Reflexões de um filósofo sobre o clima

A Guerra e Paz editores acaba de publicar um livro da climatologista Judith Curry, Alterações Climáticas, o que sabemos, o que não sabemos, um livro de pensamento aberto que afirma a incerteza científica face a um pretenso unanimismo de redução do aquecimento global a uma única causa.  O livro causou naturais e vivas reacções, sendo a bandeira do chamado consenso científico o principal argumento de contestação dos detractores do livro. Decidimos por essa razão, trazer este recentíssimo texto de um filósofo, o canadiano Paul Viminitz, um texto de pensamento fora da caixa, como é timbre de Viminitz, em que, com ironia demolidora e uma argumentação irrepreensível, ele põe em causa a lógica desse consenso. O original inglês pode ser lido, quer no blog Climate ETC., de Judith Curry, quer no extraordinário Paulosophical Vimplications, o blog do autor. O texto em anexo é uma tradução Guerra e Paz, para facilidade de acesso do leitor português. Um texto para quem tem o prazer da argumentação e da escrita.

3D Book Alteracoes Climaticas_square

 

Reflexões de um filósofo sobre a negação do aquecimento global antropogénico 

De Paul Viminitz

Entre as coisas que mais me interessam, o aquecimento global antropogénico (AGW) é praticamente a última. Mas porque – como disse George W. Bush – «ou se está connosco ou se está contra eles», creio que prefiro estar produtivamente errado do que politicamente correcto. Por isso, escrevo aqui a minha defesa da negação do AGW, mascarada – para continuar a receber convites para jantar – de sarcasmo.

Creio que tinha apenas seis ou sete anos, mas lembro-me com nitidez. Estávamos sentados à mesa, e a minha irmã, uns anos mais velha do que eu, perguntou aos meus pais se nós, os judeus, acreditávamos na vida após a morte. Não me lembro da resposta, mas lembro-me de achar estranho pedir-se a alguém que dissesse no que acreditar. E, no entanto, é exactamente isso que estou prestes a fazer.

Ao contrário do cristianismo ou do islamismo, o judaísmo é uma religião não doutrinária. Não se decide ser judeu, é-se judeu e ponto. As crenças não são para aqui chamadas. Mas uma pessoa pode muito bem decidir, por razões que nada têm que ver no que acredita, decidir que seria «fixe» ser, por exemplo, budista, defensor da Terra plana, supremacista branco ou qualquer outra coisa, e só então investigar sobre o que tem de acreditar para ser tido como tal. Talvez seja só vestir-se ou ouvir a mesma música que eles. Ou então, como os anti-racistas, por exemplo, tão pedantemente mais sagrados do que tu. Quando se trata de política de identidade, fixe é fixe. O racional conta népias. A imagem é tudo.

Em todo o caso, decidi – e decidi sem precisar de pensar – que seria fixe ser um negacionista, porque, para um filósofo, até a má cobertura de imprensa é melhor do que a que habitualmente há – que é nenhuma. Claro que isto não quer dizer que pretenda ser um negacionista tout court. Pretendo ser selectivo. Quero negar algo que faça com que eu seja alvo de uma difamação que me torne fixe, mas não tão infame que faça com que eu nunca mais seja convidado para jantar nesta cidade. Por isso, por mais tentador que fosse, o Holocausto não foi nunca uma opção.

Durante algum tempo, brinquei com o Relatório Warren e, depois, com a aterragem na lua, mas nenhum dos meus alunos se lembrava do assassinato de Kennedy. E alegar que aquele «pequeno passo para a Humanidade» fora dito num hangar de aviões algures no deserto faria de mim apenas mais um louco. Tendo conhecido alguns, decidi que o louco não é fixe. Ser fixe implica, pelo menos, uma negação plausível.

E então? E então foi assim que me instalei no aquecimento global antropogénico (AGW). É possível que tenha de se ser ignorante para se ser um negacionista do AGW, mas não necessariamente louco. E, ao contrário da defesa da pedofilia, a negação do AGW não arrepia assim tanto que leve a que ninguém queira ter alguma coisa que ver comigo.

O único problema, como já observado, é que, como nada sei acerca do AGW, não sei o que é exigido para não acreditar nele. Como tal, o objectivo deste exercício é colmatar essa lacuna, porque, bem vistas as coisas, não funciona não saber nada quando se fala com ares de grande autoridade.

Por conseguinte, começo as observações que se seguem, não com o pró-forma «corrijam-me se estiver enganado», mas com esse genuíno pedido. Mas é claro que as vossas correcções em nada alteram a minha opinião. Isso é que é ser um verdadeiro crente. Até porque o primeiro passo para entender os factos de forma errada consiste em entendê-los da forma certa. E, se conseguisse obter alguma ajuda nesta fase, ficaria eternamente grato.

* * *

Dizem-me que um negacionista é alguém que defende uma opinião que contraria um consenso científico reconhecido. Primeira pergunta: porque tenho de defender a minha negação para me qualificar como tal? Resposta: porque a negação é, actualmente, vista como um crime de ódio. O mero facto de ter a opinião de que, por exemplo, qualquer pessoa com hálito a haggis[1] deve ser morta é um crime de pensamento. Mas desde que eu o guarde só para mim, aqueles que celebram o Dia de Robbie Burns[2] não correm perigo. Nenhum perigo, nenhum dano. Nenhum dano, nenhuma falta.

Segunda pergunta: o consenso é reconhecido por quem? Não pode ser pelos que o subscrevem. Nesse caso, qualquer pessoa que negasse o que dizem os cientistas criacionistas seria tida como negacionista. Porque afinal, eles também estão de acordo, olho por olho, uns com os outros.

Poder-se-ia argumentar que cientistas criacionistas é um termo erróneo porque para eles as Escrituras superam a fidelidade devida do chamado «método científico». Mas não estou certo de que assim seja. Todos nos fiamos numa cadeia de confiança doxástica[3]. E, presumivelmente, a nossa fé nessa cadeia depende do histórico. Imagine alguém que prevê o futuro com 100% de precisão, mas ninguém sabe como o faz. Poderá manter‑se fiel aos seus princípios e recusar-se a consultá-lo, mas isso apenas faria dele um idiota.

Assim, se alguém tiver motivos para acreditar que as Escrituras são um testemunho que se mostra fiável em questões morais e históricas – por exemplo, as leis do jubileu e o túmulo vazio, respectivamente –, por que não confiar, então, no que dizem sobre a cosmologia?

Agora, não me interpretem mal, o que, certamente, farão. Não estou a defender aqui a literalidade das Escrituras. Até porque não preciso. Apenas pretendo afirmar que não é necessário ser-se louco para lhes atribuir o seu traço doxástico.

Mas não vamos discutir o que conta como ciência. Digamos apenas que por «consenso científico» se entende o que é emitido pelas instituições tradicionais. E é com base nelas que estamos habituados a assumir a nossa posição em questões do mundo material. Se fazemos isso de forma correcta ou não e quão radicalmente contingentes se tornam as nossas crenças é outra questão – que não implica que nos demoremos e atrasemos neste ponto.

Dito isto, ninguém pensa que essas instituições são infalíveis. Portanto, nada na definição de «negacionista» implica que ele esteja necessariamente enganado. Aliás, pode admitir-se sem constrangimento que alguns dos que mais contribuíram para a nossa compreensão do mundo foram, nas épocas em que viveram, negacionistas.

Ainda assim, isso não implica, de forma alguma, que tenha de se pôr um fim ao uso pejorativo do termo. Existe a possibilidade de, no futuro, se perceber que Andrew Wakefield[4] esteve sempre certo e que as vacinas podem causar autismo. Porém, tal não faz com que ele tenha direito a um pedido de desculpas. Uma condenação errada não é uma condenação injusta, porque a verdade é sempre incerta, assim como são os processos pelos quais tentamos lá chegar. Mas esses processos são tudo o que temos. E, na maior parte das vezes, prestaram-nos, apesar de tudo, um serviço excepcionalmente bom, tal como sucedeu, por bizarro que seja, com a talidomida.

O que ninguém nos diz é com base em que instituições científicas específicas devemos assumir uma posição. Pensemos nos media. A CNN apresenta-se como «o nome mais fiável nas notícias», mas a Fox afirma apenas que é «justa e equilibrada». Alguns são partidários de uma, outros, da outra. Poderemos, então, dizer somente que cada um escolhe a sua realidade e se fica por isso?

Certamente, podemos, o que não podemos é ficar-nos por aí, porque as nossas realidades díspares têm impacto nos outros. Nem sempre, mas com abundante frequência. Se eu não vacinar o meu filho e se o seu tiver um sistema imunitário comprometido, não se pode dizer que as nossas decisões estão bem compartimentadas. Embora se possa adoptar o mesmo raciocínio em relação ao AGW, teremos ainda de discutir.

Menciono a CNN e a Fox porque é através dos media que percebermos qual é o consenso e qual é a posição divergente. Porque vemos e lemos o que vemos e lemos pensamos que «toda a gente sabe x». Mas porque eu vejo e leio o que vejo e leio, acho que «toda a gente sabe y».

O que mais poderemos dizer uns aos outros além de: «Toda a gente que sabe, sabe isso… »? Se discordamos só pode ser porque um de nós não está entre os que sabem.

Como veremos mais à frente, combater o AGW é um problema de acção colectiva. E, aqui, a questão é lexical. Os problemas de acção colectiva são bastante difíceis de superar, quando assumimos o estado de espírito de que  um problema. Mas mesmo quando o não temos, um problema de acção colectiva não tem de ser intratável, desde que exista uma massa crítica de nós que tenha essa vontade. Mas não nos podemos comprometer com uma causa se não formos capazes de superar esse cepticismo prévio.

E, no entanto, muitas vezes comprometemo-nos, o que significa que superámos. De que forma? Por um fiat[5].

Acredito na maior parte do que me disseram porque, caso contrário, ficaria congelado em torpor. E a prova de que é melhor ter crenças reconhecidamente injustificadas do que suspender completamente a crença é que as primeiras foram naturalmente escolhidas a favor e a segunda, contra.

Assim, neste sentido estratégico de justificação, admitamos que se tem o direito, embora de modo nenhum compelido, a acreditar no que foi dito, ou seja, de não questionar que 97 % dos cientistas acreditem que o AGW é real.

* * *

Terceira pergunta: 97 % de que cientistas? E quarta: eles confirmaram o AGW pelos seus próprios meios e de forma independente ou acreditam nessa noção pelos mesmos meios que todos nós? Afinal de contas, um cientista informático é um cientista, mas o que é que ele sabe de climatologia?

E se um climatologista ratificar as descobertas de um colega porque o primeiro não tem motivos para não confiar no segundo, então um consenso de 97 % não tem mais força probatória do que um relatório minoritário.

Admitamos tudo isto. Mas, e então?! Quase tudo em que acreditamos é, em última análise, atribuível a umas poucas pessoas que fazem observações, mais a algumas outras que desenham inferências a partir dessas observações, e mais algumas que fazem outras inferências a partir dessas inferências e assim por diante. Quanto mais subimos a escada, mais a nossa confiança depende da confiança invisível que temos nas observações e inferências feitas em cada degrau abaixo. Pérolas dentro, pérolas fora. Lixo dentro, lixo fora. Estes são apenas os dividendos que recolhemos, mas também os perigos em que incorremos, com base na especialização do trabalho epistémico. É como se diz: não há almoços grátis.

Vamos, então, ver o que temos: há um relatório sobre um relatório sobre um relatório e por aí adiante… que afirma que existe um consenso sobre a existência de um consenso sobre a existência de um consenso e etcetera…  em relação a uma cadeia de confiança na qual algumas pessoas, mas outras não, estão preparadas para confiar… e que isso assegura que o veredicto do AGW é real.

Parece-me difícil de negar isso, e eu não nego. Nem sei de qualquer negacionista do AGW que o negue. O problema é que é trivialmente verdadeiro. Ou, como se costuma dizer, é apenas corriqueiro, mas é verdade.

* * *

Mas não posso ser um negacionista sem algo para negar. Vamos lá tentar outra via.

Por «meteorologia» entende-se o que eu preciso de saber para planear o meu dia. Mas, deixando de lado o passeio à lagoa[6], significa o comportamento da atmosfera – precipitação, vento, temperatura, esse tipo de coisas – a uma hora de carro de distância da estação de televisão local. Disseram-me que nenhum desses fenómenos é independente, mas, para melhor moldar este debate aos nossos fins, limitar-nos-emos a falar de temperatura.

Nós só somos capazes de medir e registar a temperatura há cerca de duzentos anos e só o fazemos continuamente, em vez de periodicamente, há ainda menos tempo.

Ainda assim, como em qualquer função não monotónica, permitimo-nos, por falta de escolha, interpolar e extrapolar dados. E quando o fazemos, o que obtemos é algo semelhante a uma fileira de dentes de tubarão, irregular e de sentido desconexo.

O que entendemos por clima consiste, então, em pegar nessas medidas e calcular-lhes a média ao longo de um período, digamos por exemplo, de trinta anos. Agora, à medida que o cursor se move, tanto sobe como desce. Mas, ao falhar algum evento catastrófico, como a queda de um cometa ou uma erupção do Krakatoa, a irregularidade da denteação do tubarão quase desaparece. Num determinado ponto, a temperatura média ao longo dos quinze anos em ambos os lados do cursor foi, digamos, de doze graus. Mas seria preciso mover o cursor várias décadas para o registo de onze ou treze.

Até agora, a nossa temperatura climática tem sido definida como a média da leitura de um sensor localizado no parque de estacionamento ao lado de uma estação de televisão local. Calculemos, agora, a média da média das leituras de todos os sensores espalhados pelo país, sendo meticulosos no posicionamento dos dispositivos, de forma a não induzir erros de amostra enviesados. Provavelmente, o cursor sobe e desce ainda menos erraticamente. À medida que espalhamos os nossos sensores pelo mundo, o que deveríamos concluir é que, se o clima global fosse aquilo que apelidamos de «estável» – pondo de parte os estranhos El Niño ou La Niña –, a oscilação de temperatura seria qualquer coisa lisinha, que não mexe.

Mas, aparentemente, não é o que se passa. Desde o início dos anos 1800, o que podemos ver – ou, mais precisamente, o que alguém descobriu que alguém descobriu que alguém descobriu – é que a temperatura global média aumentou pelo menos um grau. É claro, esse valor continuar a aumentar depende do que causou a sua subida e de que essa causa e efeito seja uma função monotónica ou não monotónica. Ou seja, o que quer que tenha causado este aumento de temperatura carrega em si as sementes da sua própria reversão? E se sim, em que altura podemos esperar que essa reversão mostre a cara?

Repare-se que, ao dizer «o que quer que tenha causado esse aumento», pretendo incluir a possibilidade de antropogénese como um factor entre outros ou mesmo factor único. Por exemplo, algumas pessoas estão optimistas e julgam que as temperaturas globais voltarão aos níveis pré‑industriais quando esgotarmos os combustíveis fósseis que estamos actualmente a converter em dióxido de carbono, ou quando nos matarmos todos ou o que ocorrer primeiro… Embora «optimista» talvez seja uma escolha estranha de palavra neste contexto.

* * *

Já agora, sou ateu. Mas considero-me um ateu empático, mais do que um ateu absolutista porque, ainda que apostasse a minha alma imortal em como Deus não existe, não apostaria a quinta da família nessa crença. Da mesma forma, enquanto negacionista, não acho que seja obrigado a descartar a possibilidade de que o aquecimento global seja real e, se for, também não descarto a possibilidade de ele ser antropogénico. Esse seria o tipo de hubris epistémica que ridicularizei, com toda a justeza, nos meus interlocutores.

E eis que restam, por consequência, seguintes opções:

  •        Posso negar que, de facto, é real.

  •        Posso conceder que seja real, mas negar que seja antropogénico.

  •        Posso tentar garantir aos meus interlocutores Chicken Little[7] que, seja ou não real, não há motivo de preocupação. Ou…

  •        Posso conceder que haveria algum motivo de preocupação se as Escrituras não nos tivessem prometido uma Segunda Vinda. E isso implica que ainda aqui estejamos para recebê-la.

Escusado será dizer que espero não acabar a abraçar esta última opção. Até porque, como judeu, desisti de esperar pela Primeira Vinda, quanto mais por uma segunda. De qualquer forma, vamos ver qual dessas opções devo adoptar.

Preocupo-me, sim, como alguns dos meus companheiros de viagem, com o meticuloso o posicionamento dos sensores, para que uma amostra enviesada não convide ao erro. Mas estou preparado para aceitar com fé – a mesma fé que me permitiria não o aceitar – que, nos últimos duzentos anos, a temperatura média global tenha aumentado um grau.

Lembremo-nos de que, na última hora, a temperatura desceu mais de oito graus. O que desejo saber é a razão pela qual o aumento de um grau na temperatura média global é mais preocupante do que a temperatura local ter descido oito. Afinal, tal como se diz dos paus, pedras e palavras, os ventos fortes do furacão podem partir os meus ossos, mas o clima nunca me aleijará[8]. A resposta, dizem-nos, é esta:

O clima supera a meteorologia. Ou seja, não há qualquer alteração climática sem uma série de alterações meteorológicas. Porém, embora uma mudança do clima não cause uma mudança na meteorologia – isso violaria a relação de superveniência – a sua prognosticação pode simultaneamente prognosticar mudanças na meteorologia. Por exemplo, ao prever sete anos de seca, Joseph estava também a prever a improbabilidade de chover na quarta-feira seguinte. Assim, se os Chicken Littlers estiverem certos de que devemos esperar por um segundo grau de aquecimento global ao longo da próxima década, determinados fenómenos meteorológicos poderão ser previstos com um razoável grau de certeza. E alguns desses fenómenos são, realmente, motivo de preocupação.

Preocupação com quem? Vamos fazer um pequeno desvio para ver se conseguimos responder a esta pergunta.

* * *

Dos 7,5 mil milhões de pessoas no mundo, existe, certamente, pelo menos uma pessoa – vamos chamar-lhe Jane – que gostaria de pôr fim à vida, mas não tem os meios ou a coragem de o fazer. Segue-se que, apesar de o fim do mundo – ou seja, o fim da sua antropicidade – ser uma perda para a grande maioria dos seus habitantes humanos, há algumas pessoas – e com isso quero dizer pelo menos uma – para as quais seria um ganho. E mais, isso seria verdade independentemente de como o mundo chegue ao fim, neste sentido antrópico, quer fosse um cometa assassino que nos atingisse e matasse o planeta, o Armagedão nuclear ou o AGW.

Pode afirmar-se que, apesar de ela ter o direito de querer pôr fim à própria vida, não o pode fazer à custa da vida de qualquer outra pessoa. Mas isto acrescenta à história uma premissa que teria de ser argumentada de forma independente. Afinal, David Hume argumentou que «não é contrário à razão preferir a destruição do mundo inteiro a arranhar o meu dedo». Se essa razão puder ser invocada, ainda hei de de ouvir alguém fazê-lo, salvo as poucas pessoas que nutrem o sentimento estranho a que Hume chama de «sentimento de companheirismo», sentimento que Jane, aparentemente, não nutre.

A fortiori, então, dos sete mil milhões e meio de pessoas no mundo, existe pelo menos uma –vamos chamar-lhe Dick – que prefere continuar a viver, mas cuja qualidade de vida – de acordo com a sua própria medida – que é a única que o afirma como agente autónomo – seria melhorada pelo próprio AGW ou por aquilo que no AGW constitui um efeito antecipado mas autónomo. Segue-se, portanto que, de forma não muito diferente do que acontece com quase tudo no mundo, o próprio AGW – ou o que deste resulta ou no que este resulta – está destinado a produzir vencidos vencedores.

Pode muito bem ser que, a curto prazo, haja mais vencidos do que vencedores, ou de que os vencidos percam mais do que o que ganham os vencedores. Mas, o que significa isto para o Dick? Pode mesmo ser que, a longo prazo, até o Dick perca. Mas o que significa isso para a Jane?

Um indivíduo pode estar enganado sobre qual dos dois ele poderá ser. Mas isso acontece com qualquer escolha que se faça sob uma incerteza, seja ela uni ou bidimensional. O que se segue, no entanto, é que o que há a fazer, se é que há algo a fazer, a respeito do AGW é uma decisão política, sujeita às mesmas forças de qualquer outra – a saber, o conflito de interesses. Uma pessoa pode esperar que os interesses do outro, como ela os vê, se encaixem nos seus. Mas isso é exibir uma grande indignação moral quando a sua não revela a maturidade moral de uma criança de três anos.

Ora, como qualquer teórico da escolha racional lhe dirá, geralmente existe uma desconexão radical entre as preferências declaradas e as preferências reveladas. Quais são, pois, as suas verdadeiras preferências? Eu optaria pelas últimas. Assim, quando alguém me diz que prefere determinados fins, mas persegue sempre outros, tendo a suspeitar que essa pessoa realmente não prefere o que pensa que prefere.

Mas há uma ressalva importante. Eu preferiria passar a tarde a limpar as ruas do bairro se um número suficiente de vizinhos se juntasse a mim. No entanto, se eles não se quiserem juntar –e não querem – prefiro, em vez disso, assistir a um jogo de futebol. É isso o que queremos dizer ao falar de um problema de acção colectiva. E a falha em resolver esses problemas produz o que Garret Hardin chamou «a tragédia dos bens comuns». Não posso carregar a acusação de hipocrisia àqueles que até fariam alguma coisa em relação ao AGW, mas não o fazem porque, na ausência de outras pessoas para seguir o exemplo – que não seguem –, os seus esforços seriam desperdiçados. Isto descreve a maioria dos meus colegas. E, provavelmente, dos seus também.

Há ainda um outro motivo pelo qual os que se angustiam e lamuriam pelo AGW não se distinguem em termos comportamentais dos seus inimigos negacionistas, angústias e lamúrias à parte. Eles dizem-nos que o AGW é o problema mais urgente que o mundo enfrenta actualmente e depois perguntam-se porque é que ninguém está a tratar disso. A resposta é simples: não há uma única pessoa no planeta – incluindo quem pergunta – para a qual fazer algo em relação ao AGW esteja sequer perto de integrar o top da lista de coisas-a-fazer-hoje.

Se um cometa estiver prestes a destruir a Terra nos próximos dez minutos, acho que irei ao encontro do meu Criador com o pirilau de fora porque, primeiro, tenho de fazer xixi. Ou irei buscar os miúdos à escola. Ou passear o cão. Posso talvez não me dar ao trabalho de efectuar o pagamento da hipoteca que hoje vence. Mas, fora isso, oh, sim, acho que é o mesmo pão nosso de cada dia

E por maioria de razão se eu trabalhar no Patch[9]. Porque, se se verificar que, afinal, temos mais de dez minutos ou, digamos, alguns meses, o banco não aceitará que eu leve ao peito um cartaz que diz «O fim está a chegar» em vez da prestação do empréstimo.

Dizem-nos que temos doze anos para consertar os nossos caminhos. Ou então o quê? Ou então suportaremos as consequências de mais doze anos de atraso, assim como temos suportado as consequências dos últimos doze.

Assim sendo, talvez o que eu negue não seja tanto o aquecimento global em si nem o facto de ele ser antropogénico – embora queira manter o direito de o negar –, nem o pressuposto de que haverá consequências devastadoras para algumas pessoas – talvez já haja. Talvez eu queira apenas dizer que isso não resolve a questão de quem, se alguém, é que deve fazer o quê ou alguma coisa, acerca do problema.

Ou talvez apenas diga que, por ser um intratável problema de acção colectiva, ninguém fará nada para o resolver. E, como ninguém vai fazer coisa nenhuma, não é, por definição, um problema. Mas como por definição? É que por problema queremos significar qualquer coisa pela qual podemos fazer algo. Caso contrário, chamamos-lhe apenas um facto. Mas mesmo um facto desagradável – como o de eu ir morrer um dia – não é matéria que cause extraordinária preocupação.

Porém, não tenho certeza que deva deixar a questão neste pé. Creio que quero negar que seja um facto. O mundo chegará ao fim em algum momento. Assim como, com toda a probabilidade e ainda antes disso, a antropicidade do mundo. Mas o fim do mundo tem sido previsto, para grande vergonha de inúmeros xamãs, desde que abandonámos as cavernas, e creio que alguma coisa deve ser dita o a dizer para uma mínima conclusão.

«Ah, mas desta vez é diferente.»

E, no entanto, nunca é.

«Sim, mas agora temos a ciência para provar.»

E que xamã pensou que não o faria?

Será esta apenas a minha maneira velada de confiar que Deus nos salvará? Sou ateu, recordo. Mas vamos ver.

O vosso consenso científico, associado ao meu argumento dos problemas de acção colectiva, leva-nos ao fim inevitável do mundo antrópico. A minha teoria pragmática da verdade não pode aceitar isso. Como tal, ou a vossa ciência está errada ou o meu entendimento dos problemas das acções colectivas é, lamentavelmente, inadequado. Nada sei sobre a primeira, mas vivo do último. Assim, digam-me a mim qual é que eu estou inclinado a achar que é o réu.

Quod erat demonstrandum[10].

* * *

Se já deixou de ser capaz de escalpelizar uma discussão – ou se talvez nunca o conseguiu – não tem nada que se envergonhar. Também nunca fui capaz de correr a milha de dez minutos. Já aceitei o facto.

O que leva a confiscar a alguém o direito a participar na conversa, no entanto, é fazer de Kellyanne Conway[11]. Circular é, na prática, apenas sair do edifício.

Sou responsável pelo que disse, não pelo que isso signifique nem pelo que ouviu. O meu negacionismo pode ser associado a um certo número de objectivos mefistofélicos: a guerra à ciência, a extrema-direita, a pornografia infantil, os Protocolos dos Sábios de Sião… Ou, o favorito dos meus interlocutores: o facto de estar na lista de pagamentos– quem me dera! – das grandes companhias petrolíferas.

É com agrado que me declaro culpado de tudo o que foi escrito acima. (Bem, excepto das grandes petrolíferas, que continuam a dizer-me que o cheque foi enviado por correio.) Mas, tal como as flores que florescem na Primavera – tan tan tan tan – nada disto tem que ver com o caso, tan tan tan tan!

Não muito diferente do circunstancial ou abusivo ad hominem[12], expressões como «o reconhecido consenso científico» ou «os principais especialistas em» são adequadas à retórica, mas não a uma argumentação séria. Se usarmos «urgente» para indicar algo diferente, é preciso redefinir o termo e, de seguida, defender o que queremos dizer com ele. Se achar que existe uma assimetria entre os seus protocolos epistémicos e os dos seus interlocutores, terá de identificar essa assimetria sem a pressupor. E isto não quer dizer que a sua visão não acabe por ganhar o dia. Mas tem de vencer e não apenas clamar vitória.

Nós, negacionistas – partindo do princípio de que consegui ser um –, fomos tão culpados como os nossos interlocutores de tornar este debate tão tóxico que não é de admirar que nenhum de nós possa pregar a outros que não aos convertidos. Assim, como agora sou o seu porta-voz oficial, gostaria de propor que ambos limpássemos o veneno das nossas lanças e falássemos uns com os outros, em vez de sobre ou contra os outros.

Mesmo que tenha de fingir até conseguir, faça-o. Um pouco de humildade intelectual pode ajudar bastante a fazer amigos e influenciar pessoas, o que, provavelmente, é o que deseja, sobretudo a última parte. A menos, é claro, que como o Todo‑Poderoso, pretenda apenas aproveitar o esplendor da sua justiça inexpugnável.

Paul Viminitz é professor de Filosofia na Universidade de Lethridge, no Canadá. Uma das suas especialidades é a filosofia da guerra. Participante do blogue Paulosophical Vimplications.

[1]Um dos pratos tradicionais mais conhecidos da Escócia (bucho de carneiro recheado com vísceras moídas, ligadas com farinha de aveia).

[2] Dia na Escócia em que se celebra a vida e poesia do poeta Robert Burns. O ponto alto deste dia é um jantar que inclui haggis, uísque escocês e a recitação da poesia de Burns.

[3] Do termo grego doxa, que significa opinião.

[4] Médico que originou a polémica sobre a influência das vacinas no autismo.

[5] Termo latino que significa «faça-se», com que a Virgem Maria acolheu o anúncio da sua maternidade.

[6] Flying the Pond no original.

[7] Personagem principal de um filme de animação da Walt Disney (2005) com o mesmo nome. Chicken Little é um galinho ingénuo e imaginativo que, ao afirmar que lhe caiu um pedaço do céu na cabeça, causa as maiores confusões no local onde vive.

[8] Referência a um popular ditado inglês, «Sticks and stones may break your bones but words can break your heart».

[9] Patch é um programa de computação que corrige softwares.

[10] Locução latina que significa «o que era necessário demonstrar».

[11]Directora da campanha eleitoral do Presidente dos EUA, Donald Trump, em 2016, sendo actualmente sua Conselheira na Casa Branca.

[12] Locução latina que significa «argumento contra a pessoa».

2 thoughts on “Reflexões de um filósofo sobre o clima”

  1. Obrigada pelo texto traduzido.Temos de acreditar em alguma coisa, acredito na tradução da Guerra e Paz. Não fiquei completamente convencida pelos argumentos negacionistas do autor, mas desalarmou-me. Quanto ao livro de Judith Curry parece-me útil para abrir horizontes.

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