Jorge de Sena, minha guerra, minha paz

Ontem, a Cinemateca Portuguesa convidou-me para falar de Jorge de Sena, na sessão de inauguração do ciclo de cinema comemorativo do centenário de Jorge de Sena. Por ter sido eu, em 1987, o organizador de um livrinho, Jorge de Sena e o Cinema, que reunia os textos que o autor escreveu sobre filmes. Este ciclo da Cinemateca cruza-se com outro ciclo, o da comemoração do centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen. Sena e Sofia tinham uma electiva afinidade e trocaram uma correspondência brilhante, lindíssima, reunida num livro de que eu sou o editor. É uma das mais belas correspondências da literatura portuguesa. Gosto muito das outras correspondências de sena que publiquei, com Gaspar Simões, Delfim Santos, Raul Leal e Eugénio de Andrade, mas há um lirismo, uma veemência, uma poética na Correspondência Sena-Sophia que, aposto, as letras portuguesas não voltarão a repetir. E agora o texto da minha intervenção, ontem, na Cinemateca. 

3d-Sena-Sophia

Um dia, num dos seus textos, Jorge de Sena comparou a esmagadora e secular grandeza das sequóias com a risível aparência do arbusto a que chamamos pilriteiro. Pois bem, eu hoje, aqui, a falar-vos nesta sessão, sinto-me um pilriteiro. E fui ver se o daninho arbusto tinha outros nomes e tem. Chamam-lhe cambrulheiro, combroeiro, escalheiro, estrapoeiro. Nenhum destes nomes é muito motivador ou digno. Só me resta, na minha condição de pilriteiro ou estrapoeiro, pedir-vos desculpa. Vamos todos esquecer o arbusto e pôr os olhos na sequóia.

Agradeço ao Eng. José Manuel Costa, director da Cinemateca, e à Cinemateca, o convite que me dirigiu para eu estar presente nesta homenagem a Jorge de Sena. Quero dizer a Isabel de Sena que é uma honra partilhar este momento e que foi um prazer ter já editado três livros com ela, na sua condição de guardiã da obra do poeta, romancista e ensaísta. Toca-me também estar ao lado de Gastão Cruz, cuja Teoria da Fala marcou poeticamente o final da minha adolescência, isto para não falar da leitura obsessiva, em 73, dos textos da Poesia Portuguesa Hoje, seu pequeno livro de ensaios. E saúdo a Antónia Fonseca, se bem sei relações públicas da Cinemateca, que faz o favor de formar comigo um casal heterossexual, por razões que adiante se verão.

Em 1984 ou 1985, já não sei bem, João Bénard da Costa pespegou-me com uma catrefa de caixotes contendo uns bons milhares de páginas dactilografadas, se é que alguém aqui ainda sabe o que é uma página dactilografada. Vinham com agrafos, alguns já ferrugentos, e estavam riscadas a lápis azul e lápis vermelho da censura, com muitas notas manuscritas. Era o acervo do JUBA, Jardim Universitário de Belas Artes, uma organização que promovia um evento, as terças-feiras clássicas, nas quais uma personalidade da cultura portuguesa falava sobre um filme de qualidade.

A ordem era que eu tirasse daquele imbróglio um conjunto de publicações que permitissem às gerações futuras saber que e como a intelectualidade dos anos 50 se relacionou com o cinema. Estavam ali textos de Vitorino Nemésio, Delfim Santos, Vieira de Almeida entre outros.

Confesso, eu só tive olhos para a sequóia chamada Jorge de Sena. Os textos dele constituíam um corpo literário, crítico e teórico coerente, imagem da sua cinefilia, mas também um quadro comparativo, tão ao gosto de Sena, da relação daqueles filmes com o seu tempo social e político e com as outras artes, a literatura e o teatro, umas vezes as artes desse tempo, na maior parte das vezes recorrendo a ousados paralelos com as grandes figuras de um passado que nem poderia adivinhar que existiria cinema, de Caldéron a Shakespeare.

E lá fui eu, com a minha arrogância de pilriteiro, dizer a João Bénard o que ele queria ouvir: devíamos publicar os textos por autores e o primeiro livro tinha de ser o desse pasmoso e inenarrável Jorge de Sena. O João Bénard levantou-me ao colo, deu-me o nihil obstat e mandou-me falar a quem de direito, à sequóia mãe, Mécia de Sena.

Uns dias depois, para resumirmos e acelerarmos, eu estava a bater à porta do 939 Randolph Road, Santa Barbara California 93111-1031 USA. A porta abriu-se e eu logo pus um pé na casinha japonesa, como costumo dizer tantos eram os vidros, paredes e janela a abrirem-se para o exterior, na bela sala forrada a livros e discos onde vivera Jorge de Sena.

E descobri uma mulher prodigiosa, um dragão a defender o seu castelo, uma torrencial vontade de conversar, um conhecimento avassalador do meio literário português, capaz de falar de tudo isso na sua cozinha americana e armar um jantar para 10 pessoas, enquanto divagava de Óscar Lopes a Eduardo Lourenço, de um ciclo de cinema de Taiwan a uma ópera de Verdi.

 A Dona Mécia de Sena devo muita coisa, ter-me levado pela mão a fazer este livro com os textos de cinema de Sena, ter-me instado a escrever a notinha que o antecede, e ter-me proposto outros livros de Sena que depois publiquei.

Mas deixem que recorde com ternura, ao meu estilo pilriteiro, o piquenique que ela e Maria de Lurdes Belchior me prepararam e que com elas partilhei numa das missões espanholas que pontuam a estrada de Santa Barbara a São Francisco. Quem comeu na América um piquenique com ovos verdes e bolinhos de bacalhau?

E agora tenho de entrar por caminhos mais confessionais. A minha entusiástica escolha dos textos de Jorge de Sena para o meu primeiro livro das terças feiras clássicas tinha um perigoso antecedente. No meu périplo seniano há um episódio erótico que, por fim, desvelo.

A 10 de Junho de 1977, Jorge de Sena fez um discurso na Guarda. No seu estilo arrebatado defendeu a imagem de um Camões de amor e tolerância, um Camões que, “tão orgulhosamente português, entenderia todas as independências se fosse em vida o nosso contemporâneo como ele o é na obra que nos legou”, para glória máxima da língua que falamos.

Jorge de Sena lançava ao vento estas palavras e ouviam-nas os meus ouvidos e ouviam-nas os ouvidos da Antónia Fonseca. E ali estávamos os dois, num apartamento da Costa da Caparica, olhos semicerrados ao mar de Junho, cada vez mais de mão na mão, a contar dedos de duas mãos, e a dar dez, ainda longe desse poema de Sena em que há um dedo a mais.

Já levamos 42 anos de evidências, metamorfoses e exorcismos. Como Sena também podemos dizer, Conheço o sal que resta em minha mãos, / como nas praias o perfume fica / quando a maré desceu e se retrai.

Como editor, que nunca esperei ser, nem nesse dia 10 de Junho, de Sena publiquei inéditos, correspondências, poesia, conto e novela, um total de oito livros, já três com Isabel de Sena.

E a imagem da sequóia não me sai da cabeça. Sena é uma floresta de sequóias. A sua poesia é grande na poesia portuguesa. Poesia discursiva, poesia de ideias, poesia que se combina com outras artes; poesia que nunca abdicando da inteligência não deixa de ser lírica, pungente e emotiva.

A sua ficção, e em particular Os Sinais de Fogo, tem um fulgor narrativo raro, e uma linguagem que nos lava do sarro e ceroulas de tanta prosa portuguesa.

Sena escreveu sobre Marx, Maquiavel, sobre Rimbaud, Cavafy , Rilke e escreveu até uma admirável história da literatura inglesa. Mas é quando escreve sobre a literatura portuguesa, sobre Camilo ou Fialho, Eça ou Garrett, que percebemos a sequóia que tanto hoje aqui evoquei.

Nesses ensaios, os Estudos de Literatura Portuguesa, reunidos em três volumes, o brilhante comparativista que ele é, tira os nossos escritores do nosso gulag literário e obriga-nos a compará-los com Balzacs e Flauberts, com Dickens ou Pushkins, Keats ou Leopardis, cruzando o nosso tempo com o tempo social, tecnológico, económico e político das Franças ou das Américas, das Rússias ou das Espanhas, das Inglaterras ou das Alemanhas, por mais que essa comparação nos encandeie, nos cegue ou nos deslumbre.

Esses seus ensaios, em particular o soberbo Uma Canção de Camões, recriaram Camões, libertando-o, para indignação de muitos, de um eruditismo bacoco e de um nacionalismo serôdio. E recriaram ainda Fernando Pessoa, dando-lhe nos dois volumes de Fernando Pessoa e Companhia Heterónima, o dispositivo conceptual e interpretativo que põe Pessoa na história da literatura mundial.

Este é o Jorge de Sena para que levanto os olhos. É uma sequóia, mas não nos deve assustar. Devemos é sentar-nos, viver, amar, ler e adormecermos encostados ao seu vasto tronco. Eu acho que era isso exactamente o que Mécia de Sena me quis dizer quando me ofereceu o piquenique nas missões espanholas de El Camino Real.

Ou a literatura, os livros, os poemas, contos e romances nos entram pela vida e pelo corpo dentro ou não são sequóias. Jorge de Sena defendeu e louvou as conexões com a cultura, com a história, com a linguagem. Com a vida também e mais do que nenhuma outra, que é da vida que colhemos uma alegria imensa.

Ou como ele disse neste poema, provavelmente dedicado à Isabel:

Às vezes, com minha filha no chão junto de mim,
fecho os olhos numa acção de graças…

Mas logo ela galreia;
nem isso me consente.

E regresso um pouco triste a uma alegria imensa.

 DSC_0556

Este é o outro livro que toca a mais sensível corda do meu coração. Publiquei, por imensa gentileza de Isabel de Sena, O Físico Prodigioso. Nesta edição a ouro.

4 thoughts on “Jorge de Sena, minha guerra, minha paz”

  1. Ovos verdes e bolinhos de bacalhau na Califórnia, acompanhados de Sena e Belchior! Ele há pilriteiros com o arbusto virado para a lua…

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  2. Tão bonito o seu discurso sobre Sena com a devida nota a Antónia que a merece.
    Verdade, a correspondência entre Sena e Sophia é de recorte, toda bordada a poesia.
    Sena é, na minha opinião que é uma, um intelectual a sério. E não brincava em serviço. Pasmo com tudo que escreveu em apenas uma vida.

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