A mão de Deus

Houve uma guerra, é bom que se diga. Eu vou, é certo, falar de paz, da paz gritada, apupada, esfusiante e delirante, que é um jogo de futebol. Não posso é esconder que houve antes uma guerra e que as tropas inglesas da democrática Senhora Tatcher tinham agarrado pelos colarinhos e humilhado as tropas do ditador argentino, o general Videla.

A guerra fora nas Malvinas, mas estava-se agora no Estádio Azteca. O nome do estádio já provoca uma aflição kirkegaardiana: a angústia dos ecos ancestrais do choque de índios e conquistadores ressoava ainda em cada pedra do estádio. E estarem frente a frente, nessa final do Mundial de 1986, no quente mês de Junho, as equipas da Inglaterra e da Argentina, deixa cair sobre esse confronto um épico pingo de “capsaicina”, a substância activa “del chile”, o picante que faz arder “las carnitas” e “los tacos” mexicanos.

No Estádio Azteca, eram duas civilizações que estavam frente a frente. E lembrem-se, o próprio esférico, uma estreia, era uma bola novinha em folha, igualmente chamada Azteca, o nome a acordar os demónios do passado, mas na forma um exemplo de revolução tecnológica, a primeira bola de futebol a dispensar o couro, toda em adricron, um revestimento sintético impermeável, trinta e duas faces hexagonais elegantes, e de uma inquebrantável longevidade. O horror que foi jogar anos com bolas de catechu, a que uma boa chuvada acrescentava meia tonelada: eis o que afogou o mínimo Eusébio que havia em mim, a encharcada e incirculante bola de catechu.

Adiante e vejam, é a nova bola revolucionária que circula entre Shilton e Lineker, entre Valdano e o pequeno deus chamado Diego Maradona. Durante 45 minutos, esses dois mundos ressentidos, a nórdica rosa dos Tudor e o azul ultramarino das pampas, mediram-se, sem se ferir. Mas aos seis minutos da segunda parte, o defesa Steve Hodge tenta aliviar a pressão sobre a sua área: a mal pontapeada bola ganha efeito e cruza a área, Shilton, o guarda-redes, salta com Maradona. O punho de Shilton vai lá acima, a 200 metros de altura, mas o pequeno Maradona, num exercício de prestidigitação, voa 201 metros e a sua cabeça desvia a bola para o fundo das redes. E há aqui um grande imbróglio teológico-anatómico: a cabeça de Maradona ali, a 201 metros de altura, tão perto do céu, foi roubada por um Deus omni-invejoso. Deus, sentindo o homérico jogo de futebol a roçar-lhe os berlindes, quis também jogar e pôs a sua mão onde devia estar a cabeça prodigiosa de Dieguito. Diga-se, àquela bola, toda feita do leve adricron, bastaria, se Deus quisesse, um simples sopro, mas quem não quereria, em 1986, mesmo Deus, sopesar na própria mão a leveza desse revestimento sintético, o poliuretano, à prova de água.

Essa bola, a Azteca do Estádio Azteca de 1986, esteve, até ao ano passado, nas mãos do árbitro tunisino, Ali Bin Nasser, que Deus iludiu naquela jogada disputada nas nuvens. Quis agora o árbitro, sufocado pela insidiosa presença de Deus, descarregar a temível sombra sobre a humanidade. Num leilão, alguém pagou 2,4 milhões de dólares para ter em casa a bola que a mão de Deus tocou. Já pela camisola de Maradona, que ele, no fim do jogo, dera a Hodge, o inglês que fez o involuntário centro, em leilão alguém ofereceu e pagou mais de 9 milhões, a mais cara camisola de futebol de sempre.

Onde está, pergunto eu, a bola que a mão de Vata meteu na baliza do Olympique de Marseille, no jogo que estes meus olhos viram e que levou o Benfica à final da Liga dos Campeões? O que eu não pagaria por ela em leilão!

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Era a Cinemateca adolescente

“Sou o presidente! Quero entrar!” Os corpanzis do Grave e do Gigante empertigaram-se e ripostaram curto e cerce: “Tem bilhete? É que se não tem bilhete, não entra!” Esse presidente da Câmara Municipal de Lisboa não era nem o gentil Carlos Moedas, nem o dinâmico António Costa. Era o lendário Krus Abecassis e queria impedir a exibição do filme “Je Vous Salue Marie”, uma peça mais lírica do que iconoclasta do falecido Godard. Sem bilhete, Abecassis não entrou. Lá dentro, na sala, não diria que a plateia fluía e refluía num arraial de porrada, mas havia empurrões, gritos, choros e polícias de cassetete no ar.

Uns gentis jovens católicos tentavam acabar com a sessão e uns reformados cineclubistas de saudoso coração comunista ajudavam a polícia a caçar os putos de rebeldia fundamentalista: “É aquele. E apanhe aquele, senhor guarda!”. Os putos, com um olhar a faiscar de desdém, chamavam-lhes “seus pides”.

O que quero dizer é que esse mundo invertido era a natureza intrínseca da Cinemateca do João Bénard e do Luís de Pina, nos anos 80. A adolescência da Cinemateca foram esses anos heróicos que nimbavam, diga-se, o coração de cada um dos funcionários.

Havia um par amoroso, com o mesmo amor que unia Jack Lemmon e Walter Matthau nos filmes de Billy Wilder: eram o senhor Gil, motorista de raízes malandras e alfacinhas, e o senhor Alberto, suave príncipe majestoso de Cabinda, responsável pela manutenção. Formavam a cálida e langorosa simbiose luso-africana. “Ó senhor Alberto, estão três lâmpadas fundidas na sala de cinema!” O senhor Alberto olhava, lançava um fundo suspiro e sussurrava vogais e consoantes num arrasto lento: “Uiiii, issso agora…” Era impossível não amar o senhor Alberto.

O senhor Gil era vivo e ladino. Um dia, quase Natal – contou-me a Antónia, minha mulher –, o Gil conduzia o Bénard. Fez conversa falando da chuvada e da ventania que tinha feito essa noite. O Bénard tinha a cabeça, sei lá, na Anna Karina ou na Marilyn, e nada de troco, de modo que o senhor Gil se calou. Nesse silêncio pré-natalício o carro entra na praça de Londres e o Bénard, arregala os olhos de espanto: “Ó sô Gil, deve ter sido uma tempestade de Adamastor. Olhe para estas árvores caídas por todo o lado.” O Gil ia tendo um ataque: “Sôtor, sôtor, quais árvores caídas, isso são os pinheiros de Natal à venda…”

Saí da Cinemateca e levei comigo, para a SIC, o Chico Grave e, em part-time, o Cintra Ferreira. Com eles, eu, que nunca fumei, gostava de chupar uns havanos, os Partagas série D n.º 4, que eram então o supra-sumo. Eles olhavam-me com carinho e, vá lá, condescendência: “Eh pá, este gajo nem fumar sabe!”

Só uma vez tirei o Grave do sério. Ele queria ficar com um carro meu. Decidi vender-lhe o popó e fixei na minha cabeça um preço. Fomos almoçar – era sempre ao domingo. Ele fez uma oferta, 14 mil. “Vai-te lixar, Chico, nem penses”, cortei logo. “Lá estás tu, com a mania que és capitalista”, gritou a luta de classes que lhe morava no ventrículo esquerdo. “Ah, disse-lhe, não julgues que me assustas. 14 é que não!” “Ok, ok, quanto é que pedes?”. “Quero 10 mil”, disse-lhe eu. Ele ia morrendo de confusão, por detestar favores: pagou-me o almoço, está claro. Eram, o Grave e o Cintra, brutos, grandes, masculinos, duas peças de cristal. Adoravam filmes e livros. Quando foram de transumância para o céu, agarrei nas gordíssimas bibliotecas de cada um deles e doei-as (por ordem do Cintra e obedecendo aos herdeiros do Chico) à Biblioteca de Samora Correia. Estão lá, quase portas contíguas, o Grave e o Cintra, juntos na terra como agora no céu.

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Da tola à justa vaidade

Berlim, pois claro

Lá adiante, talvez fale de Helmut Schmidt, ou melhor de Balsemão, mas devo começar por mim, pela minha vaidade mais tola do que mansa. O Liceu Salvador Correia, em Luanda – o mais belo liceu do mundo, e vejam como a inflada ponta da vaidade já penetra a prosa –, tinha como professor de educação física o sôtor Ramalho.

Ora, o sôtor era dado a um certo “hoje, não estou pra isso!”, e em vez de nos levar para os belos campos de jogos ao ar livre do liceu, escolhia, às vezes, o remanso do ginásio para uma espécie de futsal, que inventara. Das caixas do plinto fazia as balizas e jogavam duas equipas de quatro, divididas em dois defesas e dois avançados, sem guarda-redes, sendo que nas áreas das balizas só podiam entrar os avançados de quem atacava e os defesas de quem defendia. O sôtor pôs-me a defesa e eu, ao atacarmos, coloquei-me em cima da área inimiga, a ganhar segundas bolas, como agora se diz, e a empurrar a bolinha sempre lá para dentro. Resultado, a bola quase não saía da área adversária, exponenciando (e vejam como o tempo verbal é mera gabarolice) as nossas oportunidades de golo. Eis que o profe Ramalho percebeu. Apitou e pára tudo! E explicou a toda a gente, por “a” mais “b”, o que os meus impertinentes onze anos estavam ali a fazer, nomeando-me estratega-mor do Portugal de aquém e além-mar. Aquilo podia ter-me dado cabo da vida: senti-me como Eusébio, no Parque dos Príncipes, em Paris, ao marcar três golos ao Santos de Pelé, com 40 mil franceses a gritar, Euzébiô, Euzébiô, Euzébiô.

Para falar, não da tola, mas da justa vaidade, chamo aqui o segundo golo de Eusébio, no 5 a 1 ao Real de Madrid, no Estádio da Luz, em 1965. E lembro, Simões põe a bola no pé de Eusébio, ainda antes da linha de meio-campo. Eusébio avança, num trote elegante. A defesa madrilena reagrupa-se e há três defesas que se chegam à frente. Eusébio deixa que o cerquem, e depois, com um domínio de bola shakespeariano, pé esquerdo e o pujante corpo todo, estilhaça o trágico triângulo opositor. Entra então na área, e quando um quarto defesa vem, de insidioso punhal macbethiano no pé, Eusébio dispara para o golo avassalador e colossal: da antiguidade grega, descera ao Estádio da Luz a mais esplêndida figura mitológica.

Vejam, Eusébio respirava glória, mais do que vaidade. Já Norman Mailer, o famoso escritor, era tão vaidoso, que tinha de purgar esse pecado mortal com a lixivia da autodepreciação.  Candidatou-se a mayor de Nova Iorque e o slogan dos seus cartazes era: “Votem no canalha!” Mas o que quero mesmo contar é a vaidade que tive da justa vaidade alheia. Tinha ido com Francisco Balsemão a Berlim, a uma das suas mil conferências. Também falei, um belo desastre, aliás, e fomos convidados para um jantar num Gambrinus da cidadezita que é Berlim. No fim, estava numa outra mesa, o Embaixador alemão nos EUA, uma estrela que tinha toda a sala em salamaleques. O nosso anfitrião quis conceder a Balsemão a honra de o apresentar à grande vedeta. Assim foi. O ascendente Embaixador alemão, mal chegámos à mesa, interrompeu a apresentação, e foi directo a Balsemão: “O senhor já não se lembra de mim, pois não?” Balsemão ficou meio encavacado (salvo seja) e a estrela da noite rematou: “Estive consigo, quando o senhor era primeiro-ministro de Portugal e se encontrou com Helmut Schmidt. Eu vinha atrás, era o que lhe levava a mala. Que grande momento, para mim.” Quando saímos, Balsemão respirou o ar fresco da noite e disse-me: “Às vezes, sabe bem afagarem-nos o ego.” Fora ele, afinal, a estrela da noite.

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Os meus livros de Julho, mês em que nasci

os meus livros de Julho
escaldantes e apresentados com linguagem de fazer corar

Ah, a cacimbada doçura das minhas adolescentes férias coloniais. Por uma bizarria salazarista, as férias escolares angolanas, do lado de lá do Equador, coincidiam com as de Portugal. No pico do Verão luandense, de Dezembro a Março, grelhávamos no belo liceu. De Junho a Setembro, época de cacimbo, tínhamos férias e, claro, não havia praia para ninguém. Líamos, líamos, líamos. Éramos nómadas e líamos.

Foi a pensar nessas leituras que criei, na Guerra e Paz, uma nova colecção: chama-se Na Praia… e mete toalha e areia. Começo com dois livros: Freud na Praia: A Psicanálise na Toalha e na Areia e Churchill na Praia: O Velho Leão na Toalha e na Areia. São biografias cálidas, belos retratos da vida, ideias e acção de Churchill e Freud: irrecalcadas leituras de prazer e desejo, em que não é preciso matar o pai. Uma promessa: em breve, também Napoleão e Darwin virão estender a toalha nesta areia.

Ofereço-vos ainda outra biografia, mais musical, menos estival. Escrita pelo Prémio Nobel da Literatura, Romain Rolland, A Vida de Beethoven é um clássico tenso e tonitruante, para se ler com a abertura da Quinta Sinfonia em fundo.

Deixem-me convocar outra vez a música, um adagio agora, para apresentar o último romance de Luís Carmelo. Chama-se O Planisfério e foi o último livro que o nosso autor escreveu, antes de partir, ainda tão novo, chamado pelos deuses. De uma prosa suave, de veludo, esta é a história de um protagonista que perde tarde a virgindade. Mas será só isso?

Estes são os livros que chegam às livrarias a 11 de Julho. Estivais? Bom, mas no dia 25 as livrarias entrarão em combustão. Com A Cona de Irène, primeiro. Sobre Irène, e sobre esse singelo atributo que dá título ao livro, escreveu, clandestino, o surrealista Louis Aragon. O livro foi proibido e proibido e proibido (três vezes! três vezes) e, não obstante, na nudez franca da sua linguagem emerge uma ternura ingénua, quase infantil: «Ó fenda, fenda húmida e doce, querido abismo vertiginoso…» Estremece-se? Ligeira e sentidamente.

Perseguido, esfaqueado numa ruela de Roma, foi o grande Pietro Aretino. Tinha escrito Os Sonetos Luxuriosos, um livro em que canta, num vernáculo desabrido, o amor e as atléticas e lascadas posições do amor: «Fodamos, meu amor, fodamos presto, / Pois foi para foder que se nasceu, / E se amas o caralho, a cona amo eu; / Sem isto, fora o mundo bem molesto.» Primeiro livro erótico ilustrado da Renascença, a proibição papal e mil perseguições não o destruíram: aqui está, na tradução de um grande poeta, o brasileiro José Paulo Paes.

Até coro: o fôlego erótico da Guerra e Paz está imparável. Uma narrativa contemporânea, O Monólogo da Faxineira, da autoria de um estreante tardio, o português Alcídio de Oliveira, mereceu à escritora Clara Pinto Correia este elogio: «… da primeira palavra até à última, uma cena de cama muito bem pensada.» E sim, este romance é a descrição incisiva – franca e cheia de ironia – da vida sexual de uma empregada brasileira. Um elogio da imigração? E se for a imigração a elogiar-nos a nós?

Outro romance português é o de Catarina Costa, vencedora, o ano passado, do Prémio Nacional de Literatura Lions de Portugal. É o seu segundo romance, E então, lembro-me, e é uma distopia. Entre reminiscências, uma mulher procura entender quem é. Sabe que está amnésica e castrada: sem memória nem ovários. Um grande arranque.

José Jorge Letria quis dizer O Que Faltava Contar. É um livro memorialista. A cada página episódios de vida, revelações de figuras como José Saramago ou Luiz Pacheco, Zeca Afonso, Ary dos Santos ou Ruy Belo. Era preciso que alguém contasse.

E fecha o mês de Julho um dos mais belos livros de filosofia, o mais legível e bem organizado, que conheço. Chama-se Guia de Filosofia para Pessoas Inteligentes. É de Roger Scruton. É mais do que um livro, é uma conversa connosco, uma conversa sobre «as preocupações mais amplas da civilização», sobre a música ou o sexo, sobre Deus, a liberdade, o demónio ou a História. É o pensamento em majestosa onda alta a varrer a praia e o Verão.

São os meus dez livros de Julho, o mês em que nasci.

Manuel S. Fonseca, o editor

Despe essas calcinhas

“Se o pénis dele não fosse tão maravilhoso, tê-lo-ia deixado há muito!” Foi o que escreveu Carole Mallory na biografia, “Loving Mailer”, que dedicou ao escritor, seu amante durante nove anos. Estou a falar de Norman Mailer, o autor de um tremendo livro de guerra, “Os Nus e os Mortos”, um dos grandes romances americanos do século XX.

Carole publicou as suas memórias de Mailer já três anos depois da morte do escritor, o que significa que podia ser sincera sem risco de vida, por estarem os temíveis punhos de Mailer em sossego e descanso no irrevogável caixão.

O livro saiu, aliás, no mesmo dia em que a última mulher de Mailer, Norris Church Mailer, publicou também outra acalorada biografia, “A Ticket to the Circus”, e numa coisa o sólido testemunho de Norris coincide com o de Carole. Referindo-se ao mesmo atributo de Mailer que Carole louvara, Norris chama-lhe, e peço desculpa pela sincera ternura do palavrão que ela usou, um “esplêndido caralho”.

A incomensurável vaidade de Norman Mailer deve ter explodido no seu caixão em sonoro fogo de artificio. Arthur Miller, o escritor que casou com Marilyn Monroe, e que viveu alguns anos no mesmo prédio de Mailer, lembra-se de Norman ainda ele um chavalo, acabadinho de sair da tropa. Norman veio ter com ele e apresentou-se como escritor. Disse a Arthur que vira e gostara da sua peça “All Our Sons” e que era também capaz de escrever uma peça igual. Arthur não conseguiu conter o riso, impressionado com a convicção e a prosápia daquele novato.

Alberto Moravia, o italiano autor de “Duas Mulheres”, conta que conheceu o megalómano Mailer, no lançamento da nave Apollo 11, que chegaria à Lua. Moravia e Mailer foram convidados a escrever sobre o tema. Lembra o italiano: “Ele escreveu um livro de 500 páginas, eu escrevi três crónicas.”

Se as duas biografias confirmam a pulsão para o excesso e a inadjectivável vaidade desse judeu que um dia José Cardoso Pires foi encontrar em Brooklyn, como numa longa noite de copos, no Festival de Cinema de Tróia, nos contou, ao lado do Fernando Lopes, do Dinis Machado, do Pedro Bandeira Freire, desse bando de Tróia, de que, agora, só estamos vivos a Antónia, o Setúbal, o Zé Navarro e eu, também é verdade que as duas biografias mostram um homem mais amoroso do que a sua propalada e lendária incapacidade de compreender e aprender com as mulheres.

Que Norman Mailer é o dessas biografias? Não parece ser o mesmo que na edição do 50.º aniversário do seu “Os Nus e os Mortos”, escreveu no prefácio: “Odeio tudo aquilo que não seja eu próprio.” Esse seria o Mailer da ficção pura. Na vida, conta Norris, a sua mulher, que foi ela que um dia lhe deu um indesmentível murro nos queixos no meio de uma viva discussão.

Se com a última amante e a última mulher só houve doçuras, os seis casamentos de Mailer e a mariana procissão das velas que poderia fazer-se com as suas aventuras de esfuziante adúltero praticante contam outra história. Esfaqueou uma das suas seis mulheres durante uma festa de alcoólico dilúvio, tendo de ser internado numa clínica psiquiátrica. Porém, Norris e Carole insistem: Mailer era quase um mentor, insistia mesmo para que elas escrevessem. E ambas são mulheres com vida e liberdade amorosa própria antes de conhecerem Mailer, Norris foi amante de Bill Clinton, Carole de De Niro, Warren Beatty e Clint Eastwood.

Sem desprimor, quem poderá ter memória tão comovente como a da primeira noite de Carole e Norman? Escreve Carole que ele lhe disse: “Despe essas lindas cuecas. Quero provar a tua alma!”

João Moita, Grande Prémio de Poesia

Escreve-te.

Molda
à martelada
a forma crua
do teu crânio,

remove
com a picareta
as nuvens
dos teus sonhos,

extrai
com o estilete
a necrose
dos sentimento
s,

sufoca
na garganta
o gorgolejo
do teu canto,

e, sobretudo,
não esperes nada
do que amas.

Começa assim, com este poema, o livro “Que Túmulo em que Talhão“. O autor é João Moita. O júri da Associação Portuguesa de Escritores leu-o e deu-lhe o Grande Prémio de Poesia Maria Amália Vaz de Carvalho, de 2023.

O poeta João Moita, de quem a Guerra e Paz é a editora, destaca-se pela sua contenção, pela forma quase cruel como privilegia a escassez. Toda a exuberância de parabéns e euforia, olhando para a sua poesia, seria descabida. Lê-lo em silêncio talvez seja o devido tributo.

Dois bigodes

São dois bigodes. Estão ali a fazer marcação à zona à bela Jane Russell. Um é o sorridente e sincero bigode do meu amigo Manel Cintra Ferreira que já voou atrás de Jane. O outro é o meu bigode circunspecto, porventura cheio de segundos sentidos.

Para os mais esquecidos, esta senhora, a que eu e o Cintra fazemos de ala dos namorados, é a mesma que está ali em baixo, de vermelho, a comemorar o 38 do glorioso SLB, com a Marilyn. Ou quem a sabe, já a dançar, sedutora, Rumo ao 39.

Paludismo americano

Quem diria ao miúdo que eu era nos anos 60, que um dia também estaria neste drive-in!

Ainda me lembro dos enxovalhados beijos na boca que então dava a Mao-Tsé Tung. Foi ali entre os meus 19 anos e os vinte e meio. Viera de Luanda estudar direito e o maoismo lisboeta de 1973 chamuscou-me – sim, houve um maoismo lisboeta de 73, pincelado a delirantes, esquizóides e disléxicos toques de Sorbonne, Paris VII. O maoismo lisboeta só não conseguiu estrangular o meu vocal e fidelíssimo pró-americanismo.

Vejam como essa serpente yankee nasceu no meu peito: o meu pai, tinha eu sete anos, sentou-me na motorizada NSU e levou-me a ver o consulado americano em Luanda. Acabara de ser apedrejado e os americanos acusados de apoiarem os “terroristas” que, em Março de 61, tinham posto o Norte daquela “Angola é nossa” em agonia. Vi as pedras na rua, o moderado rasto de destruição, e o impávido edifício do Consulado, tão bonito como a desaparecida casa-grande de Dona Ana Joaquina, aristocrata arquitectura luandense agora em extinção. Os meus sete anos apaixonaram-se por esse símbolo de América que ali, sem fugir, dizia verdades inconvenientes.

E tudo à minha volta, um ou outro Chevrolet, as carrinhas Ford, as jeans Wrangler e levi’s, os quedes (ou keds), que eu calçava, tudo era um hino que absolvia a América de culpas. O jovem Kennedy e a sua Jacqueline ajudavam. E depois, quando vi “Chove no Meu Coração”, meu primeiro filme de Coppola ainda antes de saber quem era Coppola, e quando vi “Easy Rider”, sem saber que um dia falaria com Dennis Hopper, os vírus do pró-americanismo ferraram-me uma desalmada febre que nunca mais me largou: o meu abençoado paludismo é filo-americano.

Eis o que então eu achava um caso de súbito analfabetismo da esquerda a que pertencia: o seu anti-americanismo. Aquilo atazanava-me tanto como o ciúme-agulha a esburacar o coração mouro de Othello: como podia a esquerda da liberdade e de um mundo melhor, deslargar-se da livre vida americana, da sua irreverência desengravatada, dos filmes, do rock ‘n rol (ó meu!) dos Doors e Hendrix aos Jefferson Airplane e à sua  Grace Slick, epítome da sexualização, dos gemidos nos drive-in, dos romances de Hemingway, Faulkner e Steinbeck, do pela estrada fora de Keroauc, dos inclementes uivos de Ginsberg, dos apolos a ir à Lua!?

Essa impressiva paisagem era – é que era! – o autêntico anti-salazarismo. Essa planturosa América, estética, inestética, charrada, a litros de Budweiser, com Henry Miller a vazar sexo e plexo na cama e fora da cama, era a garantia de um infarto ao coraçãozito santacombadense da nossa ditadura.

O impulso pol-potense do meu breve maoismo parou aí: eu nunca poderia viver sem essa América que já conhecia sem nunca lá ter ido. O frigorífico que os meus pais tinham na casa caluanda do musseque Sambizanga, era um General Electric, tão americano como Charlotte e Henry, os amantes de “As Palmeiras Bravas”, romance de Faulkner que nos incita ao amor do amor. Ao amor do amor incitava-me também o “Born To Be Wild” dos Steppenwolf, a voz que proclamava sonhos de Martin Luther King, a tragédia de Dallas com a cabeça estilhaçada de John no aflito regaço de Jackie, meu primeiro soluço por um político.

Hoje, que os radicalismos parecem sufocar esse maravilhoso pântano de vida, prolífico, indomável, não sei se ainda existe essa minha América, que tanto era a de John Wayne como a de James Dean, essa América que vinha dos anos 50 de “A Leste do Paraíso” ao começo dos anos 70 de “O Padrinho”. Vamos morrendo, lentos, na morte das paisagens em que se deitava, deleitado, o nosso imaginário.  

Publicado no Jornal de Negócios