O charmoso xixi feminino

Já a ditadura de Marcello Caetano estava de língua ressequida e foi quando eu tive a minha primeira solidão. A solidão, recordo aos mais felizes, não é estar sozinho.

Eu acabara de chegar a Portugal, de onde saíra aos 5 anos, pouco mais do que de bibe. Ao contrário de Billy Wilder, esse austríaco a quem vou implorar que seja ele a falar-vos, eu falava a língua. Não falar a língua é a primeira janela virada para a solidão, confirma o austríaco que tanto havia de filmar Marilyn: olhos, lábios, seios, nádegas e pernas, e nunca por esta ordem, reconhecendo ao corpo dessa extraordinária mulher uma solidão que mais ninguém tão bem lhe reconheceu.

É certo que eu falava a língua, mas no quarto alugado de Lisboa, encostado à estação do Rego e aos seus incompreensíveis comboios, não cabiam as esquindivas e os uatobos, esses espantos caluandas da minha adolescência, nem a cambada de «k» – «kome é ké meu kamba?» – com que ajindungávamos a língua. Lisboa transbordava e eu era a gota invisível que derrapava pelo lisinho vidro do copo abaixo. A minha solidão durou uma semana.

A fugir de Hitler, foi assim que Billy Wilder chegou a Hollywood. Embrulhado, diga-se, num equívoco maior do que o cesto do bebé Moisés a flutuar no rio Nilo. Como Moisés, Wilder fora contratado para escrever guiões. Os de Wilder seriam guiões para filmes, o que ele sabia escrever: só lhe faltava era saber falar inglês. Eis a solidão de Wilder: os estúdios de Hollywood, atarantados, arrumaram-no, no Natal de 1935, numa cave, na antecâmara do toilete das mulheres, num dos hotéis de Sunset. Elas vinham aliviar o sibilante e charmoso xixi ou retocar a faiscante doçura da maquilhagem, e ali estava o homenzinho austríaco – «funny» em inglês, ridículo em português –, atormentado pela insónia, que os intrigados risinhos femininos mais isolavam nas perdidas horas da noite escura.

A solidão de Wilder durou três anos. Ou menos. O arrebatador sucesso de «Bluebeard’s Eight Wife», e logo a seguir da obra-prima anticomunista, toda debruada a Greta Garbo, que é «Ninotchka», filmes que Wilder escreveu em inglês, mostraram que a genialidade é poliglota. Wilder quis então, já era 1939 e já lhe fora concedida a amenidade de ser americano, relembrar, numa pequena comédia, a solidão da cave e do rumor do xixi feminino. O filme chamou-se «Hold Back the Dawn» e a cena é premonitória: já perceberão porquê, convido Donald Trump a ser o elefante na sala.

O herói do filme, o actor francês Charles Boyer, é um romeno, um alegre gigolo, digamos assim, que chega à fronteira de Tijuana e, tal como os imigrantes mexicanos, fica retido, sem visto. Desespera e espera, ainda Trump não nascera. Confinado ao quarto rasca, roça-se pelas paredes, preguiça no colchão miserável, a mesma solidão e invisibilidade que Wilder saboreara à porta de um WC. Sabe-se lá de que frincha, aparece uma barata. Boyer olha para ela, para essa irrupção insolente e interpela-a: «Mas onde é que julgas que vais?» O silêncio culpado da barata não o comove: «Tens passaporte? Tens visto? Mostra-o!»

Boyer, cuja «fine bouche» nunca terá mordido a solidão de Wilder, recusou fazer a cena. Reclamou todos os galões de vedeta. A discussão com Wilder foi azeda: «Ninguém fala com uma barata! Queres fazer de mim estúpido. Vai-te embora, antes que te mate!»

O actor francês roubou ao mundo uma cena pungente: a fronteira da invisibilidade e da inumanidade, quando alguém já não tem mais nada que o ligue à vida do que um inusitado insecto rastejante ou o som nostálgico do distante xixi de uma mulher.

Publicado no Weekend, o suplemento de todas as 6.ªs do Jornal de Negócios

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