O medo de ficarmos sem língua

o banho

O medo é uma das grandes paixões da humanidade. Sem lobos maus, sem bruxas feias, perversas e iníquas, as histórias que os pais nos leram na nossa infância e que também nós lemos aos nossos filhos, não valiam um caracol. O cinema apaixonou-se pelo medo desde o início. É verdade que o cinema também se apaixonou pelo amor, mas a paixão pelo medo provocou bem mais gemidos e gritos, bem mais sobressaltos do que o esfusiante estica e encolhe do amor.

É com todos os requintes do medo que os grandes realizadores conseguem que o espectador mexa o rabo na cadeira, prova de que a expressão “quem tem cu, tem medo”, tem o realíssimo significado de um buraquinho em que não cabe nem um feijão.

Nenhum realizador viveu tanto como Alfred Hitchcock do sofisticado beijo na boca à boca do medo. Saíram da cabeça dele as melhores cenas de suspense e medo que os nossos olhinhos já comeram. Escolho uma, do filme “Psycho”, em que, com uma faca e uma cortina de duche, Hitchcock redefiniu o terror.

“Psycho” baseia-se na história real de um criminoso, que não matou nenhuma das víti­mas no banho, limitando-se a cortar-lhes a cabeça. Mas, como todos sabemos, a realidade é pobre e uma girândola de mortes e cabeças cortadas eram soluções que desagra­da­vam a Hit­ch­cock. Não gos­tava de muitas mor­tes nos fil­mes – “os cadá­ve­res não sabem representar”, explicou ele, achando que era um desperdí­cio e uma san­gria desa­tada cortar-se sim­ples­mente a cabeça à vítima.

O plá­cido cine­asta inglês tinha inveja do que os realizadores do cinema mudo tinham feito, nos anos 10 e 20 do século XX, às suas actri­zes. Nessa altura, jurava o velho Hitch, os realizadores sabiam tor­tu­rar uma mulher e “faziam aquilo bem feito”. Ins­pi­rado nessa tradição, nasceu na cabeça de Hit­ch­cock a bela e cri­mi­nosa ideia de matar no banho a sua pro­ta­go­nista, Janet Leigh, aos 47 minu­tos de filme.

A personagem de Janet Leigh está em fuga. Conluiou-se com o amante e roubou uma pipa de massa ao seu patrão. Uma coisinha de nada, que mereceria hoje uma gritada comissão de inquérito na Assembleia da República. Janet mete-se à estrada e pára num daqueles mágicos motéis americanos no meio de nenhures. Está mesmo a precisar de um duche e nós de a vermos despir-se.

E eis que o velho realizador inglês a mata. Três minutos de chuveiro e umas 50 facadas são a matéria-prima dessa cena sublime de Hitchcock. É um prodígio de montagem, uma combinação fabulosa de música, grandes planos, água, chuveiro, cortina de plástico e reacções humanas. Se virmos bem são ingredientes humildes, prosaicos, sem valor estético, mas a combinação é artisticamente sublime, num preto e branco que era, em 1960, já anacrónico e raro.

O pai de uma jovem espectadora escreveu a Hitchcock a acusá-lo e a ameaçar meter-lhe um processo. Era uma desses pais “woke”, mesmo antes dos “woke” existirem. Vinha choramingar-se, dizendo que a filha, depois de ter visto o filme, se recusava há meses a entrar no duche. O velho e gordo cineasta respondeu ao papá em apuros, escrevendo: “Mande-a à limpeza a seco.”

Estamos num motel, Janet Leigh vai ao duche e, naqueles anos 60 em que a nudez era rara e castigada, queríamos vê-la despir-se. O milagre é que a tensão erótica não só não desaparece como entra em hiperventilação quando um indecifrável vulto irrompe no duche e a implacável faca, como uma águia predadora, pica sobre o corpo nu de Janet Leigh. A boca do medo oferece-se e nós, como espectadores, deleitamo-nos a beijá-la. Sem o medo de ficarmos sem língua queríamos lá saber do “french kissing”!

Publicado no Jornal de Negócios

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