
O Gil foi a enterrar no dia 19 de Dezembro. Escrevi este texto na manhã de sábado, dia 20. Mas quis, e o Expresso e o Miguel Cadete gentilmente aceitaram, que ele fosse publicado no jornal onde ao longo de alguns anos o Gil escreveu notáveis artigos literários. Ontem, o Expresso publicou-o. Hoje, deixo aqui aos meus amigos deste mural, esse texto de despedida. O Gil (e a Céu) é um pedaço muito grande da minha vida, da vida da Antónia, e da minha filha Rita. O Gil foi a enterrar. Um dos bocados mais ternos, mais desconcertante, mais genuíno da minha vida – e da Antónia – foi a enterrar com ele.
Gil de Carvalho: depressa e devagar
Foi agora, na tarde fria de Dezembro. Estava ali o Gil, deitado na urna, os fúnebres panejamentos alvos a combinarem com a sua tão bem aparada barba branca. Mão hesitante, afaguei-lhe a testa: um gelo antárctico onde em vida estava o fogo de um vulcão. E assim, dedos no crânio, nos despedimos.
Conhecemo-nos, em 1973, estertor da Velha Senhora à vista, na então tão bonita pastelaria São Carlos, na Rua da Beneficência. Ele 18, eu 19 anos. Foi amor à primeira vista. Eu viera de Angola estudar Direito e não parámos de falar. Eu a exorcizar o medo de Lisboa com gritadas saudades da Mutamba e da Ilha, ele a locupletar-se com esses frutos dos trópicos que eu tirava do avental, reinventando um imaginário, que a breve passagem por Luanda, com o pai em missão militar, mal lhe autorizava.
Vivíamos, nesse Verão de 1973, em silenciosos quartos alugados que só o estardalhaço de algum comboio na estação do Rego se permitia romper. Uma semana depois, com o João Carlos, filho da professora de Canto Coral do meu liceu de Luanda, alugávamos um apartamento na Padre Francisco Álvares, ao lado do Jardim Zoológico. Conquistámos assim a liberdade, o direito à boémia, o estriduloso desregulamento da ordem do dia e da noite. Estou pronto a jurar que o cheiro dos animais do Zoo nos chegava pela madrugada, talvez fosse o intenso aroma dos dejectos dos elefantes, e vínhamos à varanda gritar, «Cagaram no Mundo», como quem gritava uma palavra de ordem.
O Gil era já, e era só o que queria ser, um poeta. Mas à mitologia de escassez e reclusão da que viria a ser a fase final da sua vida, da sua vida de Gil de Carvalho, é de justiça pôr em paralelo uma outra mitologia, a que eu nunca deixarei de amar, a do Gil pletórico, guloso de vida, excessivo, por vezes truculento, a vida de Gil Abrunhosa.

Circulávamos em bando nas finíssimas horas da madrugada, a Guida, a Vanda, o Tomã, também connosco. Entre a fumarada de morte do tabaco e a límpida ressurreição de uma aguardente cê-érre-éfe, tão depressa batíamos manilhas e asas, avançando para a destrunfa, que «este filho da puta há-de pagar-mas», como «por las 6 en punto de la tarde», se não se importam com a parvoíce da paráfrase (o que adorávamos parvoíces e paráfrases), o Gil avançava, e eu de arrasto, para as manifs contra o regime, na Praça do Chile, no Rossio, na Praça da Figueira, no Largo do Rato, até mesmo na António Maria Cardoso. Éramos só os dois, nos fins de tarde de Lisboa, entre vultos evasivos, a polícia de choque a estimular em nós os dotes de corrida de uma gazela de Catete, mas era como se, só os dois, estivéssemos, heróicos, a refundar a ordem do mundo. Éramos capazes de matar por um número da revista «Tel Quel», gritávamos de madrugada contra o fascismo versos dos «Cantos» do talvez fascista Ezra Pond.
Foi assim, nesse ano de 1973, até Março de 1974, em que vivemos juntos na Padre Francisco Álvares. Assim seria, depois, a partir de 1977, quando regressei da independência de Angola.
Alugámos uma casa, um esconso, num 5.º andar da Cidade de Liverpool, aos Anjos. Éramos três casais, o Gil e a Céu, eu e a Antónia, o Da Guia e a Catarina. Abreviando, não tínhamos um tusto e tivemos de disputar essa casa aos ratos que vinham das roídas paredes de tabique. Vencemos. Na maior parte da casa só se podia andar de gatas, tão rasteiro era o esconso. Metáfora feliz, o Gil chamou-lhe «o pombal dos Anjos». Só havia uma casa de banho e era preciso, por alma de todos santos, Emmanuel Lévinas incluído, evitar que o Gil, de manhã, fosse o primeiro a lá entrar com um livro na mão.
Por duas das janelas ia-se para o telhado e sentávamo-nos à noite, gatos vadios a ver as luzes de Lisboa. Nos dias de canícula, regávamos as alcantiladas telhas à mangueira para cortar o que lá dentro era um irrespirável calor equatorial. E o que quero dizer é que «o pombal dos Anjos» era uma vergonhosa mancha de felicidade e de permanente e epifânica alegria, com música, gritos, festa, futebol, saltos e pedaços de tecto a caírem sobre as camas dos vizinhos de baixo.
Essa ruidosa alegria e espalhafato extravasava o «pombal». Em plena Almirante Reis, a meio de uma tarde, numa rocambolesca discussão sobre guerra ultramarina, para vergonha da Céu e da Antónia, o Gil e eu abrimos as camisas e lançámo-nos ao chão, rastejando à comando pelo alcatrão, aos gritos de «até à Portugália, até à Portugália».
Já a minha filha tinha nascido, cada casal com casa própria, deu-nos, ao Gil e a mim, um bizarro sopro de saudade: «Há quanto tempo não nos metemos no cacilheiro até à outra banda? Vamos mostrar à Rita o cacilheiro, o rio, a neblina de Outono.» Fomos. A Rita, os cinco anos a darem-lhe um imparável balanço às pernas, ia pontapeando o passageiro à nossa frente, um «velho» que se deslargou em resmungos e impropérios. O Gil, que adorava a Rita, afrontou-o, «Queres ver que este tem de ir borda fora?», fazendo desandar o cavalheiro e dando total liberdade ao trote nervoso das perninhas da minha filha.
Em Lagos, em Salema e em Altura partilhámos as casas de férias, com discussões homéricas sobre a organização dos dias, almoços e jantares, e sobre as limpezas – «estes riscos no chão não são meus. Só limpo até aqui!» – ou sobre política (nós, os deserdados do maoísmo) ou sobre as falésias de Ernst Jünger ou sobre René Girard, que tanto nos iluminou sobre as coisas escondidas desde a fundação do mundo.
Puxávamos de pistolas quando tínhamos de discutir romances e filmes ou o autêntico sentido do termo «clinamen», eu sempre a lembrar-me da navalha ponto e mola com que, aos 18 anos, o Gil saía certas noites, sei lá se para clandestinos encontros políticos ou amorosos. E se, nesse distante Neanderthal de 1973, éramos simpatizantes do «Ousar Lutar, Ousar Vencer», o que mais nos uniu sempre foi a rejeição à visão do mundo e dos costumes do partido do camarada Barreirinhas.
Se evoquei tudo isto não foi para opor este lado da vida do Gil à imagem a que, por certo e por ser da ordem escolar de alguns círculos e seitas, lhe quererão enfeudar a obra de mais de uma dezena de livros de poemas, contos ou relatos, alguns tão breves como fulgurantes ensaios.
A poesia de Gil de Carvalho, que começou por assinar Gil Abrunhosa numa plaquete colectiva, «Asterisco», passando a Gil Nozes de Carvalho em «Alba» e «Aboiz», só depois se fixando em Gil de Carvalho, a poesia dele, dizia eu, é uma soberba intelectualização dos «materiais da vida»: há Poço do Borratém e Almirante Reis a desaguarem no sofisticadíssimo léxico do poeta. Há versos de raparigas «ao ataque», «joviais putinhas», e garanto que as ervas dispersas que roem o passeio de um largo meio deserto, em «A Cidade de Cobre», pisou-as o Gil em Xabregas. Vulvas e dedos, esperma e «coitus cantabile», gritos e estrangulamentos, nomes que atravessam os seus poemas, são traços fumegantes de uma vida vivida.
Não me «delicadizem», por favor, a poesia do Gil. A sua sensibilidade alimenta-se também da esplêndida crueldade animal. Muita da reclusão do Gil deve-se à forma tão especial como se roçava pela natureza, sem temer o sangue, o mênstruo, as garras ferozes e a caça, o focinho e o «cu do bicho».
Aos 18 e 19 anos, nada faria calar em nós o espanto e o fascínio pelas exclamativas «l’élégance, la science, la violence» de Rimbaud, como nada sufocaria o «riverurn», nosso riocorrente, que eram as juvenis laudas que dedicávamos ao «cunnilingus» e ao decantado botão-de-rosa, «portmanteaux» do nosso imaginário antifascista, esse sim, se o fascismo era o cinzento imaginário sexual que então oficialmente vigorava. Desse fetichista pedaço das nossas vidas é memória um verso iconoclasta de «Tarantela & Viagens»: «Na tua posição sexual favorita. Lambida por trás e / Fodida na raia pela frente.» Ou ainda: «Acende a prece / nas palhetas da vulva sobre o ânus.».
Sim, fecho os olhos e volto a ver a boca gulosa do Gil a devorar a vida, excessivo, esfomeado, num período deslumbrado com a marginalidade, das putas ao chuleco, do lustroso vígaro ao pequeno delinquente, um ano depois transferindo essa devoção obsessiva para o estudo dos coleópteros. E depois para a China e depois para o judaísmo.
Excessivo no amor, excessivo nos ódios, que nele eram também ódios obsessivos: aos carros em cima do passeio, aos políticos, esses frankensteins, à americanização, aos costumes em mudança, recusando aprender a manejar um computador, recusando o telemóvel que eu lhe dei quando trabalhou nas minhas editoras, a Três Sinais, de que o Da Guia e eu o fizemos sócio, e a Guerra e Paz, mas de que é exemplo de altar, e não tecnológico, a desolação face à púbis rapada, que também aflora e se exibe nos seus poemas.
Este de que vos falei não é, esclareço, «o meu Gil», este era o Gil. E sem se chamar esse Gil à pedra, mal se compreenderá como a sensibilidade e subtileza, quase intimista, dos seus poemas é abalroada por súbitas explosões de imaginação e espontâneas inovações e invenções lexicais.
De onde vêm as elipses, as rupturas e as intermitências que travam o que, às vezes, nos seus poemas e nos seus contos-relatos parece ser um desejo de discursividade, quase uma promessa de narrativa? O que afoga a tentação da linearidade, de que ele tinha o domínio, é a onda violenta, o maremoto que era a vida dentro do Gil. A expressão desse vulcão, o Gil só pôde fazê-la fluir literariamente pela mais elevada ironia, uma ironia que o sarcasmo vem uma ou outra vez lamber com um trágico desencanto, nunca o Gil prescindindo de um princípio que foi a sua fé: a soberania do acto poético.
Fogoso, pletórico, guloso da alegria e da vitalidade na sua própria vida, a poesia de Gil de Carvalho exige vagar, muito e tão devagar. E exige despojamento espiritual.
Não sou eu que o recomendo. Foi o Gil que deixou o aviso nestes versos, em que adivinho um distante eco de Dylan Thomas: «… recomendou / aos inimigos que não fossem / com dedos frios abrir / a rápida porta, / na noite.» Leiam-no e aqueçam nele os vossos dedos. Devagar.
