Colombo o umbigo / e logo Colombo ergue o traseiro / e na mesa defeca

Só os amigos poetas, como Ezra Pond ou Wyndham Lewis, conheciam – e muito apreciavam – esse fundo vulcânico de Eliot. Em 1915, Eliot pensou publicar os inflamados poemas na revista de vanguarda «Blast». Lewis, que era o director, disse que só o faria se ele eliminasse as palavras que terminavam em «…oder», «…ona» e «…neleiro». Sobrava o quê? O honesto Eliot recusou.

Vejamos, eu nasci em 1953. Nesse ano, já Vivienne tinha morrido, Eliot tinha duas «amantes», se assim lhe podemos chamar, uma na América, paixão dos tempos universitários, Emile, e a outra inglesa, Mary, com quem nunca jantava dois dias seguidos. Ambas queriam casar: comunicou-lhes que a ideia de voltar a viver com alguém lhe parecia um pesadelo e que se ia recolher a um mosteiro.

Mas quatro anos depois, em 1957, uma mulher dá à vida dele a volta que muita gente precisava de dar ao bilhar grande. Valerie Fletcher era a editora da obra de Eliot na Faber & Faber, casa que o publicava. Sete anos de convívio desaguaram em casamento – ela com 30, ele com 70 anos.

Para Eliot foi o paraíso. E não foi tarde demais. O puritano Eliot desamarrou o adormecido vulcão. É preciso dizer que Valerie era uma mulher alta para o tempo. Tinha um metro e setenta. Eliot, resgatando a musa dos anos de juventude, canta as delícias desse encontro com a «rapariga alta»: «Quando a minha rapariga alta se monta no meu colo / Ela vestida de nada, eu de nada vestido, / as nossas partes do meio tratam dos seus negócios /e eu posso acariciar-lhe as costas e as longas pernas alvas. / Ficamos felizes os dois. Porque ela é uma rapariga alta.»

E Eliot conta-nos mesmo «Como São os Seios da Rapariga Alta»: «Os peitos dela são pêras maduras a balouçar /sobre a minha boca / que se ergue para morder.»

Com a rapariga alta, nunca é tarde para se chegar ao paraíso.

Publicado no Jornal de Negócios, no suplemento Weekend.

4 thoughts on “A Rapariga Alta”

  1. …mas o que o poeta andou para lá chegar! Nunca é tarde se aos setenta encontrarmos uns trinta que nos aceitem:)).

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