Todo o fim de ano, todo o novo ano se fazem de mudança

Que interessa o fim e o começo se o Novo Ano não for ano de mudança? E o que é a mudança se não mudarmos por dentro, se não mudarmos nós próprios? Temos, porém, horror à mudança. Medo, muito. É sobre a mudança e o medo dela que esta crónica me fala. A todos, um excelente 2026 e até para o ano.

«O povo já está a ficar…» E interrompo o que o Dr. Jerónimo Elavoko Wanga, ilustre militante da UNITA, ministro do governo de transição de Angola, em 1975, me vai já dizer, para antes confessar que nunca mais me esqueci, e cada vez mais me lembro, da frase lapidar com que então, a poucos meses da independência da terra amada que não me viu nascer, ele me escandalizou.

Depressa veremos o que é que «o povo já está a ficar», mas preciso que me dêem a mão e viajem comigo. Venham. Eu era um rapaz de Luanda que desaguara revolucionariamente no Lobito: professor de literatura no liceu, fazia comícios, anunciava o homem novo e, em plena terra do galo negro, o sonoro símbolo kwacha de Jonas Savimbi, proclamava a primordial pureza do seu inimigo figadal, o movimento do retornado poeta de um verso profético: «às nossas casas, às nossas lavras, havemos de voltar.» Voltámos todos.

Seja como for, no Lobito, Savimbi hospedava-se do outro lado da rua onde eu morava: se eu saltasse, do meu 5.º andar, cair-lhe-ia ao colo, e, eis o problema que estávamos com ele, eu andava a fazer uma insustentável algazarra e a arrastar a juventude.

E o que o Dr. Wanga, que os meus olhos então viram com o ar eriçado de uma hiena e agora vêem como um bom homem… repito, o que Jerónimo Wanga me disse foi: «O povo já está a ficar fodido convosco.»

Eu era um revolucionário rutilante: em boa verdade, só eu, sozinho, era uma flotilha a navegar mediterrâneos de utopia. Do alto da colossal e resplandecente sabedoria dos meus 21 anos proclamava o poder popular, a violência revolucionária, um mundo de que se varreria a abjecção da desigualdade, o ópio alienante de todo o passado canalha. Ai ué Nzambi, o futuro do vento leste, esse limpo e lavado sopro proletário-camponês, esse mundo de cantado amanhã, perfeito e imóvel para sempre, forever e forever de nunca acabar… eis o que o pesado coração e a leve cabeça me instigavam a proclamar.

Estou para aqui a deixar a minha crónica falar, mas não é bem isso que quero que ela diga. Vou corrigi-la. Nesses dias e tantos meses de 1975 (quantos foram?), uma faca trazia-me retalhada a alma. Da boca para fora, saíam-me as grandes parangonas revolucionárias, mas no tumular silêncio do meu coração recolhiam-se, protegidos e clandestinos, canções e poemas, filmes e livros. Disfarçado, metia-me por nocturníssimas vielas, para deixar tocar dentro de mim os adolescentes Beatles; o Keith Jarrett em Köln; um fado de «coração por aí por onde vais» até; uma carta da remota Pinhel com as tão deliciosas reaccionárias saudades de mãe, pai e irmã; o desperdício de versos burgueses de colher na boca e amor em visita.

Se era essa a metade da alma que eu queria, o que fazia, então, de mim o refém dos sórdidos túneis da revolução, que tentava enfiar pela garganta sem espinhas do povo? Que flotilha de presunção, sem água benta, me fazia esconder o intrincado e complexo mundo de milhões de pensamentos, afectos, dilemas, intenções e dúvidas – que eu sabia existirem! – agarrando-me a uma cartilha tão tansa como astuciosa?

Vaidade e medo, diria hoje, eis os ingredientes do mais feroz revolucionário. A vaidade de ser único, de ser guia e «educador», de arrastar um cortejo de condenados. E o que, quando se apercebe da armadilha, faz o revolucionário persistir é o medo de ser excluído por tantos companheiros, camaradas, amigos, palhaços.

Aos que têm medo de deixar cantar as dúvidas, os poemas, o tão antigo e sábio passado, o raio dessas coisas a que chamamos conforto, carinho e saudade, talvez não seja mau que ouçam a frase imortal que o ministro Wanga disse, em Luanda, terra amada em que já não irei morrer.

Um museu de lágrimas (para Mário Jorge Torres)

Soube agora da morte de Mário Jorge Torres, professor universitário e perdidamente cinéfilo. Estes têm sido dias de perda e luto. Ficam memórias e este texto que escrevi a pedido para um livro de merecida homenagem.

A um educativo ménage à trois:
ao Prof. Mário Jorge Torres,
ao Prof. Manuel Cintra Ferreira,
ao Prof. João Bénard da Costa.

É que não encontrarão em mim nem um pingo de anti-americanismo. Dessa moderna doença europeia lavaram-me a alma as épicas chuvadas tropicais, deixando-me de mente cândida, coração pioneiro e peregrino. Eu conheci a América, em Luanda, no esplêndido design dos Chevrolets, os Bel Air e o Impala, e da Plymouth Station Wagon do meu professor primário que nos despachava porta a porta depois da escola. Eu conheci a América, sempre em Luanda, na escavacada rua e apedrejado consulado yankee, em 1961, pelo putativo apoio aos putativos terroristas da UPA. Levou-me o meu pai, de motorizada, aos sete anos, a ver esse vingativo torvelinho colonial acendendo em mim o surdo e pequenino fogo que só verdadeiramente compreendi quando, tantos anos mais tarde, noutra África, a África de Casablanca, ouvi Ricky, a quem também chamam Humphrey Bogart, dizer a Ilsa, que eu sei ser a sueca Ingrid Bergman: «I’m no good at being noble, but it doesn’t take much to see that the problems of three little people don’t amount to a hill of beans in this crazy world.»

A sala das metamorfoses

E dizendo meia-verdade e só a verdade ainda não disse toda a verdade. Se conheci a América no tamanho e beleza dos intermináveis carros e se a conheci na acirrada defesa de três zé ninguéns que para o nosso mundo louco não valem um pataco ou um tostão furado ou a seca casca de um caracol, conheci-a sobretudo na tumultuosa sala das metamorfoses. Eram esplanadas abertas sobre a redonda doçura de uma baía, eram salas violentamente brancas e tinham o condão, como a larva em borboleta, de se transformar, por obra e graça de uma súbita escuridão, num inocente e terrível animal nocturno.  Eis como, mais do que em nenhum outro lado, conheci a América: entrou-me pela porta da alma, projectada em luz e sombras nessa cósmica parede de cal viva que a alma tem do seu lado direito.

Comi filmes com a mesma sincera alegria com que os dentes do menino pobre afiambram a muito amarela e brilhante fatia de pão-de-ló. Ah, a doçura intransponível desses dias já mais adolescentes do que infantis!  Eis o meu chuto: nessas salas namorei com Natalie Wood e Elizabeth Taylor – entreguei-lhes, à mão, a minha virgindade. E se não digo Marilyn, foi por não a ter então encontrado, e por não ter eu vocação de Manuela de Freitas, incapaz por isso de ser a personagem que ela tão bem vestiu em O Passado e o Presente, no qual, por perversão do senhor Manoel de Oliveira, a Manuela só amava maridos mortos. Marilyn Monroe já estava morta, mas à minha adolescência ainda não tinha sido dada licença para visitas ao purgatório: era lá que ela recebia as visitas de Di Maggio, Arthur Miller e JFK, esse pequeno e tenebroso rosário de maridos e amantes.

Páro um instante e, deste futuro em que vivo e então não imaginava, num instante volto a esse passado tão tenro. Desfazia-me, lembro-me, nessa sala das metamorfoses. De tão maleável e elástico como o mapa que num célebre conto de Jorge Luis Borges se transforma no território, eu era, à escala de um para um, igualzinho ao James Dean de Rebel Without a Cause, ao Paul Newman de The Hustler. E já era, desde os seis anos, o cowboy. Comecei a montar cedo, colt à ilharga: conheci o cowboy pela mão dos meus padres capuchinhos italianos, no incipiente cinema da Missão de São Domingos, que eles ofereciam ao musseque de Luanda. Conheci o cowboy mas não a cabeça de cowboy de que quero falar, a cabeça do John Wayne de The Searchers. Nessa cabeça estala o zumbido infrene de todos os tumultos que nos submergem a alma numa noite de insónias. Apagam-se as luzes da sala, a larva começa a transformar-se em borboleta, e o realizador John Ford dá-nos a ouvir a partitura de Max Steiner. Mas não é a música de Max Steiner que os ouvidos do cavaleiro John Wayne escutam. Nós ouvimos essa música, mas que sons e gritos munchianos espremem o crânio duro, obcecado e inconfessável de John Wayne?

Expulsar a infância

Cheguei onde queria e tinha-me prometido já não sair daqui, mas não resisto a voltar um passo leninista atrás, a uma catolicíssima confissão, tão sincera e simples como as que fiz aos meus padres capuchinhos italianos: posso ter pecado por pensamentos, palavras e obras, por silêncios e omissões, mas todos os ardentes entusiasmos físicos, todos os velozes e repentinos risos, todas as soluçadas lágrimas da minha sala das metamorfoses foram realíssimos, tintados a autenticidade, emoção em estado selvagem. As mulheres persas, quando os maridos estavam ausentes na guerra, guardavam as lágrimas de saudade e inquietação em delicadíssimas garrafas de vidro colorido e translúcido, de longo gargalo e boca a abrir-se em sofrida corola. Essas garrafas, as ashkdan, são hoje peças de museu. Eu trago guardado comigo o meu museu de ashkdan. Juntam risos e lágrimas, medo e exaltação, compaixão e desejo. É neste sacrário de infância, em filmes colhido, que a minha vida adulta ritualmente comunga.

Essa é a novidade da vida adulta: expulsar a infância. Eu deveria, lisamente, ter perdido na vida adulta esse amor infantil ao cinema americano. Há uma sofisticação grã-fina, ideológica, estética, cínica, que destrata o cinema americano. A mesma sofisticação que fez escritores e pensadores europeus do século XX fazer a vénia ao pai dos povos, cujo lamentável bigode aqui evoco, enquanto desdenhavam as terríveis iniquidades capitalistas americanas. E é neste ponto, e se outras razões não houvesse, que eu aqui me encontro com o Prof. Mário Jorge Torres. Fazemos parte de uma geração que teve a felicidade de transitar de um cinema americano bom selvagem da infância para uma visão interpretativa, compaginável com a transmissão do mais universal da cultura filosófica, literária e artística ocidentais, que não só não menorizou essa imagem idílica do cinema americano como lhe emprestou facetas inesperadas, que roçam o sublime, a provocação, a bela perversidade, por vezes o delírio.

Esse milagre, não duvidando que Jesus Cristo tenha caminhado sobre as águas, não o devemos ao Filho do Homem, mas sim ao bando felizmente terrorista que escreveu os Cahiers du Cinéma de capa amarela e que faria depois, com glória desigual, os filmes da Nouvelle Vague.

E há um dia, já em Lisboa, já adulto, já de Filosofia feita na Universidade Clássica de Lisboa, que simboliza na minha vida essa branda confluência das águas da infância e da vida adulta, o dia da exibição de The Searchers, no ciclo de cinema americano dos anos 50, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. Éramos mais de mil e duzentos seres humanos, vestidos com as nossas infâncias e vidas adultas. Houve quem as tivesse de sentar no chão, que não chegavam as cadeiras para tanta infância e idade madura. E eu sei que nessa sala estavam o João Bénard da Costa, que foi ao palco, e estava o Manuel Cintra Ferreira, os dois estudiosos de cinema, historiadores informais, se assim os quisermos chamar: e com eles tanto trabalhei e tanto me identifico. E estava, tenho a certeza, o Prof. Mário Jorge Torres, fidelíssima presença nesses ciclos.

Gostando, venerando, fazendo desse filme uma religião, ou levantando-lhe objecções, numa coisa comungámos: naquela prodigiosa sala de metamorfoses, aquele animal que vinha do escuro, a polifémica figura de John Wayne, os cavalos, a intolerável paisagem de Monument Valley, os atormentados índios, eram muito mais do que um entretenimento. O rio de solidão, crueldade, ódio e raivosa vingança que ali corria tinha uma auréola de tragédia grega, há quem diga de Odisseia.

Os amarelíssimos franceses

Quem nos ofereceu as ferramentas, o bisturi, para assim, em carne viva, o dissecarmos foi essa geração francesa, amarelíssima, dos Cahiers du Cinéma. Ajudaram-nos a prolongar a emoção de infância, conferindo-lhe novos prazeres. Em Portugal, na minha geração (ou nas gerações que com a minha fazem tangente), Mário Jorge Torres junta-se a João Bénard da Costa e a Manuel Cintra Ferreira, nessa forma de ver, pensar e transmitir o cinema.

É este o filme americano, quase um modesto western, que junta tudo o que de arrebatadoramente sublime espero da arte. Há uma porta que se abre, abrindo The Searchers, e vemos aproximar-se a solidão cansada de John Wayne. Depois numa sequência breve, em poucos planos, desenha-se em surdina um antigo amor inconfessável e proibido. E agora John Wayne voltou a casa e levanta no ar a nova sobrinha que ainda não conhecera. Essa breve alegria logo se apaga com o irreparável e irrevogável ataque dos índios e massacre da família. O que se segue, e os siderados olhos de mil e duzentos seres humanos seguiram no Grande Auditório da Gulbenkian, é uma peregrinação ad loca infecta em busca dessa sobrinha que uma cena atrás Wayne levantara aos céus e é agora a única sobrevivente, raptada pelos índios. É uma busca comandada pela raiva e pelo desejo de vingança. John Wayne leva às costas um alforge de ódio e de preconceito. Quer encontrar Debbie, a sobrinha, para a matar, poupando-a, quer ao opróbrio da vida com os índios, quer à vergonha que seria voltar a trazê-la para o meio dos brancos, depois da perda da inocência com os selvagens.

O cinema americano pode ser um cinema de inocência, mas poucas vezes o cinema filmou um olhar tão carregado de maldade, como o dos olhos maus e impiedosos de John Wayne. E é a maldade desses olhos que nos leva, em estado de hiperventilação, para a cena de redenção. Wayne não mata a sobrinha. Agarra-a e ergue-a em peso, já ela é uma jovem mulher, a Natalie Wood com que namorei na minha adolescência. Como na cena inicial, em que a conheceu, levanta-a aos céus, para depois a segurar contra o peito. Esse gesto resgata-nos de todo o preconceito, de toda a amargura e ressentimento. Quando a voz descrente e grave do John Wayne solta um manso, «let’s go home, Debbie«, por mais desgraçada que seja a caverna onde estamos, por mais desértica que, como as montanhas de Monument Valley, seja a paisagem onde somos peregrinos, desiludidos e vencidos, todos acreditamos que também nós voltaremos um dia a casa, aos braços de quem nos ame e proteja.

Princípio e fim

Todos menos John Wayne. A porta que, abrindo-se, abriu o filme em luz e para a luz, como o útero materno de que saímos, fecha-se em escuridão, como na hora da nossa morte, ámen. Toda a família se recolheu. Cá fora, ficou ele, John Wayne, agarrado ao seu próprio cotovelo. A porta fechada empurra-o, sem delicadeza, para um imóvel oceano de solidão. Ethan Edwards, a personagem de John Wayne, está desamparado e só: a solidão do começo é a solidão do fim.

Por onde vagueará hoje, Ethan Edwards? Acontece-me fechar os olhos, às vezes, e voltar à sala de metamorfose que a Gulbenkian foi nesse dia em que mil e duzentos vimos The Searchers. E sonho então que, como da lua cai um leão, em O Fazedor, texto do cego Borges, do céu a que levantou a minha Natalie Wood, ou da lua que só pés americanos já pisaram, cai Ethan Edwards, John Wayne, cavalo e cavaleiro, mamíferos e inteiros.

Assim seja, Mário Jorge Torres.

Morreu a BB. É impossível…

Morrem-me os amigos, morrem-me também os mitos. Um dos mais puros era o de Brigitte Bardot. Não sei como cantá-la, logo a ela que cantou (bem antes de Jane Birkini) o «Je t’aime moi non plus», que Serge Gainsbourg compôs para o corpo e para a voz dela.

Não sei chorar um mito, muito menos o mito da BB. Despeço-me dela com duas crónicas. Leiam uma, à vossa escolha.

Crónica 1, E Deus Criou a Mulher

O pé descalço emociona sempre. Nada é mais pobre do que o sumário pé descalço. Minto. O pé descalço, na sua prístina nudez, também nos atira aos olhos com a sumptuária excentricidade do milionário, o exotismo de uma Cleópatra.

Na praia deserta, fascina-nos o mistério das marcas que outros pés deixaram na mesma areia que envergonhadamente pisamos. Esses «vestigia pedis» abrem-se à nossa inquieta imaginação: evitamos apagar os traços que tanto podem insinuar a mais extrema liberdade como a caminhada de um suicida.

O pé descalço emociona. Os pés descalços de Brigitte Bardot exigem uma emoção ajoelhada. Ajoelho-me eu e ajoelha-se Wim Wenders. Numa entrevista que lhe fiz no século passado, disse-me ter vivido a adolescência convencido de que a Bardot, de só a ter visto em filmes dobrados, falava alemão. Bardot caminhava, dançava de pés descalços, e falava com a mesma língua abstracta, duramente metafísica que Hegel entregou a Merkel.

Deixem-me dizer o que quero: falasse francês, alemão ou espanhol, o pluralíssimo europeu tinha então a mesma devoção: os pés descalços de Brigitte Bardot. Arrisco: os pés da Bardot eram mais europeus do que a cabeça de Jean Monnet. Os pés nus da BB corriam por Saint Tropez e inventavam a Europa, davam-lhe asas irreverentes, pedalavam uma veloz bicicleta. Com um erotismo europeu (havia, garanto, um erotismo europeu!) dançavam um mambo em cima da mesa de um caveau. Os pés nus de Bardot eram bem-vindos mesmo na livraria onde trabalha. E noiva, Bardot foi a noiva descalça.

Lembram bem, ainda não disse que filme era. Era “Et Dieu Créa la Femme”, história da órfã de 18 anos que a ingrata associação de menoridade e mau comportamento, ameaça fazer voltar à clausura correcional. No começo do filme, apresentava-a o preguiçoso movimento de uns pés descalços. Adivinhamos que o corpo daqueles pés está atrás do lençol estendido a secar ao sol. Roger Vadim, o realizador, revela, depois, num contracampo brutal, tal e qual Deus a criara, a suave linha senoidal do corpo de Bardot que o espectador tem logo vontade de transformar numa linha dentada.

Bardot comporta-se mal porque recusa o futuro. Ouço em francês o que Wenders a ouviu dizer em alemão: “Oh, l’ avenir c’est ce qu’on a inventé de mieux pour cacher le présent.” A hedónica Bardot vive com um gato, um periquito e um coelho. O coelho tem nome: chama-se Sócrates. Não invento: é coelho e é Sócrates. Quando, com promessa de casamento, troca o presente pelo futuro, BB liberta os animais no campo. Descobre depressa ter ido ao engano. Ainda tenta recuperar os bichos. Grita pelo coelho chamado Sócrates. Em vão. Já corre, dois em um, do presente de Bardot para um país sem futuro.

Crónica 2, Já sou mulher?

Brigitte Bardot é a antítese – antítese marxista, mesmo – de Marilyn Monroe. O léxico de BB nem sequer incluía a palavra “sexo”; já o léxico de Marilyn não precisava de mais nenhuma.

Têm ambas as mais subtis e maravilhosas curvas. Mas há uma cruel luta de classes a separar a lábil e citrina geometria de cada uma delas. Bardot casou virgem, com o enfant terrible Roger Vadim. Era pelo menos o que pensavam os selectos pais dela. A forma como Bardot casou virgem sem ser já virgem é que faz toda a diferença entre o mundo dela e o de Marilyn.

Os pais tinham autorizado o namoro de BB e Vadim. Namoro à vista. Para dialécticos saltos qualitativos, encontravam-se às escondidas. No primeiro encontro BB perguntou ao amado: “E agora, já sou mulher?” Ele foi sincero: “Já és 25%.” Ao segundo encontro, a mesma pergunta e Vadim, ofegante, terá dito: “Já és 75%.” Ao terceiro encontro, ele disse-lhe o que ela já não precisava que ele dissesse e Brigitte, abrindo as portadas da varanda de um recluso quartinho, gritou para uma estreita rua de Saint-Germain-des-Prés: “Já sou mulher.” Os aplausos do bairro fizeram-na perceber que estava deliciosamente nua.

Bardot era uma nua menina de liceu, desses franceses anos cinquenta em que o amor se começava a conjugar transitiva e intransitivamente com o sexo. Era inocente e, pasme-se, guardou sempre a inocência. Fala-se muito do pecado católico, europeu, mas há muito mais pecado e ínvios sentidos no mundo WASP que deseja Marilyn, e nesse desejo a tortura, do que no mundo de primeira comunhão e crisma de BB.

Vadim casou com Brigitte. Filmou-a em “Et Dieu Créa La Femme” venusiana, amoral. Deus criou a mulher, Vadim criou o mito. E estava Vadim com o mito em Roma, num hotel, quando uma suíça de indescritível orografia, que namorava um actor amigo, veio ter com eles, a chorar, amorosamente insolvente e sofrida. Trouxeram-na para o quarto deles e, havendo só uma cama, dormiram juntos. Todos juntos e fé em Deus, porque a inocência de BB não admitia cá «bouquets». Vadim, nas memórias, conta que estava sentado num cadeirão e elas as duas ingenuamente nuas na cama. Olhava, siderado com os claros-escuros delas, como siderado se fica a contemplar uma Madonna de Bellini. A inenarrável suíça era Ursula Andress. Tudo o que fizeram foi rir-se e conversar muito.

O Gil

Morreu ontem Gil de Carvalho. Morreu ontem um poeta. Gil de Carvalho foi um dos fundadores da Três Sinais Editores, a casa editora da qual nasceria, depois, a Guerra e Paz, de cuja equipa inicial Gil de Carvalho fez também parte.

Mas foi a escrita, a poesia (o «coitus cantabile» da sua poesia, de «Alba» e «Aboiz» a «8») , algum ensaio («A Dama Luminosa»), os relatos, de língua a passear entre os lábios, de «A Cidade de Cobre», a sua paixão pela poesia chinesa, as suas deambulações pelos poemas anónimos mongóis, turcos e outros incertos, que marcou e encheu uma vida vivida neste mundo à margem deste mundo.

Ia dizer que nos despedíamos agora, mas a ideia de alguém se despedir de Gil de Carvalho é uma ideia bizarra e ilusória. Há um eco de Gil de Carvalho, da sua linguagem simultaneamente escassa e deslumbrante, que sempre permanecia a preencher a sua ausência. Gil Abrunhosa, Gil Nozes de Carvalho, Gil de Carvalho, de que Gil afinal nos despediríamos?

Talvez amanhã eu consiga alinhavar os estilhaços estereofónicos que, agora, esta ideia da «morte do Gil», meu amigo desde os 18 anos, me faz passar, como um rio turvo, entre a memória e o esquecimento.

Morreu Gil de Carvalho. morreu um grande poeta português, um daqueles raros poetas que vai ser maior e mais presente à medida que os anos passem.

Manuel S. Fonseca, editor

O sex-appeal de uma desvairada fortuna

Talvez o homem seja o mais desacompanhado de todos os animais. Mas subo já a parada: não houve, na história da humanidade, homem mais desacompanhado do que o ultratrilionário Howard Hughes.

Tinha eu 15 anos, deambulava a minha dengosa pobreza remediada pelas ruas da cidade de Luanda, e lembro-me do meu preclaro mentor e barbeiro Mário Prazeres me contar a história de outro barbeiro, de uma vilória alentejana, «lá em Portugal», que não só a si mesmo se desacompanhava, como desacompanhava a própria mulher. Tinha pelo sexo menos interesse do que qualquer um de nós por avencas incandescentes.

Era o que a mulher, com a tristeza de um lenço verde a cobrir-lhe o cabelo, contava a quem lhe oferecesse um dedo de ouvido de atenção que fosse. «Mas – julgo que foi o meu amigo Mário a interpelá-la – a senhora tem dois filhos. Não me diga, senhora do lenço verde, que não são dele.» E ela num resignado arrebatamento: «São dele, são, menino Mário. Mas a canseira que eu tive para que ele mos fizesse!»

Howard Hughes não precisava de se cansar. Morreu-lhe cedo o pai e ainda não tinha 20 anos caiu-lhe nas mãos uma herança analfabeta. Veio para Hollywood com uma mulher tão nova como ele. Depressa se divorciou e deu-lhe para fazer duas coisas: aviões e filmes. Eram a sua paixão. A que se juntava uma febril necessidade de companhia feminina.

Eu peço aos leitores que olhem para o Howard dos anos 20. Era bonito, alto, porventura pouco articulado e tendencialmente silencioso, mas somava a tudo isso o sex-appeal de uma desvairada fortuna. Um rio de mulheres crepitava aos seus pés e a verdade é que se agarrasse num telefone às quatro da manhã – oh, bem bom – não havia uma actriz que não acorresse a amaciar-lhe a ineludível solidão.

Lana Turner, uma das mais fatais das «femmes fatales» de Hollywood, intérprete da mulher adúltera do primeiro «O carteiro toca sempre duas vezes», uma vida cheia com sete casamentos fora os concubinatos, foi uma das actrizes que lhe atendeu o telefone. Confessou que Howard «era um tipo de quem se gosta por ser agradável, mas não era especialmente estimulante». Julgo que a caligrafia de Lana se percebe com facilidade e ainda mais se a ouvirmos dizer que «Howard sussurrou-me que tinha preferência por sexo oral… e eu disse-lhe que não estava nada interessada e ele não pareceu incomodar-se».

Lana disse-o e essa peça botticelliana de menagerie feminina que foi a actriz Gene Tierney prova-o: Howard gostava de se apresentar em público com a mais loura refulgência de Hollywood, mas no fim da linha apreciava mais as mães do que as filhas que o acompanhavam. Queria era falar horas perdidas com a mãe de Lana e à mãe de Gene encheu-lhe 60 metros quadrados de uma sala com gardénias. «Cheira um bocadinho a morte», disse a velha senhora.

Foi Bette Davis que revelou o segredo de Howard, esforçando-se tanto como a mulher do lenço verde do modesto barbeiro alentejano. Bette era casada e o marido, músico, passava as noites a tocar num hotel nobre de Hollywood. Mas desconfiou e mandou pôr um micro no quarto onde Bette e Howard se encontravam. Ficou numa carrinha ao lado a ouvir e descobriu que Howard tinha um problema ejaculatório – poupo-vos a pormenores. Irrompeu pelo quarto adúltero e ameaçou Howard que o tentou esmurrar, mas falhou. Bette ululava contra o marido. Howard, aterrado com escândalo, pagou-lhe o que era então um Euromilhões de 75 mil dólares. Bette Davis, com a nobreza ríspida que era seu dom, devolveu, dólar a dólar, a miserável chantagem do marido e Howard mergulhou ainda mais na sua surda solidão.

Do manto de Gradiva ao colo da Guerra e Paz

Esta é a primeira vez que escrevo em nome da Gradiva. E, logo a seguir,
a newsletter natalícia da Guerra e Paz. Com ternura, para quem gosto e para quem admiro.

Do manto de Gradiva, cinco livros de Natal

Tenho a mão a tremer. É a primeira vez que escrevo aos leitores da Gradiva. Se se lembram de Fanny e Alexandre, de Ingmar Bergman – é um filme de Natal, ó se é!  – lembram-se, é claro, da cena em que o pequeno Alexandre visita uma loja de brinquedos, autómatos, objectos mágicos, uma autêntica gruta de Ali Babá, guiado pelo dono, o judeu Isak Jacobi, amigo da família. É uma cena de maravilhoso puro, de desmedido deslumbramento. Assim me sinto eu, pequeno Manuel, nesta loja mágica chamada Gradiva, criada pelo meu amigo Guilherme Valente. 

O Guilherme pede-me, exige-me, que eu escolha à vontade: «Leva e lê, este Natal.» Agarro logo essa intriga de cem anos, essa viagem e  ocultação de um poema que atravessa o romance de Ian McEwan, O Que Podemos Saber. Que força, que dom poético move cada um de nós, que somos afinal também personagens de McEwan, e nos permite sobreviver ao caos, à iminência da catástrofe, ao crime e à vingança, à doença e ao próprio amor? Leiam-no comigo, este Natal. 

E já o Guilherme me pede que procure outro dos seus objectos mágicos. Tropeço no Nome da Rosa, outro Nome da Rosa, aquele que ao nome de Umberto Eco junta o nome de Milo Manara, mestre do traço erótico. É uma das BD do Guilherme, dessas raridades que ele cultiva: imagino-o sentado com um Eco vindo do reino das sombras e com Manara, a pedir-lhes exuberância, riqueza criativa, mistério e desejo. Dessa matéria se faz este volume BD de O Nome da Rosa.

E sigo viagem com o meu amigo e mestre editor. Desembocamos no cosmos. Recebe-nos Stephen Hawking. Na mão, o seu A Teoria de Tudo: Origem e Destino do Universo. Como é possível que o pensamento humano seja tão claro, que alguém possa escrever argumentos tão luminosos e persuasivos, que fazem com que eu me sinta uma criança de cinco anos encantada? Talvez, afinal, o mundo da ciência seja o verdadeiro mundo do conto de fadas, com o seu universo em expansão, buracos negros e Big Bang.

«Manel – diz o Guilherme – este é para ti!» e dá-me As Lições dos Mestres, de George Steiner. E eu agradeço-lhe, intrigado com o que é o saber e como se transmite. Intrigado também com o rumor subterrâneo que liga, afinal, o saber e o poder. O que é ser um mentor? Mestres, aponta Steiner, foram Sócrates e Jesus, Confúcio, Dante ou Shakespeare. E quem foi, em filosofia o nosso mentor, Guilherme? O magnífico Trindade Santos e o Platão que ele nos ensinou a ler? E o que é ser um discípulo? Conseguirei eu ser, como editor, algo que se pareça a um teu discípulo?

Acabaria assim se Guilherme Valente, editor de meio-século, fundador desta gruta mágica, não me fizesse levantar a cabeça, obrigando-me a olhar de frente para Klara e o Sol, do Nobel Kazuo Ishiguro. Estou de olhos nos olhos com Klara, a amiga andróide. No céu, o Sol contempla-nos. Indiferente à nossa natureza, ilumina-nos, aquece-nos, dá-nos energia. Qual de nós o ama mais?

Foram estes os cinco livros de Natal que trouxe desta primeira viagem ao bosque de frutos encantados que se chama Gradiva, jardim que, com minucioso e fremente amor, Guilherme Valente criou e de que quero agora ser  fiel jardineiro.

Livros Guerra & Paz que serão sempre de Natal

Há prendas, quase uma confissão sussurrada, que só se dão a quem muito se ama. Ou talvez a quem queremos que muito nos ame. Há livros que são essas prendas, suspiros de Natal, afago discreto de um dedo a deslizar na arrepiada pele. 

E se o Natal é mesmo essa onda devastadora de tudo se amar, até mesmo os inimigos, mais do que oferecer a outra face, por que não oferecer, a amigos e inimigos, a surpresa da intensa beleza que vem da China? 

Ouçam, leiam bem o título deste livro do modesto funcionário público do século XIX chinês que foi Shen Fu: No Fio Inconstante dos Dias: Memórias de Uma Vida Flutuante. Quanta ternura e quanta incerteza não peregrinam por esses dias prometidos, por essa vida navegante? É uma história de amor, com concubinas e barcos de flores, com um boémio curso de vinho de arroz, e é também, em fundo, a paisagem chinesa, rios e montanhas, jardins e palácios, amor e morte.

Outra prenda, toda em veludo, é O Crisântemo e a Espada, essa declaração de amor que a antropóloga Ruth Benedict dedicou ao Japão e aos japoneses. Honra e dívida, pais e filhos, devoção filial, fica tão lindamente exposta toda a delicada reserva japonesa, a íntima filigrana de que é feito o povo do sol nascente. 

A antiquíssimas aventuras é que nos leva outra mulher, Jessie L. Weston. Escreveu Do Ritual ao Romance só para nos mostrar de quantos e tão remotos rituais vêm os nossos ideais de cavalaria, a salvação de donzelas, a morte do rei; de tão longínquo e tão enraizado paganismo vem também o que ainda nos sobra de cristianismo. Lê-se como uma novela da Távola Redonda e foi neste Do Ritual ao Romance que se inspiraram A Terra Devastada de T. S. Eliot e o Apocalypse Now, de Coppola. 

A quem queremos oferecer o corpo, a quem queremos que nos ofereça o corpo é que entregaremos a Cartografia do Desejo, o livro com as mais libérrimas fotografias de Alfredo Cunha. Não é apenas o aroma da nudez que Alfredo Cunha nos oferece: em cada fotografia sua está o essencial de um corpo, o seu movimento, e sobretudo a projecção do seu desejo. O desejo é a preto e branco, e é de lençol de seda a suavidade do papel gardapat, cama em que cada fotografia se deita. 

Para acabar, deixem-me ir buscar o sorriso de fina ironia de Agustina Bessa-Luís. Tomando nas suas mãos 12 episódios da nossa história de mil anos, Agustina somou a essa história a glória e o ciúme, a lealdade e a traição, a espada e o punhal. Agustina romanceou, delirou, dramatizou, ironizou, com liberdade prodigiosa, um dos mais espantosos e escondidos dos seus livros, Fama e Segredo na História de Portugal. Passe o Natal com este livro que até ao Menino Jesus de Caeiro arrancaria um sorriso trocista.

Manuel S. Fonseca, Editor